sexta-feira, 16 de março de 2012

Brahe e Kepler: constelação de Picuinhas

Alexandre Versignassi

O nobre Tycho Brahe era o maior astrônomo de seu tempo. E Johannes Kepler, seu ajudante pobretão, foi quem entrou para a história. Mas a parceria que revolucionou o estudo do céu só vingou por causa de intrigas e frustrações bem mundanas.
Algo extraordinário ocorreu em 11 de novembro de 1572: um corpo luminoso surgiu no céu, mais brilhante que qualquer estrela. Na época, não havia telescópios, muito menos observadores de ovnis. Por isso, quase ninguém notou. Quase.
O astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, um jovem nobre de 25 anos, notou e pensou que aquilo fosse uma estrela nova. Mas, se hoje isso soa estranho, simplesmente não fazia sentido para a astronomia do século 16, que era baseada em conceitos mais filosóficos que técnicos. Postulava, por exemplo, que o céu era um retrato da perfeição: deveria ser eterno, imutável. Claro que a idéia de um astro intruso enterrava isso. Mas faltava provar que a novidade celeste era mesmo uma estrela.
E Tycho conseguiu: com um trabalho metódico, provou geometricamente que aquilo estava pelo menos tão distante da Terra quanto qualquer estrela, então não podia ser outra coisa. “Que todos os filósofos fiquem quietos!”, escreveria mais tarde. Mas o que apareceu naquela noite para “calar os filósofos”? Nada menos que uma supernova. Uma estrela que explodiu, aumentando seu brilho em milhões de vezes antes de se apagar para sempre. Durante esse grito de morte, ela ficou visível a olho nu por alguns meses, até se esvair em poeira.
Mal o pó se dissipou no céu e Tycho anunciou no livro A Estrela Nova uma revolução: o céu era mutável. A conclusão deu fama ao jovem aristocrata. O rei da Dinamarca, Frederico II, deu-lhe um feudo na ilha de Ven, um lugar ermo onde poderia fazer observações sem ser importunado, e mandou erguer um grande observatório.
Tycho construiu seus próprios equipamentos e, com eles, conseguia dizer a posição de um astro no céu com cinco vezes mais precisão que outros astrônomos da época. Tycho vasculhou as órbitas planetárias com a intenção de provar que sua forma de ver o Universo era a certa. Para ele, todos os planetas giravam em torno do Sol, menos a Terra. Suas observações reformaram o mapa do céu. O curioso é que um modelo mais próximo do verdadeiro, feito pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico, já tinha sido publicado em 1543. Mas quase todos os acadêmicos consideraram a idéia romântica e sem cabimento. Seja como for, Tycho ficou entre 1576 e 1597 em Ven estudando e registrando órbitas. Mas faltava alguém capaz de dizer se as observações comprovavam ou destruíam sua tese planetária. Ele ainda não conhecia essa pessoa. Mas ela não demoraria a cruzar seu caminho.
Mesmo com sua teoria empacada, Tycho ia colecionando o melhor histórico de observações astronômicas feito até então. Sua fama se espalhou. E não faltaram astrônomos desejosos de saber o que ele tinha em mãos. Um deles era o alemão Johannes Kepler, um ex-seminarista que ganhava a vida como professor de matemática na cidadezinha de Graz, na Áustria.
Filho de um mercenário pobre, Kepler conseguiu estudar graças a uma bolsa de estudos. Na universidade, ganhou um exemplar de um livro de Copérnico. E apaixonou-se pela idéia. Mais: tentou melhorá-la. Aos 25 anos, em 1596, publicou Mistério Cosmográfico, que trazia uma teoria ambiciosa, relacionando as órbitas dos planetas a figuras geométricas. O difícil era provar a coisa toda. Porém ele sabia que, se tivesse acesso aos dados de Tycho, talvez conseguisse. Mas como um professor desconhecido conseguiria falar com o maior astrônomo de seu tempo? O caminho não poderia ter sido mais torto.
Um colega havia dito a Kepler que o melhor jeito de alcançar Tycho era pelo astrônomo germânico Nicolaus Reimers Bär. Conhecido como Ursus (Bär é “urso” em alemão), ele era o matemático oficial de Rodolfo II, governante do Sacro Império Romano, que dominava o centro da Europa. Não era célebre como Tycho, mas seu cargo lhe dava status. Um ano e meio antes de lançar o livro, Kepler tinha mandado uma carta para ele apresentando sua teoria. Nela, tentou conquistar o matemático imperial na base do puxa-saquismo, escrevendo pérolas como “o pouco que sei aprendi com você” e “o senhor é o primeiro entre os matemáticos, assim como o Sol entre as estrelas”. E olha que ele nunca tinha lido uma linha do sujeito.
Mesmo assim, a resposta só chegou quando Ursus soube que o jovem bajulador tinha mesmo lançado o livro. O matemático imperial pediu uma cópia e Kepler mandou duas: uma para ele e outra para ser enviada a Tycho. Só que o malandro ali era Ursus. Ele realmente tinha passado um tempo com Tycho. Mas sua visita a Ven não fora amistosa. Ursus havia copiado sorrateiramente algumas anotações do dinamarquês e, em 1588, publicou um livro apresentando a teoria de Tycho sobre o movimento dos planetas como se fosse sua. Agora estava para imprimir outro, acusando Tycho de plagiador. E o “urso” jogou pesado. Não contente em acusá-lo de ladrão, insinuou que sua mulher o traía e que ele próprio só não transou com a filha adolescente de Tycho durante sua estadia em Ven porque a menina “não tinha corpo suficiente para isso”.
Foi nesse barco furado que Kepler entrou. Não havia erro maior que usar Ursus para chegar a Tycho. O matemático imperial estava pouco se lixando para a teoria de Kepler. O que ele queria era publicar trechos da carta adulatória no prefácio de seu novo livro. Kepler era desconhecido, mas tinha virado um autor. Seus aplausos dariam algum crédito a Ursus. E foi o que ele fez. Em 1598 mandou uma cópia da obra para Tycho. Junto, foi o trabalho de Kepler – para deixar claro ao inimigo que o puxa-saco do prefácio não era um zé-ninguém.
Foi assim que o nobre Tycho tomou conhecimento da existência de um tal Johannes Kepler e por pouco o Mistério Cosmográfico não foi parar na lareira. O que o salvou talvez tenha sido uma carta de Kepler para Tycho. Com frases naquele estilo que já conhecemos – “o senhor é o príncipe dos matemáticos em todos os tempos” – além de colocar Tycho num pedestal mais alto que o de Ursus, a carta deixou claro que as palmas ao concorrente não eram reais.
Tycho acabou lendo o trabalho de Kepler. Não concordou com a teoria, mas achou o raciocínio brilhante. E viu que sua própria salvação podia estar naquele jovem. Tycho, afinal, precisava de alguém com talento matemático para interpretar suas observações. Só assim sua teoria poderia ser provada. E, agora, isso era um caso de vida ou morte, já que o novo rei da Dinamarca, Cristiano, o expulsara de Ven. Aos 51 anos, ele vivia no exílio, ocupando cargos muito abaixo daqueles aos quais se acostumara.
Em 1600, Tycho chamou Kepler para ser seu assistente. Além de contar com os dotes matemáticos do prodígio, manteria seu talento fora do alcance de Ursus. Mas a parceria foi boa mesmo para Kepler. Quando Tycho morreu, no ano seguinte, ele herdou seus manuscritos feitos em 38 anos de observações, a maior parte, ainda inédita.
Mesmo com tudo nas mãos, Kepler não provou sua teoria que fundia órbitas e figuras geométricas, mas demonstrou a de Copérnico, melhorando-a. Em 1621, concluiu qual era a forma das órbitas planetárias e mostrou como a “força misteriosa” do Sol as distorcia. Tornou-se o primeiro a formular leis matemáticas para o Universo, fundando a astrofísica. Isso pavimentou o caminho para que o inglês Isaac Newton criasse, 60 anos depois, a teoria da gravitação, um marco da história da ciência.
Em 1604, Kepler também havia sido brindado com uma supernova. E olha que outra só seria visível em 1987. Tycho e Kepler foram mais que privilegiados por terem visto uma dessas raridades cada um. Picuinhas à parte, eles mereceram.
Modelos de universos
Como a idéia de organização do cosmo evoluiu com o tempo.

LUA DE CRISTAL
O primeiro modelo astronômico formulado pelo egípcio Cláudio Ptolomeu, no século 2, sugeria que cada planeta girava dentro de esferas cristalinas que envolviam a Terra. As estrelas ficariam numa bola bem maior. Observados apenas a olho nu, os planetas, mais próximos, pareciam se movimentar em relação ao fundo supostamente fixo de estrelas.

REI SOL
A novidade do modelo heliocêntrico, do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), não foi só colocar o Sol como centro do Universo. Mas pôr a Terra “no céu”. Pela idéia aristotélica, então abraçada pela Igreja, os céus eram o lar da perfeição, da harmonia. Algo como a Terra, com suas guerras e sujeiras, não podia fazer parte disso. Copérnico morreu no ano em que sua teoria foi publicada.

IDÉIA HIBRIDA
Apesar de o modelo de Copérnico estar próximo do real, ele foi tão contra o senso comum que a resistência à idéia foi enorme. Mesmo Tycho Brahe (1546-1601), que achava a teoria harmônica, resolveu adaptá-la ao conceito de uma Terra estática. Em seu modelo, os planetas orbitariam o Sol, mas a Terra não. O astro-rei giraria em torno dela, trazendo os outros planetas num carrossel bem complexo.

GEOMETRIA DIVINA
Como o grego Pitágoras (século 6 a.C.), Johannes Kepler achava que a geometria traduzia a natureza. Baseada em Copérnico, sua teoria dizia que as órbitas dos planetas conhecidos – inclusive a da Terra – descreviam os chamados sólidos platônicos. A de Saturno era um cubo, a de Júpiter um tetraedro e assim por diante. Religioso, dizia ter “lido a mente de Deus”.

MUNDOS NOVOS
Galileu Galilei foi o primeiro a usar um telescópio para estudar o céu, em 1609. Descreveu “orelhas” em Saturno e luas em Júpiter. A essa altura, Kepler concluía que as órbitas dos planetas eram elípticas. Ao notar que, quanto mais longe um planeta está do Sol, mais lenta é sua órbita, formulou como a gravidade influencia esse movimento – sem que a teoria da gravitação sequer existisse.

UNIVERSOS-ILHA
Só com o astrônomo alemão William Herschel (1738-1822) o Universo ampliou suas fronteiras. Ele descobriu Urano em 1781 – Netuno e Plutão seriam localizados nos 200 anos seguintes. Herschel concluiu que as nebulosas eram compostas por estrelas muito distantes. Nascia o conceito de que o cosmo é cheio de aglomerados estelares, com bilhões de sóis cada um.

ALÉM DO ALCANCE
A percepção moderna do cosmo nasceu em 1927. Depois de descobrir que o Universo é dividido em galáxias, o americano Edwin Hubble (1889-1953) viu que elas se afastavam umas das outras. A expansão teria começado há cerca de 15 bilhões de anos. Era a teoria do big bang. A imagem ao lado mostra o mais potente telescópio em órbita da Terra, batizado em sua homenagem.

 Revista Aventuras na História n° 011

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