sexta-feira, 23 de março de 2012

Chineses e japoneses, amigos para sempre

Isabelle Somma

Com muito mais em comum que a aparência, chineses e japoneses têm mais de mil anos de convivência. Uma história de comércio, cooperação, rivalidade, invasões e guerras.
Após 20 anos de preparativos e quase um século de ressentimentos, o imperador japonês Akihito desembarcou na capital chinesa. A visita, realizada em 1992, marcou uma histórica retomada das relações entre dois povos que há mais de 2 mil anos mantêm profundos laços culturais, comerciais e de amizade. Mas que, nos últimos tempos, andavam se estranhando em disputas por território e hegemonia política que resultaram em episódios sangrentos.
Na bagagem, Akihito – cujo período no trono japonês foi chamado de Heisei, ou “aquisição da paz” – levou para a China um longo discurso. Nele, lamentava o “severo sofrimento” causado pelos japoneses, numa referência aos conflitos entre os vizinhos causados pelo expansionismo levado a cabo por seu pai, Hirohito, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. É claro que simples palavras não apagaram os ressentimentos (e você vai ver mais à frente nesta matéria que há motivos de sobra para eles), mas serviram para reviver a memória do passado de cooperação e amizade entre os dois países.
Além da semelhança física, os dois povos possuem muitas características culturais em comum. Se ainda persistem as polêmicas sobre um possível antepassado comum entre os dois povos, não há dúvidas sobre a influência cultural da China sobre o Japão. “Os japoneses compartilham com os chineses o costume do cultivo do arroz, o budismo, o confucionismo e outras tradições religiosas. Muito da cultura tradicional japonesa é derivada de modelos chineses, especialmente pintura, escultura e outras artes”, diz Peter Duus, professor de história do Japão da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Para ele, a difusão da cultura chinesa se deu principalmente pelas rotas comerciais e os intercâmbios entre religiosos.
O auge desse intercâmbio ocorreu na dinastia Tang, na China, entre 618 e 907, e foi, na maior parte do tempo, amistoso. Porém, durante um breve período, essa influência foi uma imposição chinesa, que submeteu os japoneses a acordos de vassalagem. “O Japão nunca foi colonizado pela China, mas quando ela era mais poderosa, entre os séculos 8 e 10, os japoneses tinham de enviar homens para servir ao império chinês e pagar-lhe tributos”, afirma Xin Liu, professor do departamento de antropologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. Segundo ele, foi nessa época que a escrita chinesa chegou ao Japão. “Apesar de as línguas serem completamente diferentes, os japoneses adotaram como forma de escrita os kanjis, ideogramas de origem chinesa. Hoje, a escrita japonesa ainda usa muitos desses caracteres”, diz Liu.
Segundo Peter Duus, autor de The Cambridge History of Japan (“A História do Japão da Editora Cambridge”, inédito no Brasil), as relações entre chineses e japoneses foram cordiais na Antiguidade e na Idade Média. Mas as coisas mudaram com a chegada dos mongóis à China. Expansionista, o exército de Gêngis Khan conquistou grande parte do continente asiático no século 13, e quando seu neto Kublai Khan (1215-1294) assumiu o trono chinês, o Japão se tornou o próximo alvo. Os mongóis, que não sabiam navegar, recrutaram marinheiros chineses e coreanos para invadir a ilha.
Por duas vezes Kublai tentou chegar ao Japão. Em ambas as tentativas, nos anos de 1274 e 1281, foi repelido. “Textos antigos contam que os japoneses tiveram uma ajuda providencial. Nas duas tentativas, fortes tempestades afundaram parte da frota mongol”, diz Victor Koschmann, historiador da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. “Entre mito e realidade, o fato é que os invasores foram expulsos antes que desembarcassem.” Em agradecimento, os vitoriosos apelidaram esse fenômeno de kamikaze, ou “ventos divinos”.
Passada a turbulência, os dois países retomaram as boas relações, baseadas no comércio. Enquanto chineses vendiam grandes quantidades de chá, especiarias e seda para os japoneses, os ilhéus exportavam alimentos. “Entre os séculos 14 e 15, a única animosidade foram ataques de piratas japoneses – e coreanos –, que saqueavam barcos e comunidades costeiras chinesas”, diz Duus.
O fato novo que viria a romper a calmaria foi a unificação do Japão, em 1583. Depois de 200 anos de guerras entre os senhores de grandes clãs, o país estava sob nova administração: Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) chegara ao poder após violentas batalhas, nas quais usou seu exército de samurais. Grandes batalhas exigem um exército poderoso. E um exército poderoso sempre exige mais batalhas. Foi assim que, após dominar grande parte do território que hoje forma o atual Japão, Hideyoshi e sua máquina militar pretendiam conquistar a península coreana, a China, as Filipinas e a Índia. “Hideyoshi enviou uma armada para a Coréia com a intenção de conquistar a China. As tropas da dinastia Ming entraram na luta e os expulsaram”, diz Koschmann. A intenção era entrar na Coréia, que tinha defesas mais frágeis, para depois invadir a China.
Assim como Kublai Khan, Hideyoshi tentou duas vezes conquistar o vizinho, em 1592 e 1597. E, como Khan, foi rechaçado. Um ano depois da última tentativa, Hideyoshi morreu. Com isso, o clã Tokugawa assumiu o poder e, três décadas depois, decidiu fechar o país. Entre 1633 e 1867, foi proibida a entrada de estrangeiros no país – assim como a saída de japoneses –, sob pena de morte. Durante esse período, apenas alguns poucos mercadores chineses e holandeses tinham a permissão de desembarcar no porto de Nagasaki para realizar um pequeno porém constante comércio.
A pressão ocidental – e um ultimato americano pela abertura dos portos japoneses – colaborou para o fim da já enfraquecida dinastia Tokugawa. A mudança foi radical. De uma fechada sociedade feudal, o Japão se transformou rapidamente em uma potência militar. Menos de 50 anos após a abertura, o país deu início a uma nova fase em seu relacionamento com a vizinhança. Muito mais “moderno” e violento.
Para Allen Carlson, especialista em relações exteriores da Universidade de Cornell, a face imperialista do novo Japão foi responsável pelos conflitos entre os dois países a partir daí. Primeiro foi a Guerra Sino-Japonesa (1894-95) pelo controle da península da Coréia. Durante o isolamento japonês, a China exercera grande influência sobre aquele país e, no início da década de 1890, o próprio governo coreano solicitou a intervenção militar chinesa para enfrentar uma rebelião interna. Agora fortalecido, o Japão não gostou nadinha da presença chinesa tão próxima de seu território e enviou tropas para a Coréia.
A briga foi curta. E feia. “O moderno e ocidentalizado exército japonês causou grandes baixas aos numerosos chineses”, diz Joshua Fogel, professor de história da China e do Japão na Universidade da Califórnia. Os japoneses ocuparam a Coréia e avançaram até a Manchúria, no nordeste da China, onde ficavam um importante porto e grandes reservas de carvão. “Além de causar mortes e perdas para ambos, a guerra marcou um distanciamento político entre os dois países, que agora estavam em lados diferentes: de um lado, o moderno Japão, alinhado às potências ocidentais, e do outro os chineses, isolados em sua cultura agrária e milenar.”
A guerra terminou com a assinatura do tratado de Shimonoseki, pelo qual os chineses derrotados tiveram que pagar indenizações e entregar Taiwan e outras ilhas para o Japão. Com o fim da guerra, a Coréia tornou-se independente, mas os japoneses não estavam dispostos a deixar o continente e, em 1909, anexaram a península coreana.
A China não teve como reagir e, em 1931, Tóquio anexou toda a região ao império japonês. O pior estava por vir. Um incidente na fronteira entre tropas japonesas na Manchúria e soldados chineses foi o estopim da segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). A invasão japonesa foi marcada por episódios de brutalidade, como a tomada de Nanking (veja na página 44). “A violência das tropas japonesas durante a longa tentativa de submeter os chineses foi o principal causa de ressentimento entre os dois países”, diz Koschmann.
Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, o país teve de abdicar de seu exército e sair dos territórios conquistados no Sudeste Asiático e Pacífico. A China, por outro lado, passou por uma revolução comunista, que levou Mao Tsé-tung ao poder em 1949 e novamente isolou o país. Nas décadas seguintes, apenas acordos pós-guerra e comerciais foram firmados entre ambos os países. Mas as relações diplomáticas eram inexistentes.
No início da década de 1970, os Estados Unidos, que tinham o Japão como um de seus maiores aliados, se aproximaram do país comunista. Os americanos facilitaram uma retomada das relações entre os dois vizinhos, o que resultou numa histórica visita do primeiro-ministro japonês a Pequim em 1972. Mas somente 20 anos depois o imperador Akihito, filho de Hirohito, governante do país durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, visitou a China. Dessa vez, o país era uma potência econômica – e militar, afinal tem a maior população do mundo e o maior exército também. “Apesar da animosidade histórica e do potencial de conflito em interesses de segurança, os assuntos econômicos têm prevalecido nas conversas entre os dois lados”, diz Allen Carlson.
E mais uma vez o comércio, aquele mesmo praticado desde a Antiguidade entre os habitantes da ilha e do continente, voltou a ser o mais importante para os dois lados.
Seis semanas em Nanking
A presença japonesa na capitalchinesa deixou milhares de mortos e uma ferida que ainda sangra
Na iminência de ser invadida, a então capital chinesa, Nanking, se preparou. Era o início do inverno de 1937 e as tropas do general Matsui Iwane, cerca de 50 mil homens, estavam a caminho. Grande parte da população fugiu. Todos os trens partiam lotados. Quem não pôde – cerca de 500 mil civis e 90 mil soldados – presenciou ou foi vítima de seis semanas de brutalidade. Era o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa. Os soldados japoneses invadiram rapidamente o país a partir da Manchúria. A falta de armamentos e de organização dos chineses fez com que os invasores dominassem sem dificuldade o país. Apesar de possuírem equipamentos e treinamento militar mais sofisticados, os japoneses perdiam em número de combatentes. Por isso, ao chegar à capital, os comandantes do cerco prometeram que aqueles que se rendessem seriam poupados. No entanto, não foi o que aconteceu. Os prisioneiros foram sistematicamente assassinados, muitos deles como alvo de exercícios com baionetas. Os civis também não escaparam. As mulheres receberam tratamento diferenciado. Antes de serem assassinadas, elas eram estupradas repetidas vezes, num hábito que ficou tão notório durante esse mês e meio, que o período ficou conhecido na China como “o estupro de Nanking”. Não há número oficial de vítimas, apenas estimativas que vão de 100 mil a 300 mil mortos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o general Iwane, que comandou a entrada em Nanking, e outro oficial, Tani Hisao, foram julgados por um tribunal internacional, condenados à pena de morte por crimes de guerra e executados. Mas nunca houve um pedido oficial de desculpas. De acordo com o professor Koschmann, o imperador e outros membros do governo japonês utilizaram apenas eufemismos e os livros didáticos do país resistem em abordar o tema. O Japão jamais conseguiu controlar a China. Mas o sentimento nacionalista contra o invasor foi um dos fatores determinantes para fazer nascer líderes militares na até então adormecida China. Um deles, Mao Tsé-tung, conseguiria, anos depois, acordar o grande dragão.

Quem é quem
As raízes da semelhança são físicas e culturais
Eles se parecem, mas não são iguais. Até hoje há controvérsias sobre a possibilidade de os japoneses serem descendentes de povos que habitavam a China atual. “A hipótese mais aceita é a de que os japoneses têm a mesma origem dos coreanos, vindos do norte da Ásia. Uma mistura de povos que viviam em Okinawa e Taiwan e os ainu, primeiros habitantes do arquipélago japonês”, diz George de Vos, antropólogo da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Segundo ele, prova disso é a origem comum das línguas japonesa e coreana, que pertencem ao mesmo tronco, o altaico. Ambas muito diferentes do chinês. Xin Liu, da mesma universidade, concorda. “Não há evidência que apóie a tese de que os japoneses descendem dos chineses. É mais provável que seus ancestrais sejam coreanos”, diz. Quanto à semelhança física, Xin Liu, que tem origem chinesa, diz que é grande. “Apesar de os chineses acharem que os japoneses são mais baixos, a grande diferença é cultural e lingüística.” Quanto à estatura, o antropólogo, Grant Evans, da Universidade de Hong Kong, discorda. Segundo ele, graças a uma dieta melhor, atualmente os japoneses é que são mais altos. “Os japoneses são mais formais no dia-a-dia que os chineses. Isso faz com que seja fácil ver a diferença entre eles”, diz Evans. Ou seja, as diferenças entre os povos asiáticos, assim como para os europeus, estão muito mais na cultura que em qualquer outra coisa. “É quase impossível distinguir a maioria dos asiáticos do leste. São pequenos detalhes: entre os japoneses, a barba é mais comum que entre os chineses, por exemplo”, afirma de Vos.
Isso é China

Cerimônia do Chá
De origem chinesa, o ritual foi introduzido no Japão no século 16. Hoje não é mais encontrado no continente, mas a tradição continua viva no arquipélago japonês.

Kanji
Há muitos séculos os japoneses utilizam os ideogramas chineses e por isso parte deles foi adaptada. Mas as duas línguas são de troncos diferentes.

Laqueado
A técnica surgiu na China por volta do século 4 a.C. Consiste em utilizar a goma de uma árvore para recobrir móveis e utensílios. Também se desenvolveu no Japão.

Yakisoba
É quase certo que o macarrão é uma invenção chinesa. Os japoneses o adaptaram ao seu paladar e também absorveram, quase como seu, o lámen .

 Isso é Japão
Xintoísmo

A religião de origem japonesa prega a comunhão com a natureza e o culto aos antepassados. Seu maior símbolo, o Tori, representa a separação com o mundo divino.
Hiragana

Os símbolos representam sons, diferentemente dos kanji, em que representam significados. São usados para palavras japonesas.
Geta

Usar o tamanquinho japonês é quase um desafio para os ocidentais. Pode parecer estranho, mas é ótimo para não molhar os pés depois da chuva.
Trem-Bala

O shinkansen é o orgulho nacional. A primeira linha foi inaugurada em 1964 e apenas muitos anos depois a Europa conseguiu construir um trem similar .
Revista Aventuras na História n° 012

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