Superprodução Olga revela a face anti- semita do governo Vargas.
Não havia pecado maior no Brasil durante a ditadura do Estado Novo que ser comunista. E judeu. Olga Benário, esposa de Luís Carlos Prestes, líder histórico do comunismo no Brasil, reunia essas duas características. Com uma terceira, sua vida renderia uma das mais conhecidas biografias já escritas no Brasil. Quando foi presa pela polícia política de Getúlio Vargas, Olga estava grávida.Há 20 anos, o jornalista e escritor Fernando Morais mostrou essa história ao mundo. “Até na chamada historiografia operária, Olga nunca passou da ‘mulher de Prestes’. Isso pode ser visto tanto em livros, como o Cavaleiro da Esperança, no qual Jorge Amado dedica um modesto parágrafo a ela, como em álbuns editados pelo Partido Comunista, onde ela, se tanto, merece uma referência telegráfica”, diz Fernando. Anita Prestes, filha de Olga, discorda.
Seja como for, a curta e dramática vida de Olga que chega às telas ganhou emoção e tons de superprodução. Apesar de ter se baseado no livro de Fernando Morais, a produtora do filme, Rita Buzzar, pesquisou documentos proibidos na época em que Fernando Morais escreveu o livro. A pesquisa só confirmou a vida trágica da heroína.
Com 18 anos, Olga já militava no Partido Comunista alemão. Aos 20, resgatou incrivelmente o namorado da prisão. Aos 27, falava quatro idiomas, sabia pilotar aviões e saltar de pára-quedas e era exímia amazona. Em 1931, na Rússia, conheceu Prestes, com quem viria ao Brasil para tentar derrubar Getúlio Vargas do poder. A chamada “Intentona Comunista” deu errado, e o casal acabou preso em 1936. Eles nunca mais se viram: Olga foi deportada para a Alemanha nazista.
A deportação de Olga para as mãos de Hitler revela uma face oculta de Getúlio. “O Estado Novo era anticomunista tanto quanto anti- semita. E isso muitas vezes é varrido para debaixo do tapete”, diz a historiadora Maria Luiza Tucci. Um ofício de 1938, por exemplo, recomendava: “Deveremos, o quanto antes, criar restrições aos semitas domiciliados no Brasil, evitando-se que eles venham a se tornar brasileiros”.
As outras "Olgas"
Elas também foram expulsas do país por incomodar Getúlio.
Olga Benário Prestes não foi a única extraditada por Vargas para a Alemanha. Sob a batuta de Filinto Müller, o capitão da polícia da capital federal, a perseguição aos opositores foi implacável, principalmente entre os anos de 1934 e 1937.
Não importava ser mulher, estar grávida, nem ser menor de idade. Elise Ewert, a Sabo, foi uma delas. Chegada ao Brasil com o marido, Arthur Ewert, em 1935, ela conspirou ao lado do casal Prestes e também acabou presa, no ano seguinte. Dividiu a mesma cela que Olga no Rio de Janeiro e morreu na Alemanha em Ravensbrück, o mesmo campo que matou a amiga que mais tarde ficaria famosa.
Antes delas, em julho de 1935, a romena de origem judia Genny Gleiser foi presa e acusada de envolvimento em atividades da Juventude Comunista.
Três meses depois foi expulsa do Brasil por representar um “perigo para a segurança nacional”. “Fui presa inteiramente ao acaso”, disse Genny em 2000, em depoimento à revista Tempo Social, do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo. “Trabalhava, mas queria muito estudar. Conheci um estudante de medicina, que me disse: ‘Venha hoje à tarde à Faculdade de Medicina que eu vou te ajudar para você poder estudar’. Eu fui.
Fiquei esperando e ele não aparecia. Vi que tinha uma reunião no salão. Entrei para ver se ele estava lá. De repente fecharam a porta e prenderam todos.”
Deportada de maneira inconstitucional, já que tinha apenas 17 anos, Genny foi levada do Brasil no vapor Aurigny. “A expulsão de Genny do Brasil detonou uma mobilização pública jamais vista até então no país”, diz a historiadora Maria Luiza Tucci, autora de O Anti-semitismo na Era Vargas. Quando chegou à França, uma ação dos comunistas, que sabiam de antemão da escala em terras francesas, a salvou do porão do navio. O pai de Genny, Motel Gleiser, não teve a mesma sorte. Ele foi expulso do país em dezembro de 1935 e morreu em um campo de concentração alemão. “Fiquei sem meu pai! Isso eu devo ao Getúlio!”, afirmou Genny em 2000. Outra vítima foi a espanhola Julia Garcia, expulsa aos 23 anos de idade, em 8 de junho de 1936, por envolvimento com o comunismo. Tudo por causa de uma suposta correspondência enviada da Espanha pelo irmão Victor Garcia, este sim militante comunista. “A minha prisão foi uma surpresa. A polícia um dia apareceu em casa e disse que o Victor tinha mandado um carta para mim, timbrada com o emblema do Partido Comunista de Astúrias. Victor nunca me escreveu essa carta. E ele nunca ia mandar uma carta timbrada com papel do Partido Comunista”, afirma Julia. Ela morou na Espanha até o final da ditadura Vargas e voltou ao Brasil. Atualmente reside em Santos, no litoral paulista.
Anita, hoje
Depois de separada da mãe na prisão, Anita Leocádia Prestes foi tirada da Alemanha por sua avó, Leocádia, e sua tia. Viveu até os 8 anos no México e só conheceu o pai e o Brasil em 1945, quando acabou a ditadura Vargas. Engajada no Partido Comunista Brasileiro, teve que se exilar duas vezes: em 1950, para escapar de Getúlio, e em 1973, para fugir da ditadura militar, voltando em 1979. Tem hoje 67 anos e é professora de história na UFRJ. Anita falou com Aventuras na História de seu apartamento em Botafogo, no Rio.
Qual o papel do livro de Fernando Morais para a imagem de sua mãe?
Anita – É um engano dizer que até o livro ela foi tida apenas como a mulher de Prestes. Até o partido cair na ilegalidade, em 1947, minha mãe era lembrada todo ano, por sua militância política. Após o golpe de 1964, não houve mais interesse em falar sobre ela. Aí sim, depois da ditadura, o livro resgatou sua história.Como você vê o apoio de seu pai a Getúlio, em 1945?
Anita – Não houve exatamente um apoio. O Partido Comunista apoiou a redemocratização e a luta contra o nazi- fascismo, que Getúlio encampou por causa da pressão norte-americana e popular. Mas meu pai sabia que ele era um político habilidoso. Revista Aventuras na História n° 012
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