Atacadas pelo homem,
recorrem a engenhosos meios para
sobreviver. E até proliferam quando se mexe em seu habitat. Mais temidas que
conhecidas, seus atributos como inseticidas naturais acabam sendo pouco
aproveitados.
Uma esquadrilha de
jatos da Força Aérea Brasileira decolou da Base de Santa Cruz, no Rio de
Janeiro, numa ensolarada manhã de julho de 1961 para cumprir uma missão
inacreditável: destruir um ninho de aranhas. Os aviões de combate estavam
equipados com poderosas bombas incendiárias, prontos para lançá-las sobre um
recanto da baia de Guanabara, na zona norte da cidade. Em poucos instantes, um
verdadeiro inferno de chamas espalhou-se por uma pequena nesga de terra junto à
ilha do Fundão. Um destacamento de soldados da vizinha Base Aérea do Galeão
completou o serviço, encharcando de gasolina e colocando fogo nos poucos metros
quadrados que haviam escapado ao bombardeio. A área transformou-se num deserto
de cinzas fumegantes, levando as autoridades sanitárias do então Estado da
Guanabara a anunciar com satisfação uma fulminante vitória contra o reduto
daquelas indesejáveis criaturas de oito pernas. Proclamou-se que a ilha do
Fundão ficara livre de um terrível aracnídeo, cientificamente conhecido como
Latrodectus curacaviensis. Trata-se, na verdade, de uma minúscula e pacata
aranhazinha com listras pretas e vermelhas no abdome (daí o nome popular,
flamenguinha), cujo veneno, acreditava-se, seria fatal para o homem. O uso de
aviões de guerra contra aranhas pode parecer aberrante. Mas é um excelente
exemplo do pavor que elas inspiram — e da falta de conhecimentos com que frequentemente
o homem as enfrenta. De fato, o que ninguém poderia imaginar é que as
flamenguinhas dispunham de uma engenhosa estratégia de retirada e que sobreviveriam
aos milhares ao ataque, formando colônias em outros pontos do litoral carioca.
Os hábitos da curacaviensis eram então pouco conhecidos — principalmente o
comportamento dos filhotes. Uma jovem flamenguinha, tão logo abandona o
convívio com o resto da ninhada, tece um pequeno balão de fios de teia grudado
- ao abdome. Ao menor deslocamento de ar, o balão levanta o bichinho, que com
as correntes ascendentes de ar quente pode chegar à altitude de várias centenas
de metros.Lá no alto, a pequena balonista até controla o nível do vôo,
aumentando ou diminuindo o volume do balão; consegue assim aterrissar quando
bem entender. Não é difícil imaginar o que aconteceu na ilha do Fundão, quando
as primeiras bombas de napalm atingiram o solo. Os grandes deslocamentos de ar
causados pelos impactos dos projéteis e as colunas ascendentes de ar quente
produzidas pelos incêndios carregaram para a atmosfera uma enorme quantidade de
jovens curacaviensis em seus balões de seda. Portanto, enquanto a velha geração
de aranhas ardia no solo da ilha, suas descendentes planavam tranquilamente ao
sabor das correntes aéreas sobre a baía de Guanabara — algumas rumando para
Niterói, outras em direção à Barra da Tijuca e mais além. Ironicamente, um ano
depois do bombardeio, uma nova e saudável colônia de flamenguinhas foi
encontrada nas proximidades da Base Aérea de Santa Cruz, exatamente de onde
havia partido a missão exterminadora. O bizarro caso das flamenguinhas fez com
que o zoólogo Herman Lent, então diretor da Seção de Entomologia do Instituto
Oswaldo Cruz, apresentasse um extenso relatório condenando o espetacular e
ineficiente método de combate às aranhas e aconselhando que, no futuro, fossem
utilizadas apenas as técnicas convencionais de borrifação com DDT ou BHC,
supervisionadas por especialistas. A própria picada da Latrodectus
curacaviensis foi considerada de baixa periculosidade, em comparação com a da
Latrodectus mactans — a famosa viúva-negra —, a ponto de o dr. Lent prever que
as flamenguinhas não iriam atacar a população. O cientista estava certo: até
hoje, banhistas e aranhas compartilham alguns pontos da orla marítima carioca
sem maiores problemas. Mas poucos seres aterrorizam tanto quanto as aranhas.
Anos depois do bombardeio das flamenguinhas, apareceram na Imprensa paulista
reportagens sobre uma incontrolável invasão de aranhas no elegante bairro do
Morumbi, na zona sul de São Paulo. Donas de casa, em pânico, descreviam
arrepiantes encontros noturnos com enormes criaturas peludas que trafegavam
pelos aposentos das mansões. As aranhas do Morumbi, segundo os relatos, eram
consideravelmente maiores e mais agressivas que as curacaviensis bombardeadas
no Rio. E pior — eram das duas espécies responsáveis pela maioria dos acidentes
com aranhas em todo o Brasil. Uma delas, a aranha-armadeira (Phoneutria
nigriventer), possuidora de um veneno perigoso, principalmente para as
crianças. E a outra, a aranha-lobo (Lycosa erytrognata), cuja peçonha provoca
forte reação na região da picada. Nenhuma delas faz teias. Quando os técnicos
do Instituto Butantã inspecionaram o bairro, conseguiram coletar, em apenas
dois ou três quarteirões, centenas desses aracnídeos, dentro e fora das casas.
Mas não confirmaram a suposta invasão, pois, muito antes dos loteamentos e
construções, as aranhas - lobo e as armadeiras já viviam nas matas da região do
Morumbi. Aparentemente, a própria ocupação urbana estimulara a sua procriação,
na medida em que as construções acabaram por afastar os principais predadores
naturais daquelas aranhas — várias espécies de lagartos e vespas - caçadoras.
Além disso, o lixo que se acumulara nos terrenos baldios deixara proliferar
enorme quantidade de baratas e outros insetos, considerados o prato predileto
dos aracnídeos, assim como o costume de amontoar o entulho das obras no fundo
dos quintais propiciou excelentes abrigos para as duas espécies de aranhas.
Desse modo, o próprio homem articulou a suposta invasão, proporcionando casa e
comida em abundância e, simultaneamente, livrando as aranhas dos seus inimigos
naturais. No Morumbi, os mesmos fatores que estimularam a proliferação daquelas
espécies também causaram grande aumento nas populações de escorpiões e de uma
pequena e tímida aranha — a Loxosceles rufescens, ou aranha-marrom. Pouco maior
que a flamenguinha, ela possui um poderoso veneno capaz de levar à morte por
insuficiência renal, ou seja, os rins da vítima deixam de funcionar. Ao
contrário da aranha-lobo ou da armadeira, que são animais errantes, a
aranha-marrom prefere viver dentro das casas, escondida durante o dia atrás de
móvel ou de quadro encostado à parede. Os raros acidentes causados por esta
espécie acontecem quase sempre quando a vítima veste roupa que ficou pendurada
junto à parede durante a noite, onde a aranha se escondeu. A importância das
aranhas como devoradoras de insetos, principalmente daquelas que constroem
delicadas teias nos jardins, pode ser avaliada pela incrível quantidade de
moscas, mosquitos, cupins e baratas que consomem anualmente.Mas nem todas as aranhas tecem teias e ficam à espera de suas vítimas. Algumas vivem em tocas, atacando os insetos que passam por ali; outras são caçadoras, vagando à procura da próxima refeição. Os habitantes das grandes metrópoles deveriam aprender a olhá-las com mais simpatia e aproveitá-las como eficientes inseticidas naturais em todas as áreas verdes disponíveis. No entanto, é recomendável uma cuidadosa escolha, pois não é exatamente agradável acordar com uma assustadora armadeira no travesseiro.
Os olhos contam tudo
A aranha não é um
inseto. Apesar de pertencer ao mesmo filo, o dos artrópodes (que têm patas
articuladas), é de uma classe própria, Arachnida, da qual fazem parte também os
carrapatos e os escorpiões. As aranhas possuem quatro pares de patas e o corpo
dividido em apenas duas porções: um rechonchudo abdome e uma estrutura
dianteira denominada cefalotórax. Este nome estranho significa apenas que, nos
aracnídeos, a cabeça e o tórax estão fundidos numa única peça. No cefalotórax
acomodam-se, além das oito patas, os olhos e as peças bucais do animal.O número e a disposição dos olhos no cefalotórax são características de fundamental importância para o reconhecimento das aranhas, principalmente das três espécies mais venenosas existentes no Brasil: as armadeiras, assim chamadas pela agressividade com que erguem as patas dianteiras quando ameaçadas, armando o bote, pertencem ao gênero Phoneutria, que tem oito olhos — dois situados logo acima das peças bucais, quatro numa fileira superior e mais dois no topo do cefalotórax; as aranhas-lobo, do gênero Lycosa, também contam com oito olhos, mas quatro deles se alinham acima das peças bucais, vindo logo em seguida outros dois, bem maiores, e o último par no topo; as aranhas-marrons, do gênero Loxosceles, só possuem seis olhos, numa única fileira, agrupados aos pares.
Todas as aranhas são peçonhentas, isto é, inoculam em suas vítimas, geralmente insetos, uma substância que mata ou paralisa e desempenha muitas vezes a função de suco digestivo. Utilizam para isso as duas presas pontiagudas, chamadas quelíceras. No homem, o veneno das aranhas-lobo faz apodrecer os tecidos do local atingido. O das aranhas-marrons, também destrói os glóbulos vermelhos do sangue, o que causa obstrução renal. E o das armadeiras provoca uma dor tão intensa que acarreta hipertensão, sudorese (suores) e taquicardia (aumento dos batimentos cardíacos). Entretanto, poucas espécies injetam um veneno capaz de pôr em risco a vida humana, a não ser no caso de indivíduos de pouco peso ou em más condições físicas.
Ainda que se possa contar com soros específicos para a picada de cada uma das aranhas perigosas, a melhor forma de lidar com elas é conhecer seus hábitos e procurar evitá- las — já que não é o caso de ficar contando seus olhos para saber se são menos ou mais venenosas. O maior número de acidentes acontece nos meses mais frios, durante as horas quentes do dia, e a metade dos casos, dentro de casa. As aranhas podem entrar numa casa por diversos motivos, mas não com o propósito de atacar o homem. Quando suas habitações naturais nas florestas e campos são devastadas por queimadas ou desmatamentos, ou quando suas tocas subterrâneas são revolvidas ou inundadas, elas começam a vagar à procura de novos abrigos.
Épocas de muito frio ou calor, bem como o período de acasalamento, também provocam o mesmo comportamento. Algumas espécies levam uma vida errante, sempre em busca de esconderijos para repousar durante o dia e de onde possam sair à caça com a chegada da noite. Tanto para aquelas sem endereço fixo como para as que procuram um abrigo mais duradouro, as casas, principalmente em sítios. Chácaras ou praias, se apresentam como uma ótima opção. É conveniente, então, para evitar visitas inesperadas, vedar as frestas em janelas, portas e telhados, fazer dedetizações sistemáticas e jamais acumular entulho no quintal.
Revista Super Interessante n° 015
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