Fazendo compras num supermercado, recentemente, ouvi um
jovem pai que repreendia o filho traquinas: "Eu já disse um bilhão de
vezes que não é para mexer nas coisas". E possível que, trinta anos antes,
o avô daquela criança repreendesse o pai, então criança também, com igual
força: "Eu já disse um milhão de vezes..." Ambos exageraram, é claro.
Mesmo que admoestasse o filho sessenta vezes por dia, o avô levaria mais de 45
anos para falar um milhão de vezes. E o pai da geração do bilhão, por mais que
vivesse, jamais conseguiria fazer justiça à sua expressão irada.
O fato é que milhão,
bilhão, trilhão são expressões que entraram para o nosso dia-a-dia. A gente
fala, e muitos nem se dão conta do que estão dizendo. Você sabia que 1 bilhão
de dólares é muito dinheiro nos Estados Unidos e no Brasil, mas é muito, muito
mais na Europa? O dinheiro vale a mesma coisa em toda parte, mas o número é
diferente. Aqui e nos Estados Unidos, 1 bilhão é o número 1 seguido de nove
zeros; na Europa, é o número 1 seguido de doze zeros. Observe que não se trata
de uma diferença no sistema de numeração, mas no nome usado para designar os
números.O milhão, tanto para nós quanto para os europeus, é o resultado da multiplicação de mil por mil. É representado pelo número 1 seguido de seis zeros. Esse milhão, multiplicado por mil, dá um número formado pelo 1 seguido de nove zeros. Nós o chamamos 1 bilhão; os europeus o chamam mil, milhões. Para eles, o bilhão é o 1 seguido de doze zeros, ou seja, o resultado da multiplicação de 1 milhão por 1 milhão. Para nós, esse número é o trilhão.
A forma de determinar, sem ambiguidades, o tamanho real de um número, é simplesmente contar os zeros que se seguem ao 1. Para que isso não seja demorado nem fastidioso, os cientistas escrevem o número como potência de 10. Assim, o 100 é o resultado da multiplicação de 10 por 10, ou seja, 102; o 1 000 é o resultado da multiplicação de 10 por 10 por 10, ou seja, 103; o milhão é a multiplicação de 10 por 10 por 10 por 10 por 10 por 10, ou 106. E assim por diante. Observe que o expoente da potência é o número de zeros que acompanham o 1. Os cientistas escrevem 1013, e sabem exatamente do que estão falando, embora leigos brasileiros chamem esse número 10 trilhões e os leigos europeus 10 bilhões.
Além dessa clareza, a notação exponencial tem outra vantagem: ela é muito prática para fazer multiplicações de números muito grandes. Por exemplo: 1000000000 vezes 10 000 dá um número imenso, 10000000000000. Usando a notação exponencial, podemos escrever: 104 vezes 109 é igual a 1013. Observe que, na multiplicação de duas potências que têm a mesma base, basta repetir a base e somar os exponentes.
O astrônomo americano Carl Sagan escreveu recentemente: "Se em uma galáxia existem em média 1011 estrelas e se existem 1011 galáxias no Universo, então temos 1022 estrelas". Seria muito salutar que a divulgação de notícias envolvendo grandes números fosse feita utilizando-se somente a notação científica. Podemos imaginar quantos enganos a respeito da dívida externa brasileira foram cometidos, conforme as informações procederam da Europa ou dos Estados Unidos. E isso é apenas um exemplo. A História registra muitos outros exemplos interessantes de cálculos feitos com grandes números, que não podem admitir ambiguidades na sua valoração. Vejamos alguns:
O número de palavras impressas desde que Gutenberg imprimiu a sua Bíblia, em 1455, é da ordem 1016. Antigos monumentos maias dão conta de que esse extraordinário povo americano dava ao Universo a idade de 1029 anos.
O matemático grego Arquimedes estimava que seriam necessários 1063 grãos de areia para encher todo o Universo.
O físico inglês Arthur Stanley Eddington calculou, com base na Teoria da Relatividade de Albert Einstein, que o número de elétrons no Universo é da ordem de 1079.
Revista Super Interessante n° 015
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