Rodrigo Ratier
A vida floresce do topo dos 8 850 metros do monte Everest
aos 11 034 metros do abismo submarino na fossa das Marianas, no oceano
Pacífico. Mas nos limites dessa zona só resistem seres que vivem quase sem
alimento, submetidos a pressões enormes ou muito baixas, e adaptados ao frio ou
calor extremos. Conheça alguns desses campeões.
Resistência total Bactérias são as únicas criaturas
encontradas do alto do Everest às profundezas do Pacífico.
SALTO CONGELANTE
A 31 300 metros, o oxigênio é escasso e a temperatura bate
em -55 ºC. Só as bactérias sobrevivem, mas o homem já chegou lá: usando uma
roupa especial contra o frio e respirando por um cilindro de ar, o americano
Joe Kittinger Jr. pulou de um balão, obtendo o recorde de salto com pára- quedas,
em 1960.
PRESSÃO ARTIFICIAL
Conforme aumenta a altitude, a pressão atmosférica cai e o
ar fica rarefeito. Como o ser humano só vive até 4 mil metros sem equipamentos,
os aviões que voam a cerca de 11 mil metros usam um fluxo de ar comprimido,
simulando um ambiente com uma altitude de 1 500 metros dentro da cabine.
VÔO EXTREMO
Entre as aves, um dos
campeões de altura é o ganso selvagem, que voa a 9 mil metros. Além dele,
insetos cujo corpo contém glicerol — componente que impede que o organismo
congele vivem acima dos 6 mil metros.
SONECA GELADA
No ponto mais alto do
planeta, o cume do monte Everest, a 8 850 metros de altitude, foram encontradas
colônias de bactérias capazes de viver abaixo de 0 ºC. Para esses microscópicos
habitantes solitários, o segredo para suportar o frio do topo do mundo é entrar
em estado de dormência quando a temperatura cai muito.
ALTAS ADAPTAÇÕES
A cada 100 metros de
subida, a temperatura cai pelo menos 0,5 ºC. Por isso, a fauna alpina precisa
se preparar para o frio: o iaque selvagem, por exemplo, possui uma grossa
camada de gordura e de pêlos para passar o verão a 6 mil metros de altitude nas
montanhas da Ásia. Outros mamíferos, como a lhama e a cabra-das-neves, possuem
patas antiderrapantes para andar no gelo.
MATA ESCASSA
A vegetação distribui-se em faixas de acordo com a altitude
e a temperatura. Geralmente, as florestas crescem do sopé até os 600 metros.
Daí para cima, as plantas diminuem de tamanho até desaparecerem - no Himalaia,
por exemplo, elas somem a 5 400 metros de altitude. Após esse patamar, o
vegetal que sobrevive é o líquen, que cresce nas rochas e faz fotossíntese a 0
ºC.
MERGULHO FATAL
O maior inimigo dos
mergulhos é a pressão do mar. Ela cresce com a profundidade, comprimindo os
pulmões e reduzindo os batimentos cardíacos. Com tubos de oxigênio, um
mergulhador chega a 440 metros. Sem equipamentos, atinge 170 metros. A campeã,
a francesa Audrey Mestre, morreu em 2002 ao tentar superar seu recorde.
LUZ VITAL
O Sol é a fonte de
energia primordial para a vida na Terra. Plantas, algas e algumas bactérias
fazem fotossíntese, utilizando os raios solares para converter água e gás
carbônico em energia. Assim, eles se desenvolvem e servem de alimento para os
animais, dos insetos ao ser humano.
MULTIDÃO MARÍTIMA
Boa parte da vida nos
mares habita a faixa de assoalho oceânico mais próxima da terra firme, com
menos de mil metros de profundidade e largura média de 70 quilômetros. A grande
concentração de nutrientes atrai mamíferos, peixes, crustáceos e quase todos os
grupos do reino animal para essa região.
FERVURA FÉRTIL
Nas fontes
hidrotermais, a lava vulcânica subterrânea aquece a água e alimenta bactérias
como a Pyrolubus fumarii. Esse ser vivo, encontrado a 3 650 metros da
superfície, sobrevive a 118 ºC e é o início de uma cadeia alimentar com mais de
370 espécies.
ESCURIDÃO ETERNA
A vida nas
profundezas é uma noite fria infinita, pois o sol não passa de 300 metros de
profundidade e os termômetros marcam 2 ºC. Mas algumas espécies se adaptaram a
essas condições: o peixe-pescador, que vive a até 6 mil metros, atrai seu
almoço com uma isca luminosa. Outros seres, como o peixe-víbora e o peixe
dente-de-cão, têm dentes enormes para devorar suas presas.
RECORDE SUBMARINO
O ser humano chegou
uma única vez bem perto do ponto mais profundo dos mares, a fossa das Marianas,
no oceano Pacífico. Em 1960, os exploradores Jacques Piccard e Don Walsh
atingiram 10 912 metros a bordo do submarino Trieste. Hoje, só submersíveis
como o Nautile, da França, e o Shinkai, do Japão, passam dos 6 mil metros.
ERMITÃO DAS
PROFUNDEZAS
Na fossa das Marianas, onde a pressão 1 100 vezes maior do
que ao nível do mar, sobrevivem pepinos-do-mar, mini-crustáceos e bactérias
como as Pseudomonas, mas nenhum peixe foi encontrado. Até agora, o ermitão das
profundezas é o Abyssobrotula galatheae, um peixe visto a 8 370 metros, no
oceano Atlântico.
ESTÔMAGO DE PEDRA
No subsolo da terra firme, uma pequena faixa com cerca de 10
metros de extensão reúne a maior parte da matéria orgânica, concentrando
insetos, roedores e outros animais subterrâneos. Mas há vida abaixo das várias
camadas rochosas: cientistas já encontraram colônias de bactérias sobrevivendo
a mais de 3 mil metros de profundidade. Tudo indica que elas se alimentam de
elementos inorgânicos presentes nas rochas.
Revista Mundo Estranho Edição 19/ 2003
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