Roberto Navarro
Apesar de toda a imponência dessas construções, o cotidiano
não era muito agradável, não. "Além de não contar com conveniências como
água corrente ou aquecimento central, o dia-a-dia dos moradores era barulhento
e desconfortável", diz a historiadora britânica Lise Hull, autora do livro
Scotland and the Castles of Glamorgan ("A Escócia e os Castelos de
Glamorgan"). Os primeiros castelos surgiram na Europa Ocidental ainda no
século 9, construídos com terra, madeira e camadas de pedras para reforçar a
estrutura contra ataques. O modelo mais conhecido, o das fortificações
protegidas por muralhas e cercadas por fossos alagados, apareceu na França, no
século 10. A arquitetura dos castelos era única: não havia dois iguais, mas a
maioria deles partilhava características comuns, como a existência de um salão,
de aposentos exclusivos para o senhor do castelo, de uma capela e de uma torre
para os guardas.Para a maioria dos moradores, um dia típico começava ao nascer do Sol. Algumas camareiras dormiam no chão do quarto do senhor e de sua dama, cuja privacidade era garantida apenas por uma armação de tecidos em volta da cama. Depois de se vestirem, o senhor e sua família iam ao salão para tomar um café da manhã regado a pão e queijo, e logo seguiam para a missa diária na capela. O almoço, servido entre as 10 da manhã e o meio-dia, incluía três ou quatro pratos principais e podia ser acompanhado por apresentações de malabaristas. Durante o dia, enquanto o senhor cuidava da administração, da justiça e da coleta de impostos do feudo, sua esposa tratava da educação dos filhos e supervisionava camareiras e cozinheiras. À noite, apenas uma leve refeição - em geral, uma sopa. Alimentados, os senhores voltavam ao quarto, enquanto os servos se espalhavam pelo chão do salão ou em câmaras no interior da torre.
Bagunça feudal
Fortificações de
pedra eram escuras, barulhentas e tinham pouca higiene.
1. ALMOÇO ANIMADO
Geralmente situado no
andar superior, o salão era um ambiente escuro, enfumaçado e úmido, com
pequenas janelas sem vidro. Durante o dia, o local virava sala de refeições,
ocasionalmente acompanhadas por espetáculos de artistas ou trovadores a que os
servos também podiam assistir. À noite, o lugar se transformava em dormitório
dos criados.
2. COZINHA RÚSTICA
A cozinha era
afastada dos cômodos principais para evitar incêndios. No forno central de fogo
aberto, a comida era cozida em caldeirões e as carnes assadas em espetos de
ferro. Do lado de fora, ficavam gaiolas com aves e outros animais para o abate.
O cardápio do senhores era farto em pão de boa qualidade, carne e bebidas
alcoólicas, especialmente vinho e cerveja.
3. ESTOQUE CHEIO
Em alguns castelos, um
cômodo construído no andar térreo servia de armazém de provisões, como trigo
(usado para fazer pão) e malte (cerveja). O estoque de alimentos incluía ainda
carnes conservadas por salgamento, queijos e sacas de vagens, feijões, favas e
grãos moídos, como farinha.
4. REZA DIÁRIA
Localizada perto do
salão principal, a capela podia ser dividida em dois andares: no piso superior
ficava a família do senhor do castelo, enquanto os servos rezavam na parte de
baixo. Às vezes, capelas menores eram construídas num subterrâneo do castelo.
As missas aconteciam todas as manhãs.
5. SONO REAL
O principal móvel do
quarto do senhor e sua dama era uma grande cama de madeira, com um trançado de
tiras de couro que sustentava o colchão de penas. As roupas eram guardadas em
arcas ou penduradas em pinos na parede. No início do dia, o quarto era varrido
pelas camareiras, enquanto os senhores lavavam o rosto em bacias com água.
6. LÍQUIDO PRECIOSO
Era indispensável que
o castelo ficasse perto de uma fonte subterrânea de água para garantir o
abastecimento de toda a construção. Além do poço central, localizado no
interior das muralhas, reservatórios recolhiam a água da chuva que caía no teto
do castelo. Depois, o líquido seguia para os andares inferiores por
encanamentos de chumbo.
7. PRIVILÉGIO NOJENTO
Como os dois únicos
banhos anuais aconteciam em tinas portáteis levadas para o quarto do senhor, o
banheiro tinha só uma privada, exclusiva dos nobres - os outros precisavam se
aliviar fora das muralhas ou em penicos. Mas o "troninho" não era nada
higiênico: os dejetos seguiam em uma canaleta de pedra até a parede do castelo,
de onde a sujeira escorria até um fosso.
8. VISÃO SEGURA
A maioria das
fortificações contava com uma torre, feita inicialmente de madeira e mais tarde
de pedra, com vários andares e formato retangular. O local, que servia como
posto para os sentinelas que vigiavam as vizinhanças, era também usado como
alojamento para servos e soldados, além de ser o último refúgio no caso de o
castelo ser invadido.
Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003
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