Celso Miranda
Hoje com 85 anos, fala
sobre o amigo Ernesto, ao lado do qual conheceu a América do Sul, numa viagem
que já virou livro e filme,mas que ainda pode revelar surpresas.
Aos 29 anos de idade, Alberto teve a idéia de viajar de moto
pela América do Sul, partindo de Córdoba, na Argentina, rumo ao norte. Ele
tinha a moto e a vontade. Faltava um companheiro para a aventura. Alberto
convidou um jovem com quem jogava rúgbi e com quem compartilhava o gosto pela
aventura e pela medicina: Ernesto Guevara. Em 29 de dezembro de 1951, os dois
partiram numa “poderosa” Norton 500.
A moto ficou pelo caminho. O dinheiro acabou e eles seguiram
a pé, de carona e ônibus. No Chile foram tratados como médicos famosos, na
Bolívia trabalharam como ajudantes de cozinha e na Colômbia navegaram em barcos
clandestinos. No Peru trataram de leprosos internados no meio da selva. Os
amigos se despediram na Venezuela. Ernesto retornou à Argentina e, dois anos
depois, voltaria à estrada. Conheceria Fidel Castro e se alistaria na revolução
cubana. Alberto ficou, arrumou emprego, se apaixonou por Delia, com quem é
casado até hoje. Mas voltariam a se encontrar em Cuba, quando Ernesto já era o
Che e ministro do governo de Fidel. Alberto foi ajudar o amigo na reconstrução
de Cuba. Che seguiu mundo afora, lutou na África, morreu na Bolívia, tentando
semear seus ideais revolucionários. Alberto, aos 85 anos, mora em Havana, ao
lado da mulher (que acompanhou toda a entrevista), das filhas e dos netos.
O senhor é chamado de “o amigo de sempre” de Che. Isso o
incomoda ou já incomodou?
Alberto Granado – De forma nenhuma. É um orgulho. Uma
lembrança muito querida, muito importante. E ainda muito viva e emocionante.
Como começou a amizade?
Conheci Ernesto quando ele tinha 14 anos. Eu tinha 20 e
treinávamos num time de rúgbi, em Córdoba. Fiquei muito amigo dele e de sua
família. Foi em 1942, 43...
O senhor foi preso em 1943, não é?
Sim. Foi numa passeata de estudantes e professores para
protestar contra o governo e o ministro da Guerra. Foram uns três meses preso.
Ernesto e os irmãos me levavam comida lá.
Che descreveu a viagem de vocês como “duas vontades
dispersas estendendo-se pela América, sem saber exatamente o que procuram nem
qual é sua meta”. O senhor concorda com a interpretação?
Acho-a apropriada. Mas esse relato foi feito, se não estou
enganado, bem depois, quando Ernesto já tinha conhecimento do caminho que cada
um de nós tomaria.
E é muito diferente da expectativa que vocês tinham antes de
partir?
É claro que não tínhamos a expectativa de que aquilo fosse
ter os desdobramentos que teve. Pelo menos eu não tinha. Nós falamos durante
três anos sobre fazer uma grande expedição pela América Latina. Conhecer os
povos e os tipos da Argentina, da Bolívia, do Peru. Eu queria comemorar meus 30
anos de uma forma especial e achávamos que a viagem seria uma oportunidade para
isso.
Como uma despedida da juventude. Uma última aventura antes
de arrumar um emprego, casar, ter filhos...
Mais ou menos. No fundo, talvez eu achasse que se não fosse
naquela hora não seria outra. Economizei, comprei uma Norton 500 e convenci
Ernesto.
Foi difícil convencê-lo?
Fuser queria fazer a viagem antes de mim. Mas tive que
prometer à sua mãe e ao seu pai trazê-lo de volta para que ele se formasse.
Então o senhor não cumpriu?
Mas ele voltou e se formou no ano seguinte.
Aliás, essa história do apelido... Ernesto ficou famoso como
Che. Mas o senhor só o chamava de “Fuser”. Por quê?
Ernesto passou a ser Che na época da revolução, quando o
chamavam assim porque ele, como bom argentino, dizia “che” a toda hora.
Mas o senhor o chamava de Fuser.
O apelido? Fuser é do tempo do rúgbi. Acho que fui eu quem
comecei a chamá-lo assim, mas não tenho certeza. Fuser vem da junção de “fu”
mais “ser”. As primeiras sílabas de “furibundo” (uma referência ao jeito que
ele jogava) e “Serna”, seu sobrenome materno.
E o senhor? Não tinha apelido? Como Fuser o chamava?
De “Mial”, de “mi Alberto”. E “Panzón”, quando queria me
provocar.
O senhor conheceu Maradona quando ele visitou Cuba?
Sim, sim. Mas pouco. Eu queria falar de futebol, e ele só
queria saber da revolução.
E, mesmo conhecendo Maradona, seu argentino favorito
continua sendo Che?
(Risos) Como revolucionário, “El Che”. Como futebolista,
Maradona.
Ernesto gostava de futebol, não é? Ele era bom de bola? No
filme Diários de Motocicleta (do brasileiro Walter Salles) tem uma cena em que
você jogam futebol. Aquilo aconteceu mesmo?
Che era goleiro e bom. Saltava na bola como poucos. O jogo
de que você falou aconteceu na colônia de leprosos na Amazônia e naquele dia
Che agarrou um pênalti. Ele gostava mesmo de futebol. Na viagem, em Bogotá,
assistimos à partida entre Milionários e Real Madri. O Milionários tinha Di
Stefano...
Que depois foi para o Real.
Isso. E depois ficamos discutindo quem era melhor, se Di
Stefano ou Pederneras (Adolfo Perdeneras, meio-campista argentino, ex-River
Plate, também do Milionários. Naquele jogo, Di Stefano fez dois gols e
Pederneras um, e o Milionários venceu por 4 a 2.)
Qual a lembrança mais forte que o senhor guarda da viagem
com Ernesto?
Foi uma época muito rica, mas o discurso de despedida do
diretor do leprosário... Ainda hoje penso nele e em quando falou do sonho de
criar uma América Latina soberana e unida. Foi tudo muito marcante.
Marcante para vocês dois?
Creio que sim. Acho que nos mudou a ambos. O que vimos nos
tornou mais humanos, mais sensíveis às diferenças entre pobres e ricos, entre
doentes e sãos, entre brancos e índios.
Vocês alguma vez chegaram a pensar em desistir?
Todos os dias. Várias vezes. Nosso dinheiro acabou, a moto
quebrou, nos perdemos... Mas isso fazia parte da aventura, da descoberta.
Você ajudou os roteiristas do filme de Walter Salles. O que
achou do resultado?
Eu gostei do filme. Me diverti e me emocionei com ele.
Há alguma cena muito diferente do que realmente aconteceu?
Várias, não é? Afinal é um filme e compreendo que algumas
coisas precisam ser alteradas para que se consiga contar uma história. Aí,
acontecimentos e mesmo personagens precisaram ser adaptados.
Por exemplo...
Você se lembra da cena em que Ernesto está fazendo
aniversário e há uma festa para ele no leprosário? No filme, na noite da festa
Fuser resolve atravessar o rio a nado. E atravessa. Na verdade, ele começou a
atravessar, nadou uns 30 ou 40 metros, nós gritamos para ele voltar. E ele
voltou.
Quer dizer que ele não atravessou o rio? Mas é uma das cenas
mais marcantes, que até inspirou a música que ganhou o Oscar...
Ele atravessou, mas não foi naquela noite. Atravessou de
dia, em outro dia...
Dois anos depois da primeira, Ernesto partiu em numa nova
viagem, quando conheceu Fidel e acabou envolvido na revolução em Cuba. Ele não
o convidou para a segunda viagem? O senhor já pensou que poderia estar lá?
Eu já estava noivo, trabalhando na Venezuela. Mas quando
soube que Ernesto estava saindo para uma segunda viagem, achei que ela seria
definitiva.
Como assim?
Eu achava que se a nossa viagem servira para reforçar suas
convicções quanto às diferenças sociais e para torná-lo mais sensível à
importância de lutar contra elas, na segunda ele iria realizar essas mudanças
em que acreditava. Ele era muito fiel às suas convicções.
Em seu livro Travelling with Che Guevara (“Viajando com Che
Guevara”), o senhor conta um diálogo com Ernesto sobre a necessidade de fazer
uma revolução para libertar a América Latina única. E Che teria dito que não
haveria revolução sem tiros...
É verdade, isso ocorreu na Bolívia, quando estivemos muito
perto de pessoas muito pobres e praticamente escravizadas pelas companhias
mineradoras estrangeiras. De certa forma foi uma premonição do que aconteceria
a Ernesto na segunda viagem (dois anos depois, em sua segunda viagem pela
América Latina, Che conheceria Fidel Castro e passaria a integrar o grupo que
faria a revolução armada e tomaria o poder em Cuba).
Como foi o reencontro em Cuba?
O Che me pediu para vir para cá e ajudar na organização de
hospitais, asilos. Eu vim e trabalhei para o governo cubano durante 50 anos.
Agora estou aposentado.
E Che havia mudado?
Ernesto estava mais maduro, porém sua linha de conduta e
tudo o que havia me dito estavam intactos. E sua capacidade, sua disposição,
parecia ter se multiplicado.
Quando ele deixou Cuba para levar adiante a revolução
comunista, o senhor não pensou em ir também?
Che foi para a África e depois para a Bolívia para perseguir
o que ele acreditava. E ele era irredutível quanto aos seus ideais. Che servia
para muita coisa. Para médico, poeta, revolucionário e para líder. E sabia que
eu não serviria para ser guerrilheiro. Eu servia apenas para ser seu amigo. Eu
sou apenas um trabalhador.
Quando o senhor soube que Che havia morrido, na Bolívia?
Quando a primeira notícia apareceu em Cuba ninguém queria
acreditar. Mas a mim me doeu o coração. Eu senti que era verdade. Depois de um
tempo, vieram algumas fotos do corpo de Ernesto e me chamaram para
reconhecê-las. Foi muito triste. Porque eu sabia que era ele.
Qual o legado de Ernesto?
Ele tinha muitas qualidades. Tantas virtudes que às vezes as
pessoas diziam: “Veja, para ele é fácil. Ele é o Che”. Por isso, digo às
pessoas que querem tê-lo como exemplo que se mirem nas incapacidades de Che. Na
sua incapacidade de mentir, sua incapacidade de aceitar algo que não tivesse
feito por merecer e na sua incapacidade de deixar que outro fizesse o que ele
tinha de fazer.
O mundo mudou muito desde que Mial e Fuser viajaram pela
América. Como o senhor vê hoje a Cuba de seus netos?
A Cuba do futuro, a Cuba que nós queremos, é um país cada
vez mais culto. Não queremos que as pessoas tenham cada vez mais calças jeans
ou que possam trocar de carro a cada ano. Queremos que nossos netos sejam
capazes de ser cultos. Cada vez mais tenham prazer em ler um livro. Que essa é
a única forma de ser livre: sendo culto.
Aventuras na História n° 036
Nenhum comentário:
Postar um comentário