Érica Montenegro e Antonio Andrade
Seis dias depois da
festança, golpe derrubou dom Pedro IIO vaivém dos convidados era constante. Eles desciam das barcas a vapor e eram recepcionados por moças fantasiadas de fadas e sereias. O tilintar das taças de bebida se misturava aos risos e à música. Nunca se havia visto no Brasil tanto luxo. Tudo havia sido planejado para tornar inesquecível o baile da Ilha Fiscal, promovido por dom Pedro II no sábado, 9 de novembro de 1889. Aquela foi a última festa do Império. Seis dias depois, o imperador seria deposto.
O evento, que reuniu mais de 2 000 pessoas, oficialmente homenageava o alto escalão do couraçado chileno Almirante Cochrane, ancorado no Rio de Janeiro havia duas semanas. Mas, na verdade, comemorava as bodas de prata da princesa Isabel e do conde D’Eu. Além disso, a intenção do imperador era provar que a monarquia seguia viva e forte – o que, aliás, estava longe de ser verdade.
Naquele novembro de 1889, enquanto as senhoras se preparavam para o rega-bofe, homens conspiravam em confeitarias. Durante a festa, o clima de rivalidade entre monarquistas e republicanos não se manifestou. Apesar do sucesso do baile, o imperador pouco se divertiu. Ficou sentado o tempo todo e foi embora à 1h da manhã, sem jantar. Forçado a deixar o país em 17 de novembro, morreu dois anos depois, em Paris.
A ilha da fantasia
Nunca houve tanto luxo no Brasil quanto no baile da Ilha
Fiscal.
Bela vista do paraíso
Antes chamada Ilha dos Ratos (não se sabe se por conta da
quantidade de roedores ou pelo formato das pedras ao seu redor), a Ilha Fiscal
recebeu seu atual nome após ser transformada em posto de fiscalização de
navios. O castelo, com 2 000 m2 em estilo neogótico, foi construído após uma
visita de dom Pedro II à ilha – encantado com a vista, ele disse que ela era
“como um delicado estojo, digno de uma brilhante jóia”. O baile foi o primeiro
grande evento do palácio.
Caça aos convites
Originalmente, o baile seria em 19 de outubro, mas o rei de
Portugal, dom Luiz, morreu, e seu sobrinho Pedro II mudou a data da festa. A
distribuição dos 2 000 convites começou dia 4 de novembro. As roupas finas das
lojas do Rio logo se esgotaram. Setenta e duas horas antes do baile já não
havia vaga nos cabeleireiros. Muita mulher ficou três dias sem tomar banho e
dormindo sentada para não desmanchar o penteado.
Tropeça mas não cai
Dom Pedro II chegou ao baile acompanhado da família real às
21h. O imperador trajava uma casaca preta folgada. A imperatriz Tereza Cristina
e a princesa Isabel usavam vestidos pretos com rendas e vidrilhos. Quando
entrava pelo tapete vermelho, o imperador tropeçou. Amparado por dois
jornalistas, não chegou a cair. Espirituoso, teria dito: “A monarquia tropeçou,
mas não caiu”.
Luxo e lixo
A elite se esbaldava na festa, enquanto o povo olhava de
longe.A gente não quer só comida
Na festança foram consumidos 188 caixas de vinho, 80 caixas de champanhe e 10 mil litros de cerveja, além de licores e destilados. Segundo o historiador Milton Teixeira, o dinheiro gasto no baile, 100 contos de réis, foi retirado pelo visconde de Ouro Preto, presidente do conselho de ministros, do ministério da Viação e Obras Públicas – ele estaria originalmente destinado a socorrer flagelados da seca no Ceará.
Pés-de-valsa
Duas bandas militares tocaram quadrilhas, valsas, polcas e
marzurcas para os convidados, que dançaram em seis salões do castelo – a
princesa Isabel foi uma das pés-de-valsa. Depois da esbórnia, às 6h da manhã, o
pessoal da limpeza achou 37 lenços, 24 cartolas e chapéus, 8 raminhos de
corpete, 3 coletes de senhoras e 17 ligas. De acordo com o historiador Milton
Teixeira, da Escola Técnica de Turismo do Rio de Janeiro (ProTur), todas as
fotos feitas na festa desapareceram.
Bufê exótico
Quarenta e oito cozinheiros trabalharam durante três dias
inteiros para alimentar os convivas, servidos por 150 copeiros. O cardápio incluía
peças inteiras de caça e pesca, além de uma infinidade de aves exóticas,
inhambus, faisões e macucos. Cinco mesas em forma de ferradura foram colocadas
no pátio atrás do palácio para servir o jantar. O ponto alto da ceia foram os
doces – entre eles sorvete, uma novidade para a época.
Povão excluído
Chiques e famosos embarcavam em três vapores que saíam do
cais Pharoux, na atual praça XV de Novembro, centro do Rio. Uma banda da
polícia animava a noite do povão, que não pôde participar da festança. Lá tocavam
fandangos e lundus, danças populares bem diferentes das valsas que animavam o
castelo. Nas casas à beira-mar, a população se acotovelava para ver as luzes da
ilha.
Xixi no balde
Como suas fontes de inspiração na França, o projeto do
palacete da Ilha Fiscal não contava com banheiros. Os convidados tinham apenas
poucos baldes de prata com areia dentro para fazer xixi. Quando a cerveja
começou a fazer efeito, os homens não se apertaram e correram para a beira do
mar. Já as dondocas tiveram de se ajeitar com baldes extras trazidos às pressas
do continente nos cantos dos salões.
A ilha-luz
A Ilha Fiscal contava com um gerador de energia, instalado
num barracão ao lado do palacete, que forneceu eletricidade para milhares de
lâmpadas dentro e fora do edifício. Além das milhares de velas, balões e
lanternas venezianas, os holofotes do couraçado chileno Almirante Cochrane e de
outros navios da Marinha ancorados ali perto faziam com que a ilha fosse o
lugar “mais iluminado do mundo”, como escreveram os jornais da época.
E a República é proclamada
Militares armaram golpe com apoio dos barões do café.Enquanto a corte estava no pomposo rega-bofe, o tenente-coronel e professor de matemática Benjamin Constant encabeçava uma reunião conspiratória no Clube Militar. Ele era o líder da ala intelectualizada do Exército, os “científicos”, grupo que contrastava com o dos militares de carreira mais velhos, os “tarimbeiros”, ao qual pertencia o marechal Deodoro da Fonseca. Ambos estavam unidos num ressentimento contra o poder público, que deixara o Exército numa situação de penúria. Na reunião, decidiu-se pelo golpe militar, que veio em 15 de novembro de 1889. Entre os fatores importantes para seu sucesso estava o apoio da oligarquia cafeeira paulista. A Igreja Católica, descontente com a influência da maçonaria, ajudou a enfraquecer a imagem do imperador. O golpe ainda solucionou um debate antigo, que voltou à tona após um atentado a tiros sofrido pelo imperador em 16 de julho de 1889: se Pedro II morresse, o trono ficaria à deriva – a princesa Isabel era impopular entre a elite e o conde D`Eu, estrangeiro. De acordo com Renato Lemos, professor de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda na noite do dia 9, após a reunião conspiratória, Constant chegou a tomar um barco para a Ilha Fiscal com a família, que queria ver o baile. Mas eles não desembarcaram porque estavam sem convites.
Aventuras na História n° 036
Nenhum comentário:
Postar um comentário