Norton Godoy
O microscópio
eletrônico documenta um mundo no qual o homem está imerso, mas a vista não
alcança. O pó de toda parte abriga milhares de fungos e um estranhíssimo
aracnídeo.
O ambiente é escuro, silencioso e abafado. A paisagem faz
lembrar os escombros de uma guerra devastadora. O único sinal de vida provém de
uma criatura monstruosa, que parece um rinoceronte de seis pernas com
mandíbulas de crustáceo, andando vagarosamente por cima de um monte de entulho
onde se misturam pedaços disformes de outras criaturas. Cego, o monstro
perscruta o local com tentáculos de grande sensibilidade, à procura de seu
alimento predileto: pele morta de seres humanos.
De repente, um turbilhão de vento começa a soprar, erguendo
boa parte de toda aquela sujeira. Agarrada às grandes hastes que brotam do chão e se
assemelham a compridos troncos nus de árvores desfolhadas, a criatura tenta
resistir à tempestade. Mas a força sorvedoura é tão forte que o estranho ser é
carregado para longe, desaparecendo na escuridão.
Na verdade, o que
parecia o desfecho de uma cena de ficção científica nada mais é que a limpeza
de um carpete por um aspirador, vista em escala microscópica, ao rés do chão. O
ente monstruoso não passa de um aracnídeo, designado pelos cientistas
Dermatophagoides farinae, o doméstico ácaro. E o entulho amontoado, uma coleção
de fragmentos de fios de cabelo, pêlos de animais, pólens, pedacinhos de asas e
de patas de pernilongos e pulgas, restos de fibras sintéticas de roupa, fungos,
cristais e lascas de pele humana descamada. Tudo isso reunido numa simples
bolinha de algo incomparavelmente banal — o pó, encontrado em qualquer
ambiente, mesmo naqueles que acabaram de ser submetidos a uma restauradora
faxina. Tão corriqueiro é o pó que até meados dos anos 60 nenhum cientista se
preocupou em olhá-lo ao microscópio, a não ser por mera curiosidade. O
interesse em pesquisar a poeira foi motivado pelo já citado ácaro, do qual
quase nada se conhecia.
A difusão do
microscópio eletrônico , permitindo esquadrinhar e fotografar o universo das
coisas menos que milimétricas, ampliando-se até centenas de milhares de vezes,
proporcionou informações surpreendentes, sobre o pó e seu principalmente
personagem. Para conseguir uma boa amostra da composição da poeira de algum
lugar, no entanto, não é preciso ir ao microscópio: basta examinar o conteúdo
de um aspirador que acabou de ser usado; por sinal, o cheiro característico do
aparelho quando ligado resulta da queima de poeira que penetra no motor. Nos
Estados Unidos, onde há estatísticas até sobre isso, calcula-se que 43 milhões
de toneladas de poeira flutuam no ar todo ano — 72 por cento de origem natural
e 28 por cento produzidas pelo homem. A forma mais comum são partículas de
terra procedentes do solo, seguidas de perto pelo sal, cujos minúsculos
cristais evaporam dos oceanos à razão de 300 milhões de toneladas por ano.
Terra ou sal, as partículas viajam pelas correntes de ar e penetram em qualquer
ambiente, por mais fechado que esteja; ou então são levadas a grandes altitudes
onde irão formar o núcleo dos pingos de chuva. Se não houvesse poeira não
existiriam nuvens no céu.
Os eventos naturais que mais produzem pó são a atividade
vulcânica e os incêndios florestais. Em certos anos, a queima de florestas foi
responsável por 7 por cento de toda a poeira do mundo. Mas os vulcões são
imbatíveis nesse jogo. A maior produção já registrada foi do vulcão Krakatoa,
na Indonésia, que explodiu em agosto de 1883. Essa catástrofe despejou cerca de
6500 metros cúbicos de terra na atmosfera, o que daria para encher o espaço de
cinco piscinas olímpicas. Três anos mais tarde sua presença no ar ainda
prejudicava a luminosidade durante o dia em muitas áreas do mundo. Ou seja, parte
do trivial pó doméstico pode ter passaporte estrangeiro. Ou mais ainda, segundo
o americano John Ferguson, especialista no assunto. “A casa de qualquer pessoa
não apenas possui poeira de vários locais do planeta, mas também, poeira
extraterrestre, transportada por meteoros e meteoritos, que acabam por aumentar
a massa da Terra em dezenas de milhares de toneladas todos os anos”,
contabiliza ele.
Muito embora poeira
seja sinônimo de sujeira, também é responsável por um dos mais bonitos
espetáculos da natureza. Acontece que as partículas de pó tem a capacidade de
dispersar a luz em diferentes comprimentos de onda. Quando o Sol está alto no
céu, apresenta uma coloração amarelo-esbranquiçada porque os raios incidem em
ângulo quase reto sobre a superfície terrestre, sofrendo pouca interferência ao
passar pela camada de poeira suspensa no ar. No final da tarde, porém, tanto o
Sol como o poente adquirem uma bela cor
avermelhada porque quanto menor o ângulo de incidência dos raios maior a
quantidade de poeira que eles têm de atravessar na linha do horizonte. A
mudança de cor se dá porque as partículas dispersam com mais facilidade as
ondas de luz de menor comprimento — as do lado do espectro que tende para o
azul — do que as ondas maiores, do lado vermelho. A ironia da história é que
nas grandes cidades o acaso tende a ser mais rubro, portanto mais esplêndido,
quanto maior a poluição do ar, que aumenta a quantidade de partículas em
suspensão.
Há sempre mais pó
dentro de casa do que fora — uma informação que deve despertar a dona de casa
que vive passando o dedo nos móveis para ver se estão imaculadamente limpos.
Pois os ambientes fechados proporcionam as condições ideais de umidade,
temperatura e isolamento para a manutenção de um típico habitat de poeira. Por isso
mesmo, ao contrário do que poderia supor a mesma dona de casa, deixar as
janelas por algum tempo antes ajuda a limpar do que a sujar a casa, a menos, é
claro, que se viva ao lado de uma indústria poluidora. Segundo o por assim
dizer poeirólogo Richard Williams, do Centro de Pesquisas Sarnoff, nos Estados
Unidos, “as bolinhas de poeira crescem em locais onde não são perturbadas,
particularmente embaixo de móveis, cantos de quartos, frestas de assoalho ou
mesmo fora dos espaços de circulação da casa”.Parte do pó que habita algumas
residências é composta também de ínfimas bolinhas de borracha, produto do
atrito dos pneus dos veículos com o asfalto das ruas. Essas borrachinhas
costumam freqüentar apartamentos entre o terceiro e o sétimo andares de um
prédio, pelo simples motivo de corresponderem à altura em que esse tipo de
partícula fica em suspensão.
Mas, afinal, quanto
pó existe no ambiente de uma cidade grande? É claro que a resposta pode variar
enormemente, até porque também variam os critérios de medição. De todo modo, um
cálculo aproximado sugere que uma cidade do porte de São Paulo abriga 120
microgramas de partículas de poeira por metro cúbico de ar. Como em condições
normais uma pessoa respira por dia pouco mais de 5 metros cúbicos de ar, isso
significa que cada paulistano inala em média diariamente algo como 600
microgramas de partículas de poeira.
“O ar de São Paulo é
mais empoeirado que o de Nova York ou de Los Angeles”, afirma o químico
paulista Cláudio Alonso, da Cetesb, a empresa de saneamento ambiental do
Estado, com a autoridade de quem acabou de concluir um estudo comparativo sobre
o ar das três cidades. Em que medida poeira demais é um perigo? Se a atmosfera
não estiver envenenada pelos gases da poluição, o problema pode não ser
alarmante, pois a maior parte daquelas partículas é exalada de volta. Muitas
delas, é bem verdade, ficam presas nos pêlos das narinas, na garganta e nos
pulmões. Na maioria das pessoas, o organismo não reage a essa intrusão por
falta de anticorpos específicos. Os alérgicos, ao contrário, devido ao seu
sistema imunológico ultra-sensível, respondem de forma exacerbada a alguns dos
corpos estranhos que são inalados ou que penetram através da pele .
A poeira que se junta
nos cantos do teto tem origem inconfudível — é obra das teias de aranha. Essa
parenta do ácaro faz a teia com objetivo de capturar seu jantar. Se nenhum inseto
cair na armadilha, ela mudará o ponto de caça, deixando a teia para trás. O que
torna aquele trançado de fibras de proteína pegajosa um excelente coletor de
partículas de pó. De tudo que se pode achar num minúsculo tufo de poeira, os
ácaros são os mais curiosos. Esses bichinhos — os mesmos cujas fotos
devidamente ampliadas lembram o citado rinoceronte com queixada de crustáceo —
se alimenta principalmente dos cerca de 50 milhões de microscópicos farelos de
pele que se desprendem de um corpo humano todos os dias. Existem muitas
espécies de ácaros no mundo e todos os anos são registradas novas descobertas.
Habitam camas, travesseiros, sofás e, sobretudo, o interior de pequeninas bolas
de poeira. Dez ácaros cabem no ponto que fecha esta frase.
“Numa cama de casal
se calcula que vivem cerca de 2 milhões de ácaros”, afirma o professor Domingos
Baggio, chefe do Laboratório de Acarologia Médica da Universidade de São Paulo
(USP). “Isso porque o corpo humano fornece, durante oito horas por dia,
temperatura, umidade e farta descamação de pele.” Felizmente, os ácaros de
poeiras são diferentes de seus primos, os carrapatos, e não se alojam na
superfície da pele. Somente são nocivos para quem for alérgico aos fungos de
que eles se utilizam para digerir o alimento. Em lugares onde houver uma grande
concentração de ácaros certamente haverá fungos suficientes para sensibilizar o
sistema imunológico de um alérgico. Sem contar com vinte bolinhas de fezes que
cada ácaro produz por dia, facilmente inaladas. Como aracnídeos, os ácaros e as aranhas tiveram um ancestral
comum a 300 milhões de anos. Mas enquanto as aranhas evoluíram e se tornaram
caçadoras que enxergam suas presas, o ácaro é uma espécie de animal de rapina —
porque se alimenta de organismos mortos — e é cego. Seu meio preferido de
locomoção é a carona, na garupa de uma barata ou de uma mosca. Isso quando não
se deixa levar ao sabor das correntes de ar. Tem a vida breve, 45 dias no
máximo.
O fungo, por sua vez,
é encontrado na mais variadas formas e cores. O Aspergillus niger, por exemplo,
muito comum na poeira, tem a forma de pequenos pontos pretos e, embora pareça
mofo, não é. Esse fungo pode causar irritações respiratórias ou infecções no
aparelho auditivo das pessoas que praticam a natação, pois estas costumam ter
os ouvidos mais úmidos do que o normal. “Nenhum desses fungos é patogênico,
isto é não carregam consigo qualquer tipo de doença”, tranquiliza a
pesquisadora americana Chris Carothers, do Maryland Medical Laboratory.
“Oportunistas, aproveitam de um sistema imunológico debilitado, crescendo sobre
o corpo ou no seu interior. “Calcula-se que existam entre 50 mil e 200 mil
espécies de fungos o que dá formas de
microvida que, perigosas ou inofensivas, repartem com o ser humano o espaço do
qual ele se julga senhor absoluto. Ou, como diz Shakespeare, pela boca de
Hamlet, o homem é a “quintessência do pó.”
Xeretando com
elétrons
No clássico romance do irlandês Jonathan Swift (1667-1745),
Viagens de Gulliver, o personagem descobre uma ilha chamada Liliput e fica
maravilhado com a reduzida estatura dos seus habitantes. Ao fazer funcionar um
microscópio eletrônico em 1931, o cientista alemão que o construiu, Ernest
Ruska (1906 -1988) há de ter sentido uma emoção semelhante à de Gulliver. Pela
primeira vez, olhos humanos penetravam em um mundo em que a ordem de grandeza é
de 1 mícron, a milésima parte do milímetro. O que diferencia o microscópio
eletrônico do óptico é o uso de um feixe de elétrons no lugar da luz — o feixe
tem um comprimento de onda mil vezes menor, permitindo perceber formas em
escala molecular. Os elétrons se enfeixam quando passam por campos magnéticos
que agem como lentes, fazendo-os convergir sobre o material que se quer
enxergar. Em seguida são refletidos para outro conjunto de lentes magnéticas
que, finalmente, os conduzem a um filme especial, sensível ao seu impacto. O
processo permite ampliar uma imagem até 500 mil vezes.
Revista Super Interessante n° 031
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