Mariana Della Barba
Em vez de armas, eles
usaram rock e bom humor. À frente da rádio B92, o sérvio Veran Matic e sua
equipe ajudaram a derrubar a ditadura do sanguinário Slobodan Milosevic na
Iugoslávia.
O jornalista Veran Matic, 44 anos, diretor da rádio B92,
sempre sonhara em noticiar a queda do ditador sérvio Slobodan Milosevic. Quando
chegou a hora, em 5 de outubro de 2000, a emissora estava, havia meses, fechada
pelo regime. Mas, naquele dia, Matic e sua equipe conseguiram, ilegalmente,
botar a B92 de novo no ar. A data marcou também a estréia da TV B92, que fez as
primeiras imagens do fim do governo de Milosevic na Iugoslávia (país então
formado por Sérvia e Montenegro). Meio milhão de manifestantes tomou as ruas da
capital, Belgrado, celebrando a derrota do ditador na eleição para presidente.
Nunca mais calaram a B92.
Conhecido como “açougueiro dos Bálcãs”, Milosevic assumira o
poder em 1989, ano da queda do Muro de Berlim e do declínio do comunismo no
Leste Europeu. Mas ele não entrou na onda da democratização. Quando a Croácia e
a Bósnia se separaram da Iugoslávia, em 1991 e 1992, o ditador apoiou a revolta
de milícias sérvias que viviam nessas regiões. Os sangrentos combates e
massacres só terminaram em 1995. Quatro anos depois, sob pretexto de conter uma
revolta na província sérvia do Kosovo, ele promoveu um genocídio que matou
milhares de pessoas de origem albanesa.Em 2001, o derrotado Milosevic foi preso e levado a julgamento na Corte Internacional de Justiça em Haia, na Holanda, onde morreu em 2006. E Veran Matic pôde noticiar tudo isso à vontade. Nascido numa aldeia perto de Belgrado, ele comanda a B92 desde a fundação, em 1989. Durante a ditadura, mesmo perseguido, Matic fez de tudo para manter o ânimo dos sérvios. Em vez de batidas canções tradicionais, a B92 trazia o melhor do rock. Em vez de se submeter ao governo, ela satirizava Milosevic. E os protestos organizados pela rádio ajudaram a minar o regime. Em visita a São Paulo, no fim do ano passado, Matic conversou com História sobre os anos de resistência (como ele preferiu falar em sérvio, contamos com um intérprete).
Em 1990, quando
a B92 tinha apenas um ano, Slobodan Milosevic fraudou as eleições para
continuar no poder. Como vocês faziam para não sucumbir ao pessimismo?
Veran Matic – Nós criamos uma espécie de mundo paralelo. Só
assim conseguíamos manter a mente sã e combater a pressão, a miséria, a
desilusão, o isolamento. E tínhamos a rádio para nos expressar.
Você nunca pensou em sair de Belgrado e ir, por exemplo,
para alguma capital da Europa ocidental, como mais de 400 mil sérvios fizeram?
O mais triste é que a maioria dessas pessoas eram jovens com potencial, que simplesmente não
tinham o que fazer em Belgrado. E mais triste ainda é pensar que muitos jamais
voltaram ou voltarão. Mas eu jamais pensei em deixar a Sérvia! Para mim, seria
uma perda muito grande, seria como esquecer o que foi e é a minha vida.
Mas, com a grande importância que a rádio alcançou, você chegou a correr o risco de ser preso e
até desaparecer nas mãos da polícia de Milosevic?
Sim, é verdade. Mas nem quando minha vida estava em perigo
pensei em deixar o país. Apenas saí da Sérvia por dois meses, no auge da
guerra, em 1999. Mas fiquei em Montenegro, que, na época, ainda era o mesmo
país.
Como era a repressão à imprensa?
No começo, a rádio teve uma certa liberdade, mas depois Milosevic foi
acabando com ela... Era muito complicado. Milosevic fazia da nossa vida um
inferno. Nos primeiros oito anos, trabalhamos quase como ilegais. Não havia meio
de conseguirmos uma autorização formal para funcionar, e esse era um dos
argumentos que ele usava para ameaçar fechar a rádio. Era uma batalha constante
entre nós e o regime.
A B92 chegou a ser tirada do ar várias vezes, certo? Qual
foi a primeira?
Foi em março de 1991, depois que fizemos uma manifestação
pela liberdade de imprensa que reuniu 40 mil pessoas. Houve diversos momentos
extremos, em que Milosevic mandou sua polícia ir até a rádio para fechá-la.
Nessas horas, a ajuda dos ouvintes era fundamental. Os jovens da Sérvia estavam
de certa maneira ligados uns aos outros pela rádio. Era como uma grande
família. Eles nos apoiavam, nos
incentivavam. Só assim a B92 sobreviveu.
Como os ouvintes ajudavam? O que acontecia quando a rádio
saía do ar?
Havia protestos. Um bom exemplo do quanto a rádio
significava para as pessoas aconteceu em 1991, pouco depois de Croácia e
Eslovênia declararem independência da Iugoslávia. Fizemos um teste: nós mesmos
fechamos a B92. A idéia era ver qual seria a reação do povo e passar uma
mensagem para o regime. Foi uma confusão. Jovens saíram às ruas para protestar,
quebravam seus rádios. Foi um claro sinal para Milosevic do que ocorreria se o
governo fechasse a B92 de vez.
Como a música ajudava a B92 a driblar a censura de Milosevic?
Era algo quase natural. Certa vez o regime não fechou a
rádio, apenas colocou a polícia lá dentro. Eles permitiram que a gente
transmitisse apenas o programa oficial do governo. É óbvio que recusamos.
Então, depois de muitas negociações, eles liberaram apenas a transmissão de
músicas, sem comentários de locutores. Nossos DJs imediatamente assumiram o
comando e começaram, espontaneamente, a tocar músicas com mensagens de luta, de
protesto, de incentivo, como “Nothing Can Stop Us” (da banda inglesa Saint
Etienne, cujo título significa “Nada Pode nos Deter”) ou “Movin’ On Up” (algo
como “Me Levantando”, do grupo escocês Primal Scream). Como as canções eram
todas em inglês, a censura não entendia. Entretanto, os jovens captaram a
mensagem e saíram para protestar. Com a pressão que fizeram, Milosevic acabou
liberando a rádio em menos de 24 horas.
Como eram os protestos organizados com a ajuda da rádio?
Variavam bastante. A única coisa que não faltava era a
música. Funcionava como uma defesa contra o desânimo. Transformávamos os
protestos em shows para não ficar algo pesado, para que todos liberassem o
medo, o estresse. E, claro, o regime não aceitava o rock, era algo muito
progressista para eles. Nós éramos a única emissora que tocava rock, que quase
foi extinto na Sérvia. Além de falar diretamente com os jovens, a B92 também
lutava contra medidas que afetavam a população em geral, como no protesto
contra o aumento de preços de produtos para bebês, em 1992. Como foi?Convocamos
as mães de toda Belgrado a levar seus filhos para a frente da casa de
Milosevic. Centenas de bebês choravam ao mesmo tempo. Foi incrível. A gente
sempre usava muita descontração e bom humor. Era um tipo de tática útil porque
batia de frente com a sisudez do regime. A força de Milosevic podia vencer
qualquer um, mas seu regime não sabia lidar com o humor.
O humor, aliás, era uma das características marcantes da
B92. Como vocês faziam para ridicularizar o regime?
Os programas eram uma provocação só, não perdoávamos nada.
Em 1994, por exemplo, resolvemos comemorar o aniversário de Milosevic no ar.
Abrimos as linhas telefônicas da rádio para o público cumprimentá-lo. O país
inteiro ligou. Alguns o xingaram, mas a maioria das pessoas dizia coisas
engraçadas. E o regime não podia fazer nada. Afinal, estávamos celebrando o
aniversário do presidente!
A partir da guerra na Bósnia, em 1992, qual foi o pior
momento que a população de Belgrado viveu? Foi em 1999, com os bombardeios
feitos por causa do massacre no Kosovo?
Acho que os bombardeios foram mesmo o fundo do poço. Ninguém
acreditava que a Otan [a aliança militar ocidental, encabeçada pelos Estados
Unidos] realmente iria bombardear nossa cidade. Era uma guerra invisível. Os
aviões voavam muito alto, não os víamos. Eu morava em frente à TV do governo,
que era um alvo certo. Pensei em me mudar, mas não sabia para onde, já que não
sabíamos qual seria o próximo alvo. Não era justo, porque não havia um inimigo
visível a ser combatido. Teoricamente, as bombas eram inteligentes, deveriam
atingir só lugares estratégicos, do governo. Mas frequentemente elas caíam em
prédios civis. Certa vez, uma delas acertou uma fila de refugiados albaneses.
Um horror! Nunca me esquecerei do barulho desses mísseis teleguiados. Foram
três meses de desespero. A B92, claro, foi fechada novamente pelo regime, que
endurecera ainda mais. O dono de um jornal oposicionista foi assassinado. O
medo era constante.
E você também foi perseguido?
Fui. Eu me mudei para um apartamento escondido, do qual
quase ninguém sabia o endereço. E foi nessa época que a internet e as novas
tecnologias foram fundamentais não só para a sobrevivência da rádio, mas para a
minha também.
Por quê?
Elas nos davam segurança. Nesse apartamento secreto, eu
tinha uma conexão de internet normal e outra via rádio, com uma antena ilegal.
Sabia que, se algo acontecesse, eu conseguiria avisar alguém do outro lado da
tela. Nessa época, tínhamos um outro apartamento, vazio, só com um computador.
Era de lá que fazíamos a transmissão da B92. Os repórteres e DJs ficavam em
suas casas, mandavando os programas via internet para esse computador. De lá
enviávamos o sinal para fora do país. Emissoras internacionais, como a inglesa
BBC, nos emprestavam satélites para retransmitir nossos programas de volta à
Sérvia. Tínhamos muito medo que Milosevic fechasse o país. A internet nos
afastava dessa idéia e permitia que o mundo ficasse mais a par do que estava
acontecendo lá.
Então a B92 também tocava no exterior?
Sim. Quando começamos essas transmissões internacionais,
correu o mundo a notícia de que uma rádio independente de Belgrado estava
chegando a 100 mil ouvintes e convocando manifestações gigantescas contra
Milosevic. Nos Estados Unidos, saímos até no The New York Times, no The
Washington Post... E assim o mundo ficou mais atento e fez mais pressão pela
queda do regime.
Em março, qual foi sua reação ao saber que Milosevic morreu
enquanto era julgado por seus crimes de guerra?
A B92 era a única que transmitia o julgamento na íntegra, ao
vivo. Era importantíssimo dar aos sérvios a chance de acompanhar o processo, o
depoimento das testemunhas e dos sobreviventes de seus massacres, para que eles
pudessem acreditar que Milosevic seria condenado. Mas, quando fiquei sabendo
que ele tinha morrido na prisão, fiquei decepcionado. Senti que meu trabalho
não estava completo, já que o julgamento nunca chegou ao fim.
Como estão hoje as pessoas que colaboraram com o regime de
Milosevic?
Infelizmente, o Exército e a polícia secreta não sofreram
nenhuma transformação desde a mudança do governo. Muitos dos ex- soldados e
aliados de Milosevic não apenas continuam soltos como estão em cargos públicos.
É preciso acabar com essa herança da era Milosevic, em que criminosos faziam
parte da polícia. Até hoje, é difícil reconhecer quem é do crime organizado e
quem é policial! Enquanto isso não mudar, não vamos progredir.
Aventuras na História n° 041
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