Cíntia Cristina da
Silva
Ele é uma herança de várias comemorações realizadas na
Antiguidade por povos como os egípcios, hebreus, gregos e romanos. Esses
festejos pagãos serviam para celebrar grandes colheitas e principalmente louvar
divindades. É provável que as mais importantes festas ancestrais do Carnaval
tenham sido as "saturnais", realizadas na Roma antiga em exaltação a
Saturno, deus da agricultura. Na época dessa celebração, as escolas fechavam,
os escravos eram soltos e os romanos dançavam pelas ruas. Havia até mesmo uma
espécie de "bisavô" dos atuais carros alegóricos. Eles levavam homens
e mulheres nus e eram chamados de carrum navalis, algo como "carro
naval", pois tinham formato semelhante a navios. Alguns pesquisadores
enxergam aí a origem da palavra carnaval. A maior parte dos especialistas,
porém, acha que o termo vem de outra expressão latina: carnem levare, que
significa "retirar ou ficar livre da carne".Isso porque, já na Idade Média, essas velhas festividades pagãs foram incorporadas pela Igreja Católica, passando a marcar os últimos dias de "liberdade" antes das restrições impostas pela Quaresma. Nesse período de penitência para os cristãos (durante os 40 dias antes da Páscoa), o consumo de carne era proibido. A variação da data do Carnaval no calendário se deve justamente à ligação direta com a Páscoa - que, no hemisfério sul, sempre acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia do outono. Determinada a data do feriado cristão, basta retroceder 46 dias no calendário (40 da Quaresma mais seis da Semana Santa) para se chegar à Quarta-Feira de Cinzas. A comemoração do Carnaval adquiriu diferentes formas nos países católicos que mantiveram a celebração. No Brasil, foi grande a influência do "entrudo", uma folia feita em Portugal, onde eram comuns as brincadeiras com água.
Folia globalizada
A festa brasileira mistura
brincadeiras e costumes de outros países com criações nacionais.
Brincadeira
portuguesa, com certeza
Em seus primórdios,
no século 17, o Carnaval daqui não tinha música nem dança, brincava-se o
entrudo, herança da colonização portuguesa. É daí que veio o costume das
"guerras de água". Mas a artilharia daqueles tempos muitas vezes era
mais pesada, com direito não só a baldes e latas d’água, como também a lama,
laranjas, ovos e limões-de-cheiro — pequenas bolinhas de cera fina recheadas com
água e outras substâncias.
Transformismo secular
Outra tradição do
Carnaval é o hábito de homens se vestirem com trajes femininos. Há registros do
transformismo na folia de rua desde o início do século 20. "A explicação
está na própria psicologia da festa, um espaço de inversão, em que se busca ser
exatamente o que não se é no resto do ano", diz a filóloga Rachel Valença,
diretora do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio.
Abram alas para um ritmo carioca
As marchinhas
carnavalescas deram o tom da festa entre as décadas de 1930 e 1950. Mas o ritmo
surgiu ainda no final do século 19. "Ó Abre Alas" é considerada a
primeira canção escrita especialmente para um bloco de Carnaval. A "música
para dançar" foi composta pela maestrina Chiquinha Gonzaga, em 1899, para
o bloco carnavalesco Rosa de Ouro, do Andaraí, no Rio de Janeiro.
Com o bloco na rua (do Rio)
Os blocos
carnavalescos surgiram em meados do século 19. O primeiro de que se tem notícia
é creditado ao sapateiro português José Nogueira de Azevedo Prates, o Zé
Pereira. Em 1846, ele saiu pelas ruas do Rio de Janeiro tocando um bumbo. A
balbúrdia atraiu a atenção de outros foliões, que foram se juntando ao músico
solitário.
Fantasias à italiana
Os bailes de máscara eram tradicionais em alguns países da
Europa, como a Itália, já no século 13. No entanto, tais festas eram restritas
à nobreza. Foi a partir do século 19 que máscaras e fantasias começaram a se
tornar mais populares. Nessa época, os personagens de maior sucesso eram o
Pierrô, o Arlequim e a Colombina (da commedia dell’arte italiana), além de
trajes de caveiras, burros e diabos.
Eletricidade baiana
O trio-elétrico é a
"criação" mais nova do Carnaval brasileiro. Ele surgiu em 1950,
quando os músicos baianos Dodô e Osmar, conhecidos como "dupla
elétrica", equiparam um capenga Ford 29 com dois alto-falantes e saíram
tocando pelas ruas de Salvador. Foi um sucesso. No ano seguinte, o Ford foi
trocado por uma picape e a dupla convidou Themístocles Aragão para compor,
agora sim, um "trio elétrico".
Revista Mundo Estranho Edição 24/ 2004
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