Tudo indica que essa rechonchuda figura carnavalesca tenha
sido inspirada em um personagem da Antiguidade clássica. Na mitologia grega,
Momo era o deus do sarcasmo e do delírio. Usando um gorro com guizos e
segurando em uma mão uma máscara e na outra uma boneca, ele vivia rindo e
tirando sarro dos outros deuses. Com esse jeitão esculachado, aprontou tantas
que acabou expulso do Olimpo, a morada dos deuses. Ainda antes da era cristã,
gregos e romanos incorporaram essa figura mitológica a algumas de suas comemorações,
principalmente as que envolviam sexo e bebida. Na Grécia, registros históricos
dão conta que os primeiros reis Momos de que se tem notícia desfilavam em
festas de orgia por volta dos séculos 5 ou 4 a.C. Geralmente, o escolhido era
alguém gordinho e extrovertido - provavelmente vem daí a inspiração para a
folia brasileira. Já nas bacanais romanas, os participantes selecionavam um Rei
Momo entre os soldados mais belos do exército.
"Esse ‘monarca’
era o governante de um período de liberdade total e desfrutava de todas as
regalias durante a festa, como comidas, bebidas e mulheres", diz o
historiador Hiram Araújo, diretor cultural da Liga Independente das Escolas de
Samba do Rio de Janeiro (Liesa). No Brasil, a tradição de eleger um Rei Momo durante
o Carnaval apareceu primeiro no Rio de Janeiro, em 1933. Naquele ano, a coroa
foi entregue ao jornalista Morais Cardoso, que ocupou o trono até morrer, em
1948. A novidade fez sucesso e hoje várias cidades brasileiras também escolhem
seu Momo. Em 2004, o concurso carioca trouxe uma novidade: para não estimular a
obesidade, o prefeito César Maia liberou a exigência de peso mínimo para os
candidatos ao posto. Tanto que o vencedor da eleição, o carioca Wagner
Monteiro, tem apenas 85 quilos. "O concurso agora privilegia outros
critérios, como a capacidade de comunicação do candidato, sua irreverência e
uma pitada de samba no pé", afirma Hiram.No seu reinado, o Rei Momo recebe a chave da cidade, que simbolicamente governa durante o Carnaval. Para ajudar na tarefa, o monarca carioca recebe um salário bem gordinho, de 9 mil reais.
Revista Mundo Estranho Edição 24/ 2004
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