Ernani Fagundes
Livro reúne as dez
primeiras cartas escritas no Brasil - todas por padres.
Ser padre no Brasil do século 16 era uma atividade um tanto
perigosa. Os missionários que desembarcaram por aqui viviam entre a espada de
colonos e o caldeirão de nativos canibais. Fantásticas aventuras fazem parte da
coletânea Primeiras Cartas do Brasil – 1551-1555 (Jorge Zahar), uma compilação
de dez missivas escritas pelos pioneiros padres que pisaram aqui elaborada por
Sheila Moura Hue, doutora em Literatura Portuguesa pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro.
Os primeiros religiosos começaram a chegar ao país em 1549,
quando o governador Tomé de Souza decidiu acabar com o que chamava de “falta de
fé” que reinava aqui. Os poucos colonizadores, alguns degredados pela Coroa
portuguesa, possuíam várias esposas – todas índias conquistadas em troca de
bugigangas ou de amizade com as tribos. Para eles, a presença dos sacerdotes
era o fim do convívio tropical sem o conceito do pecado. Além da pregação aos
fiéis descontentes, os clérigos tinham a missão de levar o cristianismo aos
nativos, mesmo os mais arredios, correndo o risco de virar o prato principal de
aldeias antropófagas.No meio de uma pregação e outra, os padres encontravam tempo para escrever longas cartas aos superiores na Europa. Entre as que foram reunidas no livro, há relatos importantes como o do padre Manuel da Nóbrega contando sobre a chegada dos jesuítas à Bahia. Ou o nascimento das cidades de São Paulo (1554) e Vitória (1551), narrado com naturalidade pelos respectivos fundadores José de Anchieta e Afonso Brás. Há também histórias incríveis, como as aventuras do padre Leonardo Nunes, que sofreu um ataque de flechas no mar de São Vicente, e a trágica morte de Pero Correia. Ao ajudar alguns espanhóis que naufragaram na costa brasileira a encontrar o caminho para Assunção, no Paraguai, por terra, o religioso foi morto pelos índios após uma intriga com um castelhano ferido. O livro traz ainda o relato de João de Azpilcueta Navarro sobre a primeira expedição pelo sertão, em 1553: de Porto Seguro, na Bahia, até o rio São Francisco, em Minas Gerais, voltando pelo rio até sua foz em Sergipe.
Aventuras na História n° 036
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