sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para bem entender a sociedade primitiva

Carolina Pulici

Reunião de 12 ensaios escritos entre 1969 e 1977, Arqueologia da Violência é a publicação póstuma de Pierre Clastres, autor que podia ser reconhecido como um analista (e não como defensor) da sociedade primitiva em geral. Na trilha do mais clássico pensamento antropológico, que a rigor não deixa de apontar o que é um julgamento etnocêntrico, o etnólogo francês apostou na lógica do “irracional” mundo dos “selvagens”.
Mas esta obra põe em xeque não apenas as representações que missionários e demais “civilizadores” construíram dos indígenas. Desafiando também marxistas e humanistas, o livro se opõe a concepções generalistas, apresentando alternativas de organização sócio-política. Ou seja: no entender de Clastres, não é inerente a toda e qualquer sociedade a constituição de um Estado, nem a evolução inevitável a uma economia capitalista. Se algumas crônicas desta coletânea descrevem os rituais de canibalismo, as práticas de xamanismo e demais peculiaridades sócio-culturais dos grupos indígenas que ocupavam o continente sul-americano no momento do “descobrimento” no final do século 15, o argumento recorrente ao longo do livro é o de que essas sociedades não desenvolveram um Estado e uma economia de acumulação porque escolheram deliberadamente não se dividir entre súditos e soberanos. E não porque estavam na “infância da humanidade”.
Da mesma forma, para Clastres, o impulso guerreiro dos primitivos não se deve a uma incapacidade organizacional mas, novamente, a uma tática de conservação da autonomia. O livro é, em suma, uma demonstração sofisticada de que as sociedades primitivas não são apenas sem Estado e sem economia, mas sociedades contra o Estado e contra a economia.

Revista Aventuras na História n° 014




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