Ana Elisa Camasmie
Filme francês retrata
o cotidiano durante e após o movimento revolucionário de 1968.França, 24 de maio de 1968. Pela terceira vez naquele mesmo mês, centenas de estudantes armaram barricadas pelas ruas em chamas de Paris. Bandeiras vermelhas e negras pendiam pelas janelas, grafites nos muros exaltavam a anarquia e o comunismo. No bairro do Quartier Latin, praças tornaram-se campos de batalha. De um lado, os jovens se armavam com paralelepípedos arrancados das ruas e se protegiam com capacetes. Do outro, a polícia respondia com gás lacrimogêneo e pancadaria.
A revolta começara banal em março daquele ano – contra a proibição das visitas noturnas de rapazes aos quartos das moças na Universidade de Nanterre. Mas transformou-se num movimento contra o conservador ensino francês e o governo do general Charles De Gaulle. Liderados pelo estudante alemão Daniel Cohn-Bendit e influenciados pelos intelectuais da época (como os filósofos Roland Barthes e Jean-Paul Sartre, que pregavam a volta dos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa), os jovens decretaram greve geral. A polícia respondeu. Começava uma onda de protestos e violência que teria seu ápice em maio de 1968, quando a adesão dos operários paralisou 10 milhões de pessoas em fábricas, transportes, correios e até jornais e TVs. Na noite de 24 de maio, a maior onda de violência teve início. A manifestação era contra a expulsão de Cohn-Bendit do país. Alguns dias depois, o presidente dissolveria a Assembléia Nacional apoiado por grande parte da população – e do governo alemão. Era o início do fim dos movimentos estudantis de 68.
É dessa noite que parte o filme Amantes Constantes, de Philippe Garrel. No começo há longas cenas da última noite de guerrilha urbana. Da revolução, o filme se volta para a vida pós-maio de 68 de um grupo de jovens que se deixa abater pelo fracasso de seus ideais, embalados pelo consumo do ópio e pelo sexo livre. Entre eles, dois adolescentes que se conheceram durante os protestos e que, na contramão da liberação sexual, deixam de praticar o amor casual para se tornarem os amantes constantes do título. Quem viu Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, vai encontrar muito em comum – incluindo a presença do ator Louis Garrel, que participou de ambos.
Aventuras na História n° 038
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