Giba Stam
O mais provável é que o pobre coitado pegue só uma diarréia,
porque o germe da gastroenterite, responsável pelo sintoma, é a mais comum na
água suja. Mas ainda existe o risco de sair até com uma doença que pode ser
fatal, como hepatite ou febre tifóide. Em geral, as bactérias, vírus e outros
parasitas que causam esses problemas chegam ao rio pelo esgoto doméstico - o
nosso cocô é um oásis para esses microorganismos. Se alguém cair ali,
fatalmente acabará bebendo um pouco da água, mesmo que sejam umas poucas gotas
pela boca ou pelo nariz, portas de entrada para toda essa fauna fecal. Agora,
não dá para saber ao certo se você vai ficar doente só porque escorregou em um
desses esgotos a céu aberto. Isso vai depender da concentração de sujeira na
água, da quantidade de líquido que você engoliu e da resistência do seu corpo.
Além dos microorganismos do esgoto doméstico, outra bactéria perigosa presente
nos rios sujos é a da leptospirose, transmitida pela urina dos ratos que fazem
sua toca na beira dos cursos d’água. Outro ingrediente nessa mistura nojenta
são os poluentes industriais, como metais pesados e pesticidas que algumas
fábricas ainda teimam em despejar nos rios. Felizmente, esse elementos não são
um grande risco para quem cai por acidente. "A pessoa teria de consumir
água contaminada por muito tempo, ou comer peixes que acumularam poluentes em
seus organismos", diz o engenheiro químico Nelson Menegon, da Companhia de
Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), órgão que realiza medições
periódicas para identificar as áreas mais sujas dos cursos d’água de São Paulo
- incluindo o poluidíssimo rio Tietê, como você pode conferir na seqüência de
fotos abaixo. Se você der o azar de cair em um desses rios, o melhor a fazer é
se prevenir. "Tome um bom banho, verifique se a vacina antitetânica está
em dia e, se aparecer algum sintoma suspeito, vá para um posto de saúde",
afirma a sanitarista Bernadete de Paula Eduardo, do Centro de Vigilância
Epidemiológica de São Paulo.Por dentro da sujeira do Tietê
A cada dois meses, a água do rio é avaliada para identificar os poluentes mais comuns.
1. De dois em dois meses, técnicos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) fazem coletas de água em vários pontos do rio Tietê, considerado um dos mais poluídos do mundo. Nas margens do rio, eles medem a concentração dos poluentes químicos, a quantidade de oxigênio e o grau de acidez da água, indicadores básicos da qualidade do líquido.
2. Depois das medições preliminares, alguns frascos com a água acinzentada do Tietê são recolhidos e seguem para uma bateria de testes de laboratório. Como a concentração de poluentes varia bastante ao longo do leito do rio, os técnicos sabem que os resultados vão indicar a saúde do rio apenas em um trecho de poucos quilômetros.
3. Dentro da Cetesb, cada amostra vai para um laboratório diferente. Durante a série de exames, os técnicos vão analisar a presença de compostos orgânicos, metais pesados e resíduos sólidos. Alguns dos microorganismos causadores de doenças que costumam aparecer com frequência no Tietê e em outros rios poluídos .
Uma enxurrada de problemas
Um mergulho num rio sujo pode trazer de uma simples diarréia até doenças mortais.
GASTROENTERITE
Essa inflamação no sistema digestivo que provoca diarréia, vômitos e febre é a doença mais fácil de pegar em um rio, já que seus germes proliferam facilmente na água. O tratamento é feito com remédios para eliminar os microorganismos e com soro contra a desidratação.
HEPATITE
É outro vírus comum nos esgotos, porque muitas pessoas estão infectadas mas não manifestam a doença. Os sintomas (febre, mal-estar e náusea) se manifestam de duas a sete semanas depois do contato com o vírus. Apesar de poder ser fatal, a hepatite é curável com remédios.
FEBRE TIFÓIDE
Não aparece muito, mas é grave: os principais sintomas são febre, dor de cabeça, náusea, vômito, dor abdominal e erupções na pele. A bactéria tem um período de incubação de até duas semanas. Com medicamentos, a doença some em um mês, mas se não for tratada pode matar 25% dos infectados.
ASCARIDÍASE
Essa doença, que também aparece bastante, tem descrição assustadora: as larvas da lombriga que causa a enfermidade entram na circulação, ganham o sistema digestivo e param no intestino, onde crescem até 40 centímetros. Em casos graves, só uma cirurgia resolve.
LEPTOSPIROSE
Essa doença transmitida pela urina de ratos costuma surgir em rios com ninhos de roedores em suas margens. A bactéria causadora entra no corpo por pequenas feridas na pele e pelas mucosas do olho, da boca, do ânus ou da vagina, podendo matar até 15% dos contaminados.
POLIOMIELITE
A doença foi erradicada do país, mas pode chegar ao esgoto pelas fezes de pessoas que estiveram no exterior. Os sintomas são febre, dor de cabeça, distúrbios gastrointestinais, nuca rígida e até paralisias. Se a vacina não estiver em dia, a doença não tem tratamento e pode matar.
CÓLERA
O problema está controlado no Brasil, mas o vibrião também pode parar nos rios que recebem dejetos de aeroportos internacionais, por exemplo. A cólera causa diarréia intensa, vômitos e colapso no sistema circulatório. Se não houver tratamento nas primeiras horas, a mortalidade chega a 50%.
TÉTANO
A bactéria que transmite esse mal se aloja em ferimentos e afeta o sistema nervoso, provocando contrações musculares e podendo até matar. A boa notícia é que, se a vacina antitetânica ainda estiver valendo, o risco de contrair a doença desaparece.
Revista Mundo Estranho Edição 21/ 2003
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