quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Tim Page: Sangue na lente


Rodrigo Rezende
Após ficar à beira da morte na Guerra do Vietnã, o fotógrafo Tim Page acompanhou de perto a angústia dos veteranos do conflito e partiu em busca dos amigos que fez - e perdeu - no front asiático.

Uma câmera na mão e um estilhaço de bomba na cabeça. Era o que tinha o fotógrafo inglês Tim Page em 19 de abril de 1969, numa planície próxima a Saigon, no Vietnã. Nesse dia, o jovem hippie que saíra de casa para rodar o mundo perdeu 20% do cérebro. Antes, já havia revelado o lado oculto dos campos de batalha e ajudado a mudar a opinião pública americana sobre a guerra. Page se tornou, assim, uma espécie de lenda viva do fotojornalismo – tema que leciona na Griffith University, na Austrália. No filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, o fotógrafo de guerra representado pelo ator Dennis Hopper é inspirado nele.
Depois que uma mina terrestre explodiu ao lado de Page, ele chegou a ser dado como morto. Com metade do corpo paralisado, demorou dez anos para se recuperar. Isso não o impediu de continuar trabalhando. Após a guerra, envolveu-se com o movimento em prol dos veteranos do Vietnã e documentou o drama de Ron Kovic, soldado mutilado vivido por Tom Cruise no filme Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone.
Nos anos 90, Page foi em busca do paradeiro do amigo Sean Flynn (filho do ator americano Errol Flynn), fotógrafo, provavelmente executado no Camboja em 1971. Para registrar a história de Flynn e de mais 134 colegas que morreram cobrindo guerras na Indochina, Tim editou o livro Requiem (inédito no Brasil), com fotos feitas por eles. Aos 62 anos, Page já tirou 750 mil fotografias em 85 países – só ao Vietnã, ele voltou mais de 40 vezes. De sua casa em Brisbane, na Austrália, ele conversou com História.

Como é o trabalho de um fotógrafo de guerra?
TIM PAGE – A câmera dá a você o direito de estar lá, naquele lugar onde não faz sentido estar, que é horrível, estúpido e desumano. Ela se torna um passaporte para participar de toda aquela insanidade. E você não pensa sobre as implicações filosóficas de estar morto ou vivo, pois está ocupado demais tentando sobreviver. No meu caso, no Vietnã, eu também estava tentando aprender a ser fotógrafo. E eu suponho que eu tenha tido muita sorte, pois me meti em situações muito ruins e saí delas com algumas boas fotos.

Você não era um fotógrafo profissional, então?
Não. Eu nunca tinha tirado fotos profissionais. Em 1965, eu estava morando no Laos, onde trabalhava na missão americana de ajuda humanitária, cultivando plantas e fazendo pesquisas agrícolas. Foi quando houve uma revolução e eu, que tinha uma câmera, consegui fotos exclusivas para a United Press International (a agência de notícias UPI). Foi a primeira venda de fotos da minha vida. Aí eles me ofereceram trabalho em Saigon. Basicamente, a UPI precisava de um fotógrafo substituto no Vietnã por seis semanas e eles me perguntaram se eu gostaria de trabalhar por 90 dólares semanais. O salário também incluía uma câmera. E me mandaram para lá em fevereiro de 1965. Foi assim que tudo começou. E eu cheguei totalmente virgem no Vietnã, sem experiência. Foi como se eu tivesse pulado na parte funda da piscina para aprender a nadar.

Como era o dia-a-dia no front?
Eu tinha a mesma idade dos soldados, uns 20 e poucos anos, e estava sofrendo das mesmas privações que eles. Nos dávamos muito bem. Na maior parte do tempo, a guerra era muito chata. Era uma questão de esperar para ver o que ia acontecer e, normalmente, o inimigo é que abria fogo primeiro. De repente, estávamos emboscados e eu começava a tirar fotos... Muitas vezes, apenas andávamos, andávamos e andávamos. Chovia ou fazia muito calor – é o mesmo clima do Brasil, talvez mais quente. E você passa o dia tentando manter a cabeça fresca e o corpo funcionando. A sensação era como estar numa guerra na Amazônia. Ruim assim.

Você pensou em desistir de cobrir a guerra?
Em 1965, fui ferido junto com os fuzileiros navais, e isso me deixou com medo. Em 1966 eu fui ferido duas vezes, uma por uma granada e outra por fogo amigo de um barco americano. Depois disso, resolvi que já tinha vivido o suficiente da guerra. Mas eu voltaria a ela logo depois. Quando retornei para a Europa, fui cobrir a Guerra dos Seis Dias, em 1967, entre árabes e israelenses. E em 1968 eu estava de volta ao Vietnã. Era como se eu fosse uma mariposa viciada, que não desistia de ir em direção ao fogo.

Você chegou a desobedecer ordens de militares para fazer seu trabalho?
Não havia ordens. Lá o exército não podia me controlar, pois eu era um civil e tinha o nível hierárquico equivalente ao de um oficial, como um major. Então eles não podiam me impedir de tirar fotos. Mas havia coisas que eles não queriam que eu fotografasse, como pessoas sendo torturadas. E eles deixavam isso bem claro. Quero dizer, quando alguém aponta uma arma para você e diz “sem fotos”, você não tira fotos, pois pode ser morto bem rápido. Mas na maior parte do tempo, no campo de batalha, eu podia fotografar o que quisesse. E então, frequentemente, quando havia algo horrível e antiético acontecendo, como soldados brincando com cadáveres, eles mesmos me chamavam para fotografar, porque queriam ter fotos de recordação deles próprios. Era muito estranho.

Dentre todas as suas fotos, qual tem a maior importância histórica?
É difícil dizer, porque é uma combinação de todas as imagens que, chegando ao público, fizeram alguma diferença contra a guerra. Provavelmente as fotos da emboscada do 173º Regimento Aerotransportado, que saíram na revista Life e correram pelo mundo. Há também as fotos dos vietnamitas do norte que foram mortos numa igreja em 1969. Se elas tiveram efeito? Eu gosto de pensar que sim.

O que você lembra sobre seu acidente com a mina terrestre?
Não tenho certeza sobre o quanto minha memória é confiável a respeito disso, porque o acidente tirou do meu cérebro um pedaço do tamanho de uma laranja. Eu lembro de estar num helicóptero pousando e de sargentos dizendo: “Você terá que ficar no solo, pois há muitos feridos. Teremos que encher o helicóptero com eles”. Eu desci do helicóptero e... Bem, quando você está num campo minado, você sempre anda 3 metros atrás da pessoa na sua frente, e tenta caminhar exatamente onde ela colocou os pés. Nós não pisamos numa mina. Ela foi detonada por controle remoto. Quando eu estava a uns 35 metros do helicóptero, tudo de que me lembro  é de sentar no chão para trocar as lentes da câmera e ter me sentido não muito inteiro. Aí levantei e, quando estava a uns 20 metros do helicóptero, caí. Fui empurrado para dentro dele, mas não me lembro de ter ido até a base. Um médico disse: “Você só tem mais 20 minutos de vida”. Então meu coração parou três vezes. Depois que entrei no hospital, lembro-me de estar deitado e do cirurgião começar a raspar o meu cabelo. Eu perguntei: “Vocês poderiam raspar só uma parte?” E eles disseram: “Não, tem de raspar tudo”. Aí vi um agente da revista Life e lhe entreguei meus filmes. Quando acordei, depois de nove horas de cirurgia, sentia dores terríveis. Juntaram as partes feridas do meu corpo com fios de aço, como fazem com uma galinha empalhada. Fiquei no Vietnã por mais seis dias, depois fui transferido para o Japão e só então para a América do Norte. Foi muito doloroso. Ao final, todo o lado esquerdo do meu corpo ficou paralisado. Fiquei hemiplégico. Demorou dez anos para que eu me recuperasse totalmente e voltasse a fotografar. Mesmo assim, não me recuperei 100%. Atualmente, acredito ter apenas 75% da minha capacidade anterior como fotógrafo.

Como era sua relação com Sean Flynn?
Quando fui ferido no Vietnã pela última vez, Sean ficou ao lado da minha cama, me dando força. Nós éramos como irmãos. Então, em 1970, ele foi capturado por vietnamitas. De alguma forma pensamos que, com o fim da guerra em 1975, ele voltaria, ressurgiria da selva. Mas ninguém sobreviveu, ninguém, nenhum daqueles jornalistas que foram capturados. Dezenove foram capturados e mortos. No fim dos anos 80, um pesquisador francês obteve documentos secretos que indicavam que Sean e outros tinham sido executados no Camboja. Eu mesmo fui até lá e cheguei quase ao lugar indicado no mapa. Voltei para a Inglaterra e um amigo meu, do Canal 3, se interessou pelo tema. Conseguimos dinheiro suficiente para fazer um filme sobre a tentativa de encontrar pessoas desaparecidas na guerra. Fomos para o Camboja e para o Vietnã e fizemos um documentário (Danger on the Edge of Town, inédito no Brasil). Voltamos de lá com três dentes e uma obturação dessas pessoas desaparecidas na guerra. Não é muito, mas é difícil conseguir mais por causa do clima da região, que acelera a decomposição dos corpos. Testes de DNA provaram que havíamos encontrado os restos de dois amigos.

E como você se aproximou de Ron Kovic?
Em 1974, eu estava morando em São Francisco, na Califórnia, com um veterano que era DJ e me envolvi com mutilados de guerra e seus protestos por direitos. Nos anos 70, os veteranos eram rotulados maldosamente, tratados como se fossem matadores de bebês. Eu fiz parte do grupo que lutava para limpar o nome deles. Apenas em 1982 os veteranos começaram a ganhar algum respeito. Era o começo do movimento de Ron Kovic, que foi inicialmente chamado de Veteranos do Vietnã Contra a Guerra e gradualmente mudou para Associação dos Veteranos do Vietnã. Eu entrei nos protestos porque também estava sendo tratado como lixo na América. Todos que tinham passado pelo Vietnã eram vistos como uns merdas, como ratos. E Nascido em 4 de Julho, de Kovic, foi o primeiro livro (depois transformado em filme) a vir à tona e dizer: “É hora de reconquistar o orgulho dos veteranos”.

E o personagem de Apocalipse Now inspirado em você, é realista?
O ator Dennis Hopper age como se fosse uma combinação de mim com Sean e mais duas outras pessoas. Então ele é parte eu e parte outros. É estranho ser comparado a um personagem de filme. Não penso na minha vida como diferente da de nenhuma outra pessoa. Só tenho mais sorte.

Sua experiência no Vietnã, então, valeu a pena? Você faria tudo de novo?
Eu não mudaria nada. Quero dizer, tenho muita sorte por estar vivo e por ter feito algumas fotos boas e tido algumas experiências incríveis. Eu me sinto muito... que palavra você usaria... “fiel” (Page fala em português) ao que vivi. E talvez eu tenha mudado a opinião de algumas pessoas, feito alguma coisa para acabar com a guerra, o que me traz uma sensação boa. Eu faria tudo de novo. Mas com um pouco menos de dor desta vez (risos).

Aventuras na História n° 039

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