quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Paquistão: o país onde nasceu o Taliban

 Nelson Bacic Olic  
 Com cerca de 800 mil km2 de extensão, pouco menor que a Região Sudeste do Brasil e aproximadamente 140 milhões de habitantes, o Paquistão tem um papel importantíssimo no contexto geopolítico do subcontinente indiano e das áreas adjacentes (Oriente Médio e Ásia Central). Isto decorre não só por conta de seu envolvimento em problemas de países vizinhos, especialmente em relação à Índia e ao Afeganistão, mas também por causa de suas tensões étnicas e religiosas internas.
O Paquistão surgiu como país independente em agosto de 1947, como resultado da bipartição da colônia britânica da Índia. A idéia de se criar o Paquistão esteve ligada à oposição dos muçulmanos do subcontinente indiano em passarem a integrar uma Índia plurireligiosa e laica.
A própria palavra que designa o país é relativamente recente e foi “inventada” por jovens intelectuais muçulmanos que estudavam na Grã Bretanha durante a década de 1930. O termo Paquistão, cujo significado é “ o país dos puros”, tem uma origem singular. Cada letra que compõe o nome do país - Pakistan em inglês - tem um significado geográfico: cada uma delas refere-se a uma das regiões que integram o país. Assim, a letra P é de Punjab, o A é de Afegânia, o K é de Kachemira, o S é de Sind e as três últimas letras (TAN) referem-se à área meridional do país, conhecida como Baluquistan.
Desde o início, os jovens líderes muçulmanos fizeram questão de fazer valer a idéia de que a colônia britânica da Índia era composta por duas entidades políticas distintas: o Paquistão e a Índia.. Afirmavam eles que o Paquistão era uma nação com cultura, língua, literatura, leis, códigos, costumes e calendário próprios. No final das contas, o aspecto que acabou prevalecendo foi o religioso: o Paquistão, diferentemente da Índia pluriétnica e plurireligiosa, fez do islamismo o fundamento de sua identidade nacional.
Isso, contudo, não evitou que o Paquistão, no momento da independência, acabasse formado por dois territórios distintos separados por mais de 2.000 km.: o Paquistão Ocidental (atual República Islâmica do Paquistão) e o Paquistão Oriental (que, em 1971, se separaria de seu “irmão ocidental” dando origem a um novo país, Bangladesh) . Também não evitou que permanecesse em território da Índia uma numerosa minoria muçulmana que, embora perfaça aproximadamente 11% do efetivo total do país, representa atualmente em números absolutos mais de 100 milhões de indivíduos.
A geografia regional do Paquistão
A federação paquistanesa agrupa vários áreas com estatutos político-administrativos distintos: existem as províncias, (Punjab, o Sind e o Baluquistão), os territórios tribais (localizados junto à fronteira afegã), os “Territórios do Norte” (Gilgit, Baltistão) administrados diretamente pelo governo federal e, por fim, o Azad Cachemir (Cachemira Livre) que goza de uma situação muito particular. Esta complexa construção administrativa mostra o caráter diverso e, até certo ponto artificial, do Paquistão.
Do ponto de vista geográfico podem ser distinguidas no Paquistão duas grandes unidades regionais: o centro-sul e o norte-noroeste. A primeira delas compreende mais de ¾ do território do país, abriga cerca de 80% do efetivo populacional e pode ser subdividida em três diferentes áreas:
a) o Punjab, com mais de 200.000 km2, cerca de 60 milhões de habitantes, cuja cidade principal é Lahore;
b) o Sind, com mais ou menos 150.000 km2, mais de 25 milhões de pessoas, tendo como principal cidade Carachi;
c) o Baluquistão, pouco menos de 350.000 km2, mais de 5 milhões de habitantes e tendo Queta como principal núcleo urbano.
Já o norte-noroeste, reúne territórios bastante acidentados (a grande maioria destas áreas apresenta altitudes superiores a 1.500 metros) e divide-se em três áreas distintas:
a) Os territórios tribais, com 27 mil km2 e cerca de 3 milhões de habitantes;
b) Os territórios do norte, com 72,5 mil km2 e quase 700 mil habitantes;
c) A Cachemira Livre ou Azad Cachemir, pouco mais de 13 mil km2 e uma população pouco superior a 2 milhões de pessoas.
Apesar de serem administradas pelo governo central, paradoxalmente essas áreas, especialmente as duas primeiras (coincidentemente junto às fronteiras com o Afeganistão), tem fugido ao controle governamental. Essa situação tem favorecido não só um intenso tráfico de drogas, como também atividades subversivas. Foi nesse contexto regional que jovens refugiados afegãos, estudantes do Corão nas madrassas (escolas religiosas), fundaram o movimento taliban.
Se existe uma dualidade norte/sul no Paquistão, não é menos verdade que exista também uma diversidade leste/oeste. Esta última tem como linha divisória o rio Indo. O Indo é o eixo vital da geografia do Paquistão e o elemento que separa duas áreas culturais que têm apenas em comum sua devoção ao Islã. Uma delas corresponde a uma porção hindu-islâmica, que se identifica com o Sind e o Punjab (as duas línguas faladas nessas regiões são originárias da Índia) e, outra, mais para oeste, marcada pelo domínio de uma cultura irano-afegã.
Os ciclos geopolíticos
Depois de 1947, data de sua independência, o Paquistão conheceu vários ciclos geopolíticos. O primeiro deles vai da independência até 1971, quando o Paquistão Oriental, torna-se independente adotando o nome de Bangladesh.
Durante esse primeiro ciclo geopolítico este “duplo Paquistão” esteve profundamente engajado no jogo da Guerra Fria, fazendo parte de um pacto político-militar, o CENTO (Tratado da Ásia Central, antigo Pacto de Bagdá) em aliança com países da região e sob a égide dos EUA.
A independência de Bangladesh inaugurou um novo ciclo que vai durar aproximadamente duas décadas. Neste período o Paquistão orientou sua política externa para o mundo árabe do Oriente Médio. A invasão do Afeganistão pela URSS (1979) e a Revolução Iraniana no mesmo ano, valorizaram ainda mais a importância do Paquistão aos olhos do Ocidente, transformando-o num aliado de vital importância para os EUA em toda a macrozona que envolve os confins orientais do Oriente Médio, a Ásia Central e o subcontinente indiano
Foi a partir da porção oeste do território paquistanês que a guerrilha afegã anti-URSS, apoiada pelos EUA, se organizou e montou seus pontos de apoio. Ao mesmo tempo, o país se transformou em abrigo para os milhões de refugiados afegãos. Foi justamente nessa região paquistanesa, especialmente em torno da cidade de Peshawar, que foram lançadas as sementes que dariam origem ao movimento taliban.
O terceiro ciclo geopolítico teve seu início em 1991, quando do desaparecimento da URSS e da independência das repúblicas que compunham a antiga Ásia Central Soviética. Ele vai ser marcado pela oposição do país à Índia e sua aliada, a Rússia. Internamente, esse ciclo vai ficar caracterizado por uma reorientação geopolítica do Paquistão em direção às fronteiras setentrionais do país: além do Afeganistão, para o Tajiquistão e Cachemira. A idéia central é que o Paquistão venha se tornar a via privilegiada de escoamento dos recursos da Ásia Central, especialmente o petróleo. Essa estratégia opõe o país ao Irã que também pretende vir a ser essa via privilegiada.
Os atentados nos EUA e seus desdobramentos, relegaram a um plano secundário essas estratégias do Paquistão. Ao mesmo tempo, a ambigüidade de posições do governo paquistanês que, de um lado, continuava a ser o único país do mundo (até o início de outubro) a reconhecer o regime do taliban e, de outro, aceitava uma série de exigências e pressões do governo norte-americano (como a liberação de seu espaço aéreo para eventuais incursões contra o Afeganistão), mostram a difícil situação vivida pelos militares que detém o poder no país.
As tensões étnico-religiosas internas tornam a situação ainda mais complexa porque uma parcela muito significativa da população paquistanesa não só tem simpatias para com o regime dos talibans, como também considera Osama bin Laden um herói.
Desde há muito tempo, o Paquistão vem se defrontando com múltiplos problemas internos A construção política do país se estruturou sobre a hegemonia do grupo punjabi (cerca de 64% da população), que exerce o domínio sobre etnias menores como as dos baluques (9%), sindis (12%) e patas (8%). Todos esses grupos minoritários já apresentaram, em algumas ocasiões, veleidades separatistas. Dado importante: os patãs do Paquistão, são indivíduos de origem pashtun, a etnia majoritária do Afeganistão e que são muito numerosos dos dois lados da fronteira comum aos dois países.
A esses problemas se junta a questão da Cachemira e as tensões que ocorrem na parte meridional do país entre populações mohajires (muçulmanos vindos da Índia no momento em que a partição do império colonial britânico em 1947) e autóctones. Para completar, existem ainda de forma periódica confrontos entre a maioria sunita (cerca de 75%) e as minorias xiitas (aproximadamente 20%).
Dependendo de como evoluir a situação, não só o regime dos generais de Islamabad pode ter seus dias contados, como a própria integridade territorial do país pode ser colocada em xeque.

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