Nelson Bacic Olic
A ação do homem sobre a natureza muitas vezes tem sido nefasta, causando problemas graves não só para o meio ambiente mas também para as próprias sociedades humanas. Um dos maiores desastres ambientais e humanos que se tem notícia vem se verificando nas últimas décadas na Ásia Central, mais especificamente nas regiões próximas do mar de Aral.
Esse mar, que na verdade é um lago, abrange terras do Casaquistão e do Usbequistão, duas repúblicas que, até 1991, faziam parte da extinta União soviética. Em língua turca, o Aral é comparado à uma ilha: “uma ilha de água num mar de desertos”.
Por volta da década de 1960, o mar de Aral tinha uma superfície de cerca de 66,5 mil km2 (mais ou menos três vezes o tamanho de Sergipe, o menor estado do Brasil), sua profundidade média era de 16 metros e sua salinidade era 1/3 mais baixa que aquela registrada geralmente nos oceanos. Dois rios principais lançavam suas águas no Aral: o Amu Daria, ao sul e o Sir Daria a nordeste. Esses dois rios, as duas principais fontes de recursos hídricos da Ásia Central, têm suas nascentes nas altas montanhas que fazem parte do sistema do Himalaia e que distam cerca de 1.000 km. da foz.
Na década de 1960, as autoridades da antiga URSS puseram em prática uma política de irrigação utilizando as águas dos rios, especialmente o Amu Daria, que visava consagrar 7 milhões de hectares da Ásia Central para o cultivo do algodão. Esse sistema de cultivo tornou em pouco tempo o Usbequistão no quarto maior produtor e no segundo exportador mundial do “ouro branco”. Esse sucesso econômico provocou e continua provocando danos enormes ao meio ambiente e às populações da região (especialmente para mais de 1 milhão de pessoas da Karakalpakia, república autônoma pertencente ao Usbequistão).
Em termos ambientais, o desastre pode ser avaliado por uma série de dados. Na década de 1980, o fluxo de água dos Amu Daria e do Sir Daria era de apenas 10% daquele que era registrado vinte anos antes de iniciada a utilização da técnica de irrigação. Desde a segunda metade da década de 1990, nenhuma gota de água dos rios tem chegado ao Aral. O interrupção do fluxo de água combinado com a forte evaporação e a pouca chuva (deve-se lembrar que o clima da região é desértico), fizeram diminuir a superfície do mar em cerca de 65%. Como conseqüência, seu volume de água decresceu em 80% e a profundidade média reduziu-se em 18 metros na parte sul e 13 metros na porção norte do mar. A salinidade do Aral passou a ser equivalente à dos oceanos em geral.
O recuo da superfície do mar foi deixando em seu leito seco milhares de hectares de áreas desérticas, recobertas por sais que os ventos dispersam por uma vasta região. A água residual do mar, assim como aquela do curso inferior dos rios tiveram seu teor de sal aumentado assim como a carga de resíduos químicos e bacteriológicos fruto da utilização abusiva de adubos, pesticidas e desfolhantes químicos
Do ponto de vista humano, a tragédia não é menor. À catástrofe ambiental, aliou-se a decadência econômica e social da região que já figurava como uma das mais pobres de toda a ex-URSS. Mais de um milhão de pessoas já estão ou estarão expostas à ameaças de poluição tóxica, resultantes de uma múltipla contaminação química em seus corpos. Dentre os habitantes da região, as mulheres e as crianças são as mais afetadas.
Estudos feitos por médicos e sanitaristas mostram que foram registrados altos níveis de metais pesados, sais tóxicos e outras substâncias na água potável ingerida pelos habitantes da região. A maior parte dos vegetais consumidos estão contaminados por pesticidas, como o DDT, que foram utilizados em grandes quantidades para combater pragas dos algodoais.
Como conseqüência, nos últimos 20 anos houve um aumento brutal de doenças que atacam os rins, o fígado, especialmente câncer, como também um incremento desmesurado de doenças artríticas e bronquite crônica. Cerca de 20% das mulheres entre 13 e 19 anos sofrem de doenças renais. 23% têm disfunções na tiróide e, muitas delas, possuem altos níveis de metais pesados ( chumbo, zinco e estrôncio) em seu sangue. Como cerca de 90% das mulheres apresentam anemia, quando dão à luz, grande parte delas acaba tendo hemorragias, fator que explica a altíssima mortalidade maternal.
A independência das repúblicas da antiga Ásia Central soviética em 1991, acendeu esperanças de melhora da situação. Os programas de assistência colocados em prática, especialmente por organizações internacionais, todavia, surtiram pouco efeito. Contudo sua presença tem possibilitado alertar a opinião pública internacional para a situação dramática vivida pelas populações atingidas pela catástrofe, vítimas de políticas econômicas absurdas postas em prática por governos autoritários.
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