domingo, 26 de dezembro de 2010

Aspectos Regionais da Cultura da Soja no Brasil

 Nelson Bacic Olic  
 Desde que a soja passou a ser efetivamente cultivada em nosso país, a Região Sul tem se mantido, pelo menos até agora, na liderança da produção desse produto da agricultura brasileira. Dentro dessa região, os estados do Paraná e do Rio Grande do Sul respondem por cerca de 95% da produção regional.
O aumento contínuo do volume da produção no sul do Brasil é explicado fundamentalmente pela evolução técnica do cultivo já que as últimas terras disponíveis nessa região foram ocupadas no início dos anos 1960. A oleaginosa se impôs como o mais importante cultivo do Brasil meridional, substituindo outras atividades agropecuárias , como por exemplo o café no norte do Paraná.
A partir do início dos anos 1970, a soja começou a se expandir pelo Centro-Oeste, suplantando pouco a pouco cultivos comerciais já existentes como o arroz, substituindo as lavouras de subsistência, a pecuária extensiva e incorporando espaços até então não utilizados ou pouco utilizados para o uso agrícola. Esta expansão, regra geral, foi realizada por experientes empresários do Centro-Sul do Brasil, gaúchos especialmente, que passaram a desenvolver esse cultivo utilizando técnicas cada vez mais modernas.
O baixo preço das terras no Centro-Oeste, aliado aos incentivos concedidos pela SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e as linhas especiais de crédito criadas pelo governo federal facilitaram sobremaneira o processo de expansão. Juntamente à isso deve-se ressaltar as excelentes condições naturais do domínio dos cerrados, com sua topografia plana, fator que facilita enormemente a mecanização e as invejáveis condições climáticas onde se destaca a intensa insolação.
A participação do governo federal, especialmente no início do processo, objetivou não só atender as demandas de matérias-primas do nascente setor agroindustrial e de uma população urbana cada vez mais numerosa, mas também visava incentivar a exportação de produtos não tradicionais, que contribuíssem para a melhoria da situação de nossa balança comercial.
A criação de infra-estrutura para o desenvolvimento da agropecuária regional deu-se com a criação de programas como o PRODOESTE e o POLOCENTRO (1975), que apontavam para uma ocupação racional dos cerrados e seu aproveitamento em escala empresarial, com apoio no crédito subsidiado.
As grandes empresas, quase sempre originárias do Centro-Sul do país, geralmente deslocaram-se para a região tendo em mãos instrumentos técnicos modernos e importantes recursos de capital em termos de instalações, maquinaria e equipamento. Aproveitaram-se no Centro-Oeste as vantagens de localização que permitissem não só alavancar o volume da produção mas, também que elevassem os níveis de produtividade.

Esse conjunto de fatos, combinado com uma conjuntura favorável no comércio internacional da soja, fez com que nas últimas décadas do século XX, o volume da produção de soja crescesse cerca de 600% e a área plantada aumentasse aproximadamente 400%. A produtividade da soja no Centro-Oeste, cerca de 10 a 20% superior à das demais regiões, atesta a alta tecnologia empregada pelo setor nessa área do país.
No final da década de 1990, a soja já era produzida em todas as regiões brasileiras e seu cultivo se espalhava por quase todas as unidades federativas do país. Neste período, embora o volume da produção tenha aumentado em todas as regiões, a participação da produção do Sul e Sudeste apresentou gradativa diminuição, enquanto o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste mostraram sensíveis aumentos.
O Sul do Brasil produz atualmente cerca de 45% de toda a produção nacional. Os destaques da região ficam para o Paraná e Rio Grande do Sul, respectivamente o segundo e o terceiro maiores produtores nacionais.
A Região Sudeste é responsável por pouco menos de 9% da soja produzida no Brasil, participação essa, ressalte-se novamente, que vem diminuindo nos últimos tempos. São Paulo e Minas Gerais, com produção mais ou menos equivalentes, são responsáveis por quase a totalidade da produção regional. O aumento da produção da região é explicado exclusivamente pela melhoria da produtividade.
O Centro-Oeste, que vem apresentando expressivos índices de crescimento da produção, é responsável por pouco mais de 40% da produção nacional. Dentro da região, Mato Grosso é o estado que apresenta os melhores resultados já que produz mais de 50% da produção regional, bem à frente de Goiás e Mato Grosso do Sul, respectivamente o segundo e o terceiro produtores regionais. Em Mato Grosso, a área que se destaca é a região chamada de pré-Amazônia, situada ao norte de Cuiabá, onde se produz cerca de metade de toda a produção estadual. Na safra 1999/2000, pela primeira vez, Mato Grosso figurou como o maior produtor estadual de soja do país.
A Região Norte embora produza menos de 1% do total nacional, vem apresentando um crescimento significativo nos últimos anos. Os estados que apresentam a maior produção são Tocantins, Rondônia, Pará e Amazonas (porção sul). A expansão da soja nessa região do país tem se verificado principalmente pela incorporação de novas áreas de cerrados (no caso de Tocantins) e de matas (Rondônia e Amazonas).
Por fim, na Região Nordeste (cerca de 5% do total nacional), a produção da oleaginosa têm aumentado de forma expressiva, especialmente a partir da última década do século XX. Três estados da região - Bahia, Maranhão e Piauí -, são responsáveis por quase toda a produção regional. Nas áreas de cerrados destes estados, vêm se reproduzindo a trajetória daquilo que já vinha se verificando no Centro-Oeste, inclusive no que se refere aos padrões técnicos de produção.

A Bahia sozinha produz cerca de 75% da produção regional e a região de destaque é a parte ocidental do estado (região de Barreiras). No Maranhão, a grande área produtora são as regiões de cerrados do sul do estado (região de Balsas) e, no Piauí, onde a produção é ainda pequena, o destaque fica para a porção meridional do estado.

É crescente o número daqueles que chegam a afirmar que nessas áreas nordestinas, onde a agricultura se apresenta bastante modernizada, estaria se formando um “novo” Nordeste que iria deixando para traz seu passado arcaico. Dentro dessa perspectiva começaram a surgir pressões com o objetivo de se propor mudanças na divisão político-administrativa vigente. Concretamente, elas se manifestariam no sentido da criação de um estado de São Francisco, no oeste da Bahia, de um estado do Gurguéia no sul do Piauí e do estado do Maranhão do Sul, na porção meridional do território maranhense.

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