quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Os caminhos percorridos pela soja no Brasil

Nelson Bacic Olic  
 Chamou  a atenção do público, no início do mês de abril, as imagens divulgadas pela mídia nas quais apareciam longas filas de caminhões que, ao longo das estradas que davam acesso à Paranaguá (PR), esperavam para descarregar suas cargas de grãos nos navios fundeados junto à baia do porto paranaense. A ocorrência dessas longas filas era explicada parcialmente pela greve dos portuários do porto de Santos (SP), mas também pelas dificuldades em escoar a enorme quantidade de grãos, referente à safra 2000/2001. A maior parte dessa enorme safra tem a soja como principal “personagem”.
O Brasil, ao longo de sua história econômica apresentou vários momentos nos quais um determinado produto foi fundamental para um conjunto de transformações que influenciaram não só a economia, mas também a política, a sociedade, a demografia, a cultura e a ocupação e valorização de determinados espaços geográficos. Os ciclos da cana-de-açúcar e do café são, em relação a produtos agrícolas, os dois melhores exemplos.
Na segunda metade do século XX, especialmente em suas três últimas décadas, um “novo” produto agrícola, a soja, foi responsável por profundas modificações no campo brasileiro. O crescimento da produção dessa oleaginosa foi tão rápido desde a década de 1970, que colocou em pouco tempo o Brasil entre os maiores produtores e exportadores mundiais não só da soja em grão mas também de alguns de seus derivados como o óleo e o farelo.
A importância econômica e social desse avanço produtivo pode ser avaliada pelos seguintes indicadores: atualmente, o complexo agroindustrial da soja responde por cerca de 16% de todo o sistema agroindustrial do país e gera empregos diretos para aproximadamente 1 milhão de trabalhadores.
Dentre as principais oleaginosas cultivadas no mundo, a soja participa com pouco mais de 50% da produção total. Entre suas principais utilidades está o suprimento da demanda mundial de óleos vegetais e a produção de ração para a alimentação de bovinos, suínos e aves.
Estudos têm mostrado que as áreas com maior potencialidade de crescimento na produção dessa oleaginosa, situam-se entre os paralelos de 20º de latitude Sul e 20º de latitude Norte. Dada essa localização preferencial, as possibilidades de expansão produtiva da soja encontram no Brasil condições praticamente ideais, não só em função de aspectos naturais favoráveis (especialmente topográficos e climáticos), mas também por conta da disponibilidade de terras e de meios tecnológicos.

Sob este último ponto deve-se destacar que o Brasil é um dos países que está na vanguarda mundial da tecnologia em termos de suporte tecnológico da produção em áreas tropicais.
Desde o início dos anos 1970, quando começa o processo efetivo de cultivo e expansão, até o início da década seguinte a produção da soja esteve concentrada quase exclusivamente nos estados do Sul do Brasil. Atualmente, a oleaginosa é cultivada em todas as cinco grandes regiões brasileiras e, em quase todas as unidades federativas do país.
A expansão do cultivo verificou-se sobre diversos domínios naturais mas, em dois deles, o dos planaltos subtropicais recobertos originalmente por araucárias e o dos chapadões tropicais recobertos por cerrados, o processo teve um desenvolvimento muito maior.
O domínio dos cerrados não só foi aquele em que os espaços incorporados pela cultura foram mais extensos, mas também aquele de maior potencial atual de expansão. A “descoberta” da técnica da calagem (adição de calcário, produto que reduz a acidez do solo do cerrado, tornando-o produtivo), foi fundamental para o desenvolvimento desse processo.
Essa expansão foi resultado tanto da incorporação de novas áreas ao processo produtivo (especialmente na região Centro-Oeste), quanto do processo de substituição de outras culturas pela oleaginosa, como ocorreu em amplas áreas do Centro-Sul do país. Certas regiões de cerrado no Nordeste (oeste da Bahia e regiões meridionais do Maranhão e Piauí) e de matas da Amazônia (sul do Amazonas, região de Humaitá, por exemplo), representam atualmente novas frentes de expansão desse produto que vem se constituindo no mais importante vetor da agropecuária brasileira na atualidade.

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