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Newton Carlos
Imagine-se às voltas com algum tipo de praga que exija a compra de agentes químicos. A operação, feita por meios eletrônicos, como muitos milhões de outras, é levantada em varredura executada permanentemente por instrumentos de alta tecnologia (computadores de última geração, etc.) de agência do governo. Em conseqüência, você pode ser investigado, em “ação preventiva”, na condição de terrorista em potencial. O mesmo pode resultar da verificação do uso de cartão de crédito mostrando assiduidade a mesquitas ou restaurantes árabes, sobretudo em se tratando de ocidental.
Ficção científica? Só aos poucos o mundo fica conhecendo a montagem de um programa que se abriga no Darpa, a Agência de Pesquisas de Projetos Avançados de Defesa, criadora da Internet. Conta com parcelas de verbas bilionárias do Pentágono, cujo orçamento já se aproxima da marca de um bilhão de dólares por dia.
O programa é o TIA, sigla em inglês do Total Intelligence Awareness. Pode ser traduzido como “conhecimento total de informações”. A ambição é criar algo que saiba de tudo a todo momento. Trata-se de sistema experimental que vem sendo desenvolvido pelo Pentágono com o objetivo de “pescar” informações em bilhões de transações eletrônicas diárias, analisá-las e flagrar atividades suspeitas, tornando-as possíveis focos de investigações.
Entidades de defesa dos direitos civis e parlamentares – não só democratas, da oposição, mas também republicanos “moderados” – dizem que o TIA torna realidade o “Big Brother”, o grande irmão do célebre livro (e filme) “1984”. Na sátira de George Orwell, o “Big Brother” tudo vê, tudo ouve e tudo controla. Os idealizadores do TIA escolheram como lema a frase, em latim, pregada em sua porta principal num dos corredores do Pentágono: “Scientia Est Potentia”. Conhecimento é poder.
A introdução do TIA parte da avaliação de que a “a guerra contra o terror”, em primeiro lugar, exige que autoridades federais espionem todos e cada um dos americanos ou residentes no país. A estratégia consiste no uso das vias eletrônicas de informações. Parte substancial dos recursos do projeto se destina a pesquisas que aperfeiçoem os instrumentos de espionagem eletrônica, de modo a, algum dia, alcançar 100% de eficiência.
Um formidável computador central – a cabeça do “Big Brother” – é instalado. O sistema em sua totalidade será composto por uma rede de computadores, ativada através de um sofisticado e ultra-secreto software.
Uma gigantesca rede de vídeo em circuito fechado revistará cada canto, por mais disfarçado ou escondido que esteja, da vida das pessoas. É o fim da privacidade.
Essa rede, quando montada por inteiro, registrará e cruzará informações sobre tudo o que disserem, escreverem ou fizerem americanos e residentes no país.
Saberá o que compram ou comem, para onde viajam, o que lêem, como se divertem, quanto depositam em suas contas bancárias ou retiram delas, com quem falam por telefone ou e-mail e muitas outras atividades. Isso será possível por meio do rastreamento eletrônico de cartões de crédito, ligações telefônicas, etc. Deixam de existir os espaços nos quais os cidadãos gerem suas vidas livres da bisbilhotice alheia. Um monumental banco de dados será atualizado a cada segundo, 24 horas por dia, por olhos eletrônicos que não dormem.
O “Big Brother” do governo Bush bate de frente com a Lei de Privacidade de 1974. O TIA ainda não foi concluído, testado em definitivo ou mesmo colocado em prática – o que oferece tempo e oportunidade para propor mudanças na legislação vigente. Mas sua implementação não é tão complicada, já que ele funcionaria como um imenso integrador dos já existentes Customer Relationship Managements (CRMs), os sistemas informatizados que monitoram as preferências do consumidor, orientando melhor as campanhas de marketing das empresas.
Bush confia na cobertura da maioria republicana no Congresso para legitimar o TIA. Mas a esperança de opositores é que a própria discussão de um projeto de “legalização” do programa fortaleça as desconfianças.
Quando o debate começar, entrará em cena aberta a figura controvertida do almirante John Poindexter, idealizador e construtor do TIA.
Poindexter foi assessor de segurança nacional do ex-presidente Ronald Reagan, nos anos 80, e andou envolvido no escândalo Irã-Contras, as compras ilegais de armas para os que combatiam o regime sandinista da Nicarágua. Foi condenado por diversos delitos: mentiras em depoimentos ao Congresso, obstrução de trabalhos parlamentares, destruição de documentos, etc. Só escapou da prisão porque filigranas jurídicas conseguiram invalidar a sentença.
Computadores sempre foram os objetos prediletos de Poindexter. “Trata-se de um tecnocrata envolvido com manipulação de informações”, diz o historiador militar John Prados, do National Security Archives. Depois do final do governo Reagan, trabalhou como consultor na área de computação (não por acaso, em uma empresa que produz CRMs) e agora propõe o que chama de “solução tecnológica para a ameaça terrorista”. Segundo o jornal The Washington Post, crítico do programa, conduzi-lo “jamais deveria estar nas mãos de Poindexer”. Mas o Pentágono, escreveu o The New York Times, está cheio de gente que aceita totalmente suas idéias.
Boletim Mundo Ano 11 n° 1
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