por Isabela Somma
Pense na imagem de um árabe. Mais especificamente a de um árabe muçulmano. Provavelmente surgirá a figura de um indivíduo barbado, com um turbante na cabeça e uma metralhadora no ombro. Não se engane. Essa é uma imagem que há pelo menos dois séculos começou a ser construída nas potências colonialistas européias.
Publicado há exatos 25 anos, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (Companhia das Letras), do escritor americano de origem palestina Edward Said (1935-2003), trouxe essa discussão à tona. Ele demonstra que acadêmicos ocidentais elaboraram um discurso que caracteriza os povos orientais, principalmente árabes e muçulmanos, como indolentes, violentos e atrasados. Dessa forma, uma intervenção ocidental seria necessária para que eles “progredissem”. Uma boa desculpa para colonizar a Índia no século 18 ou invadir o Iraque e o Afeganistão no século 21.
Said, que foi professor de literatura comparada da Universidade de Colúmbia até morrer, em setembro, analisou obras de especialistas em Oriente – os orientalistas –, artistas e de viajantes europeus produzidas a partir da chegada de Napoleão ao Egito. Nelas, detectou uma retórica que utiliza a diferenciação entre “nós”, os civilizados, e os “outros”, os bárbaros, e que abriu um fosso nas relações entre as duas metades do mundo.
O novo prefácio que Said escreveu para comemorar os 25 anos do livro está no site www.edwardsaid.org.
O texto do intelectual, que era um defensor da causa palestina e do pacifismo, mostra o quanto essa imagem mudou após 11 de setembro. Para muito pior.
Aventuras na História Edição 005 Janeiro de 2004
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