domingo, 13 de março de 2011

São Paulo (em 1554!)

A maior metrópole sul-americana já foi um pacato vilarejo, situado entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí – quando estes tinham águas claras e peixes. Apesar de o marco de sua fundação ser a missa rezada no pátio de um colégio jesuíta, em 25 de janeiro de 1554, suas redondezas já eram habitadas por índios e alguns colonos portugueses. “Os primeiros padres da Companhia de Jesus vieram quase seis meses antes”, afirma a historiadora Nina Lomonaco. As especulações sobre o planalto vinham desde 1549, quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil,  na caravana do governador-geral Tomé de Souza.
O primeiro colégio dos jesuítas havia sido instalado em São Vicente em 1551, mas o padre Manoel da Nóbrega, superior da Companhia de Jesus no Brasil, não estava feliz com a localização por dois motivos: os pais dos índios que estudavam no colégio tinham de fazer uma longa jornada para descer a serra e visitar os filhos e a convivência dos estudantes com os colonos da cidade portuária, que eram mercadores de escravos, era prejudicial à catequização. Nóbrega subiu a serra com a ajuda do português João Ramalho (nomeado guarda-mor do campo), conquistou a amizade do índio Tibiriçá e mudou os filhos dos índios para o novo povoado, São Paulo de Piratininga. Depois dos festejos de Natal, chegaram ao local os padres Afonso Braz e Vicente Rodrigues e os irmãos Gregório Serrão e José de Anchieta. Em 25 de janeiro de 1554, celebraram a missa, assistida pelos índios e por nenhuma autoridade.
Taipa de pilão
O primeiro colégio dos jesuítas é de taipa, um tipo de barro, com telhado de sapê. Não tem cômodos  nem divisórias e abriga cerca de 25 pessoas. Ele é o centro de tudo que acontece por aqui: os índios são alfabetizados em tupi, têm aulas de carpintaria, marcenaria e também de catecismo. Em1640, os jesuítas seriam expulsos dali pelas autoridades portuguesas, mas 13 anos depois retornariam e reconstruiriam a igreja e o colégio. De onde seriam novamente expulsos em 1760, quando o colégio foi transformado em Palácio dos Governadores. O teto da igreja caiu em 1896 e o colégio passou por diversas transformações até 1953. Hoje, o que resta da época de Anchieta é uma única parede de taipa
João Ramalho
Ninguém sabe ao certo como o português João Ramalho chegou a São Paulo de Piratininga. O que se sabe é que ele foi um dos primeiros colonos a aparecer por ali. Pode ter sido expulso de Portugal ou ser sobrevivente de um naufrágio, mistério que ele mesmo não faz questão alguma de desvendar. Tem várias mulheres índias, coisa que não agrada nada aos padres jesuítas. Uma delas é Bartira, filha do chefe indígena Tibiriçá. João Ramalho tem muitos filhos e é respeitado na aldeia. Ele é um dos que mais conhecem os caminhos entre o planalto e o litoral. Lá, ele vende índios inimigos capturados como escravos para os estrangeiros
Para a janta... formiga!
O índio Tibiriçá – chefe de tribo tupiniquim dos guaianás – habitualmente freqüenta o colégio e sempre traz alguma caça. Os índios costumam se alimentar de frutos, raízes, milho e muita, mas muita farinha de mandioca. E completam a alimentação com peixes e com caça (tatu, tamanduá, anta, capivara e jacaré). Outra iguaria muito apreciada é o içá assado, ou tanajura. A preparação é simples: o abdômen da formiga é colocado em vasilhas de barro e levado ao fogo. Outro costume entre eles é o de comer a carne dos inimigos de guerra – mas só a dos valentes. Os jesuítas se alimentam como os índios (com exceção do hábito canibal)
O padre professor
O padre José de Anchieta vive doente e aparenta ter pouco tempo de vida. Diz-se que dorme apenas duas horas por noite. Ele aprendeu o tupi em apenas três meses e agora dedica-se a escrever a gramática da língua dos índios. No pátio do colégio, o padre ensina os filhos dos índios a ler e a escrever e também os catequiza. Em uma das cartas que escreve para Portugal a cada quatro meses, ele conta a lenda do Curupira, que aprendeu com a curuminzada. Em outra, relata uma premonição que teve ao chegar ao vilarejo. “São Paulo de Piratininga ainda será uma grande metrópole”
Mestre- de- obras
A vila mal foi criada e já está em franca expansão. O responsável pelas obras é o padre Afonso Braz, que uniu os conhecimentos europeus aos das construções com barro dos índios. Em setembro de 1554, ele comanda a construção da igreja e das novas casas ao redor do colégio, todas no estilo português, mas feitas de taipa de pilão com teto de sapé. O padre presta muita atenção à manutenção das antigas casas e não deixa que se percam nem mesmo após chuvas (e como chove por aqui) ou vendavais. Ele acredita que isso é fundamental para ensinar aos índios a importância de se fixar num lugar e valorizar e construir um povoado de verdade
Chefe branco
O padre Manoel da Nóbrega é o chefe por aqui. Ele liderou a primeira missão jesuíta no Brasil e está no país há cinco anos. Em 1551, ele visitou pela primeira vez a vila de São Vicente e a chamou de “a terra melhor do mundo”. Na vila de São Paulo de Piratininga ele dá aulas de catequese e é um disciplinador. Também escreve cartas a cada quatro meses para os superiores. Numa delas, datada de 1554, descreve o nascimento de São Paulo: “Está principiada uma casa na povoação de S. Vicente, onde se recolheram alguns orphãos da terra e filhos do Gentio; [...] e estes de todo deixaram seus costumes e se vão estremando dos outros, e muita esperança temos de serem verdadeiros filhos da Igreja, e vai-se fazendo uma formosa povoação e os filhos destes são os que se doutrinam no colégio de S. Vicente”.
Cidade de meleca
Todas as casas de São Paulo são de taipa, um material preparado de duas formas: uma delas consiste em misturar terra, óleo de baleia, sangue de animais e seivas vegetais até conseguir uma liga consistente. Aí, trançam-se galhos de madeira e joga-se a mistura dos dois lados. Assim são feitas as divisórias de casas. Para as paredes externas ficarem mais resistentes a gente faz a mesma mistura e a coloca em fôrmas de cerca de 1 metro de largura. Esses “tijolos” são postos entre toras de madeira enroladas em folha de bananeira a cada metro para sustentar a obra. Depois, as toras são retiradas e os buracos preenchidos com mais um pouquinho da mistura.
Aventuras  na  História Edição 005 Janeiro de 2004

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