quarta-feira, 9 de março de 2011

BEM LONGE DA “CASA COMUM EUROPÉIA”

Dez anos depois do colapso da União Soviética, a Rússia tenta conservar a esfera de influência da CEI e assiste, impotente, à ampliação da OTAN.
Osama Bin Laden deixou a Arábia Saudita, seu país natal, em 1979, com destino ao Afeganistão, que acabava de sofrer a ocupação militar da União Soviética.
Esse filho de um milionário saudita, ardente defensor do fundamentalismo islâmico, ingressou na coalizão de grupos que, com o suporte de 2 bilhões de dólares de ajuda americana, transformou as montanhas afegãs no palco da mais amarga derrota militar soviética. “Nós criamos a primeira jihad (“guerra santa”) internacional da história recente”, explicou Jessica Stern, assessora do governo Clinton para assuntos de terrorismo, referindo-se à guerrilha anti-soviética no Afeganistão.
No século XIX, o Afeganistão foi o palco do “Grande Jogo”  a disputa entre a Grã-Bretanha e a Rússia imperial pelo controle sobre a Ásia Central. Na década de 1980, o Afeganistão foi o túmulo da União Soviética. Há dez anos, no dia 8 de dezembro de 1991, Bóris Yeltsin, o presidente da Rússia, assinava, ao lado dos chefes de Estado da Ucrânia e da Belarus, o documento que extinguia a União Soviética e constituía a Comunidade de Estados Independentes (CEI). A CEI foi instituída formalmente numa conferência em Alma Ata, no Cazaquistão, a 21 de dezembro. Quatro dias depois, o presidente soviético Mikhail Gorbachev apresentava o seu discurso de renúncia.
O desastre afegão desempenhou o seu papel, mas as raízes do colapso da União Soviética encontram-se na incapacidade da sua economia de acompanhar o ciclo de inovações da revolução tecno-científica. Os sinais da estagnação já eram visíveis no fim da década de 1970.
A aceleração da corrida armamentista, conduzida pelos Estados Unidos desde o início do governo de Ronald Reagan, em 1980, empurrou a economia soviética da estagnação para a crise.
A ascensão de Gorbachev ao poder, em 1985, já representava um ato de desespero da cúpula da União Soviética: o programa de reformas econômicas e políticas  a perestroika e a glasnost  tentavam injetar vitalidade num sistema irremediavelmente corroído pelo veneno do totalitarismo. Sob uma perspectiva histórica, contudo, o fracasso de Gorbachev no empreendimento impossível de reerguer o “império vermelho” empalidece diante do seu sucesso em conduzir, sem derramamento de sangue, a transição da União Soviética para a Rússia.
O castelo fortificado
O colapso da União Soviética provocou a disrupção repentina do sistema econômico estatizado e centralmente planificado. O PIB conheceu anos seguidos de violento declínio. Entre 1992 e 1999, o salário médio foi reduzido praticamente à metade e, mesmo com a significativa recuperação econômica recente, ainda não atingiu 70% do valor de 1992. A expectativa de vida retrocedeu para apenas 60 anos. As taxas de fertilidade caíram abaixo das médias européias: em meados do século, a Rússia poderá contar com cerca de 110 milhões de habitantes – uma redução demográfica de quase 40 milhões!
A trajetória de “miniaturização” manifestou-se, sob formas próprias, no terreno da geopolítica. O colapso soviético foi precipitado pela tentativa de golpe contra Gorbachev, em agosto de 1991, conduzida pela cúpula do Partido Comunista e por dirigentes dos serviços de segurança. Os golpistas procuravam conservar o centralismo, impedindo a negociação do novo Tratado da União que Gorbachev costurava com as repúblicas integrantes da União Soviética. O golpe foi derrotado, mas o Tratado da União acabou vitimado pela extinção do Estado soviético. O “império vermelho” implodiu numa coleção de 15 “Estados independentes”.
A CEI, criada às pressas pela Rússia de Yeltsin, conseguiu a adesão das antigas repúblicas soviéticas, com a exceção dos três Estados bálticos. Contudo, jamais cumpriu a meta de agrupar os novos “Estados independentes” em uma verdadeira confederação. Efetivamente, sob as vestes quase intangíveis da pretendida confederação, a CEI representa apenas a esfera de segurança que rodeia a Rússia  o “Exterior Próximo”, na reveladora linguagem do Kremlin.
Nos dez anos que se seguiram à derrocada soviética, a política externa do Kremlin conferiu prioridade máxima a uma meta defensiva: conservar a influência da Rússia sobre o “Exterior Próximo”, evitando que as antigas repúblicas soviéticas alcançassem a condição de verdadeiros Estados soberanos.
A fronteira em movimento
No curto período de brilho e drama dos “anos Gorbachev”, o Kremlin tentou lançar uma ponte na direção da Europa. Enquanto desfazia-se da herança da Guerra Fria, abrindo caminho para a eliminação dos regimes comunistas no leste europeu e para a reunificação alemã, Gorbachev formulou a política da “Casa Comum Européia”.
O seu fulcro consistia em integrar uma União Soviética reformada ao espaço geopolítico e geoeconômico da Europa. O seu arcabouço seria constituído por uma estreita cooperação com a Alemanha.
O projeto desabou antes mesmo de ter fundações. Durante o longo desgoverno de Yeltsin, que durou até março de 2000, a Rússia tornou-se um ator secundário na política européia.
A influência russa sobreviveu, ainda que abalada, na antiga Iugoslávia, em função do lastro formado pela aliança com o regime sérvio de Slobodan Milosevic. A queda de Milosevic, em outubro de 2000, praticamente removeu a Rússia da política balcânica.
A marginalização da Rússia é o objetivo da estratégia de expansão da OTAN, conduzida pelos Estados Unidos. Em 1999, Polônia, Hungria e República Tcheca incorporaram-se à OTAN – e a fronteira estratégica da aliança ocidental moveu-se para o leste, até a fronteira da CEI.
A conferência da OTAN prevista para o primeiro semestre de 2002, em Praga, deve formular convites para o ingresso de outros Estados do antigo bloco soviético do leste europeu.
Eslováquia, Romênia, Bulgária e Eslovênia ocupam a primeira fileira entre os candidatos. Uma segunda fileira é constituída pelos Estados bálticos, que há dez anos faziam parte da União Soviética. A nova transferência da fronteira estratégica completaria o isolamento da Rússia.
Boletim Mundo Ano 9 n° 6

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