quarta-feira, 9 de março de 2011

EMPRESAS MONOPOLISTAS CONTROLAM AS “CIÊNCIAS DA VIDA”

Regina Caltech
Transnacionais químicas e farmacêuticas patenteiam seqüências genéticas e investem fortunas para dominar o novo campo da revolução tecno –científica.
A biotecnologia é o único setor da economia que cresce tão rápido quanto a informática. Bom exemplo disso é o comércio de sementes geneticamente modificadas: não tem nem sete anos, mas já movimenta mais de US$ 20 bilhões anuais.
Neste instante, em algum lugar do planeta, cientistas estão tentando desenvolver soja com gosto de carne, vacinas que evitem o câncer, plantas que transpirem resina plástica e laranjas com o dobro de vitaminas.
Todas as grandes transnacionais químicas e farmacêuticas  Monsanto, Du Pont, Novartis, Dow, Aventis (formada pela fusão da Hoechst e da Rhône-Poulenc)  resolveram investir pesado no que batizaram de Ciências da Vida.
É um novo nome para um negócio que já existe há muito tempo. A humanidade sempre utilizou organismos vivos para desenvolver novos produtos. Há pelo menos 4 mil anos já se usavam leveduras para produzir queijo e pão. O que mudou foi o grau de sofisticação incorporado à biotecnologia. Já não basta observar que um determinado fungo consegue fermentar o trigo, separá-lo e cultivá-lo. O desenvolvimento da engenharia genética impôs investimentos em laboratórios com equipamentos de última geração, mantidos em ambientes esterilizados e manejados por cientistas altamente especializados. A parafernália permite, por exemplo, usar enzimas para cortar pedaços de cromossomos milhares de vezes menores que a cabeça de um alfinete.
Depois, ela ajuda a transplantar o DNA selecionado para o núcleo de uma célula da espécie que se quer modificar.
Quando, finalmente, essa micro-cirurgia obtém sucesso, a empresa tem que investir em muitos testes de qualidade. Tem que verificar se o produto não provoca impactos negativos sobre a saúde e o meio ambiente.
Tem, ainda, que submetê-lo a uma série de organismos governamentais, para conquistar o direito de comercializá-lo. Mesmo depois de todos os investimentos, resta vencer a resistência de parte da opinião pública, sobretudo na Europa. Ambientalistas e grupos de defesa dos direitos do consumidor olham os transgênicos
com desconfiança, dado o pouco conhecimento acumulado sobre seus impactos e porque a maior parte dos estudos a respeito foi tocada pelas maiores interessadas  as próprias transnacionais.
Tantas dificuldades explicam as fortunas investidas pelas transnacionais. A Du Pont, um dos grupos que saiu na frente nessa briga, aplica US$ 1 bilhão por ano em pesquisas em biotecnologia. A Monsanto chega a gastar US$ 300 milhões e dez anos para desenvolver um produto biotecnológico, seja ele medicamento ou alimento. No momento, uma de suas apostas mais promissoras é um algodão que já nasce azul ou cáqui e que, por isso, dispensa tingimentos.
A disputa por esse mercado também está promovendo uma onda sem precedentes de fusões e aquisições.
Várias indústrias químicas compraram empresas especializadas no melhoramento e na produção de sementes. É o caso, mais uma vez, da Du Pont, que incorporou a Pioneer Hi-Bred, e da Monsanto, que comprou a área de sementes da Cargill e, no Brasil, adquiriu a Agroceres, maior produtora de sementes de milho do país.
Essa concentração da pesquisa em biotecnologia nas mãos de uma dúzia de transnacionais de países ricos tende a se agravar. Um dos motivos é de ordem jurídica. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa autorizaram o patenteamento de genes. Com isso, a empresa ou os cientistas que mapearem parte da carga genética de uma planta ou animal poderão receber royalties uma espécie de “direito autoral”  cada vez que um produto for desenvolvido por terceiros utilizando essa seqüência genética. A conseqüência: remédios, sementes e alimentos derivados da engenharia genética ficarão cada vez mais caros. E a fatura fica para o consumidor. Beneficia-se quem, no começo do jogo, teve cacife para bancar laboratórios sofisticados e registrar moléculas antes dos outros.
Embora esteja bem atrás nessa corrida, o Brasil tem lá seus trunfos. O país foi o primeiro a concluir o seqüenciamento de um microrganismo que causa doenças em plantas. No caso, a bactéria Xylella fastidiosa, que causa a praga do amarelinho, devastadora de laranjais. O conhecimento da seqüência exata dos seus 2,7 mil genes permitirá que os pesquisadores descubram uma forma de exterminá-la, evitando prejuízos anuais na casa dos US$ 200 milhões.
Cientistas brasileiros também participaram da ofensiva internacional para mapear o genoma humano e, agora, se empenham em estudar a genética de uma bactéria identificada no rio Negro, na Amazônia. Para promover pesquisas acadêmicas no gênero, foi criado um dispositivo oficial de incentivo. Trata-se do Programa Nacional de Biotecnologia, ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, que prevê investimentos da ordem de US$ 114 milhões até 2003.
A investigação científica não se limita, porém, às universidades e laboratórios governamentais. A região de Belo Horizonte abriga o maior pólo empresarial de biotecnologia da América Latina. São 58 empresas de pequeno e médio porte, com um faturamento total na faixa de RS$ 417 milhões. As receitas do pólo cresceram 48% em apenas um ano.
Comparando com o tamanho do mercado, o desempenho das empresas estritamente nacionais ainda é extremamente modesto. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) calcula que os negócios da biotecnologia, incluindo kits para diagnósticos de doenças, medicamentos, sementes e produtos veterinários, movimentam US$ 14,6 bilhões por ano no país. A maior parte deles, vale lembrar, na mão de empresas  transnacionais.
Como o crescimento acelerado, a centralização econômica é outra característica que aproxima a indústria da tecnologia do mundo da informática.
Para usar uma analogia feita por David Hathaway, ambientalista que há anos acompanha, apreensivo, a expansão dos transgênicos: as transnacionais estão para as Ciências da Vida como a Microsoft está para o mundo dos softwares. A gigante criada por Bill Gates conseguiu criar um quase monopólio, impondo o padrão Windows à maioria dos usuários de computadores do planeta. Quem mandar na biotecnologia, terá poder de fogo semelhante.
Boletim Mundo Ano 9 n° 6

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