Adriana Marcolini
Cheguei a Sarajevo numa tarde nublada de outubro de 2000. Após pagar 100 marcos alemães pelo visto, pude ingressar na Bósnia-Herzegovina. Lá fora, o motorista do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) me aguardava no carro. Era para esta agência que eu trabalharia durante seis meses, no âmbito do programa de voluntários da ONU. Como jornalista, seria assessora de imprensa do Acnur na Bósnia e trabalharia no escritório central, em Sarajevo.
Eu já havia estado em Sarajevo, em julho de 1997, para checar in loco como a cidade e seus habitantes estavam se recuperando do cerco que os havia isolado do mundo por quase quatro anos, durante a Guerra da Bósnia. Naquela primeira vez, no entanto, permaneci apenas cinco dias. Desta vez, eu tinha seis meses.
Nesse período, constatei como é frágil o equilíbrio político e social deste pequeno país de apenas 51 mil km2 (do tamanho de uma grande fazenda em Mato Grosso!). Muitos bósnios só se sentem seguros devido à presença dos 20 mil soldados das Forças de Paz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e afirmam que deixarão o país se um dia eles forem embora.
Mas a fragilidade da Bósnia fica mais evidente nos termos do Tratado de Dayton, que dividiu o país em duas entidades étnicas a Federação Muçulmano-Croata, que controla 51% do território, e a República Sérvia de Srpska, que controla 49%.
Cada uma delas tem seu próprio parlamento e, até há pouco, mesmo os passaportes dos cidadãos bósnios eram diferenciados. Nas escolas, pelo menos por enquanto, não se ensina a história da Bósnia. As duas entidades rivais ensinam apenas a “sua” própria história. Permanece, pelo menos, o ensino dos dois alfabetos o latino, empregado na Federação Muçulmano-Croata, e o cirílico, usado na República Sérvia. Outra novidade do currículo escolar é o ensino religioso, que não existia na antiga Iugoslávia. Na Federação Muçulmano-Croata, a maior parte das escolas oferece apenas aulas de catolicismo e islamismo. Na República Sérvia, quase só há aulas de cristianismo ortodoxo. As crianças sérvias que residem na Federação não podem seguir aulas da sua religião. O mesmo ocorre com as crianças muçulmanas e croatas que vivem na República Sérvia.
As marcas dos estilhaços de granada ainda fazem parte da paisagem de Sarajevo. Nos arredores da capital e em outras regiões da Bósnia, as casas, arruinadas, continuam a lembrar a ferocidade do conflito. As minas terrestres, cerca de um milhão quando terminou a guerra, ainda não foram totalmente retiradas. A remoção é lenta, cara e perigosa, e certamente serão necessários pelo menos mais dez anos para eliminar todas. Enquanto isso, quase todos os dias deixa uma nova vítima.
Os bósnios que estavam no exterior e que, agora, estão voltando, formam a maior parte das vítimas. Ausentes durante anos, eles não têm conhecimento das áreas mais infestadas com esta arma traiçoeira, que se esconde sob o solo, tal como uma minhoca. As visitas aos vilarejos onde moravam, na zona rural, são especialmente perigosas. Muitos perdem o pé, a perna, ou a vida.
Entre os jovens, a falta de perspectivas é outra herança da guerra. O índice de desemprego chega a 40% na Federação e a 50% na República Sérvia. Sem ter o que fazer, os jovens passam os dias fumando (como se fuma na Bósnia!), tomando café e tagarelando. É comum ver jovens, entre os 20 e os 25 anos, sentados durante horas ao redor de uma mesa de bar, em pleno dia. Nada de trabalho, nada de estudo. Muitos estão partindo para a droga. Outros, estão partindo da própria Bósnia. Apesar do desejo difundido de emigrar, poucos conseguem. Em geral, apenas os que têm parentes no exterior.
Mas, como o mundo é mesmo uma roda que não pára de girar, ao lado dos que querem ir, há os que desejam voltar. Estes são sobretudo os que deixaram a Bósnia durante a guerra, na condição de refugiados.
Uma grande parte foi para a Alemanha. Outros, para a Suíça, Suécia, Noruega, Holanda, Estados Unidos e Canadá. Voltam, sobretudo, as pessoas com mais de 50 anos, que emigraram para países europeus.
A decisão não é fácil. Muitos “retornados” tiveram a própria casa parcial ou totalmente destruída. Às vezes, a encontram ilegalmente ocupada por outra família.
As leis estão do lado do proprietário original, mas o processo de desocupação é lento e doloroso. Até que seja cumprido, não resta outra opção a não ser a casa de um parente ou amigo, quando existem. Caso contrário, a única alternativa é ir para um “centro coletivo”, um local financiado pelo Acnur para abrigar as pessoas que não têm onde morar.
Para além de todos esses problemas, o ódio étnico que o conflito introduziu na cabeça das pessoas é, talvez, a pior herança da guerra e a mais difícil de ser superada. Um ódio que não existia antes, mas que brotou e cresceu com a fúria das granadas. As atrocidades foram cometidas de todos os lados. É impossível esquecer tudo e reconstruir um país a partir do zero. Superar é a palavra certa.
Crônica de uma tragédia
Se a antiga Iugoslávia, integrada por seis repúblicas, sempre foi um “mosaico de povos”, a diversidade étnica do país era mais evidente na Bósnia, a “Iugoslávia em miniatura”. Na Bósnia de 1991, os muçulmanos eram cerca de 44% da população, os sérvios, 36% e os croatas, 20%. A heterogeneidade étnica e cultural forneceu o “caldo de cultura” em que fermentou o conflito que desembocaria na fragmentação da Iugoslávia e da própria Bósnia.
As tensões latentes que marcavam as relações entre as seis repúblicas e, no interior de cada república, entre as várias etnias – começaram a aparecer com força em 1980, após a morte de Josip Broz Tito, o homem que comandava o país com mão de ferro desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1989, a queda do Muro de Berlim daria o grande impulso à desintegração.
O momento decisivo aconteceu em março de 1992, quando muçulmanos e croatas da Bósnia, seguindo os passos da Croácia e da Eslovênia, decidiram, em plebiscito, que sua república deveria tornar-se independente da Iugoslávia, cujo poder central era dominado pela Sérvia. Esse processo separatista se chocava frontalmente com o projeto de construção de uma Grande Sérvia.
Os sérvios da Bósnia, que haviam se recusado a participar do plebiscito, passavam a cumprir suas ameaças de ir a guerra. Nos três anos seguintes, a região tornou-se cenário de extrema violência e barbárie. Utilizando o expediente da “limpeza étnica”, os sérvios abocanharam 70% do território da Bósnia. Muçulmanos e croatas bósnios acabaram por configurar uma espécie de federação que ficou com o restante do território.
As tropas da ONU (os “capacetes azuis”), enviadas pelo Conselho de Segurança, criaram “zonas seguras” em torno das cidades bósnias de Sarajevo, Srebrenica, Zepa, Gorazde, Tuzla e Bihac. Contudo, os “capacetes azuis” não dispunham de meios militares para garantir a segurança dessas zonas. Sob o olhar impassível das grandes potências, forças sérvias ocuparam Srebrenica em 1994 e chacinaram a sangue-frio os jovens e adultos do sexo masculino.
Após uma campanha de bombardeios promovida pela OTAN contra as forças sérvias, os Estados Unidos, secundados pela União Européia, praticamente impuseram os Acordos de Dayton. Em novembro de 1995, terminava a guerra que deixou 200 mil mortos, mais de 700 mil feridos e cerca de 2,5 milhões de refugiados.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5
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