Veja e Istoé, as duas mais tradicionais revistas brasileiras, selecionam informações e adjetivos para construir versões da política nacional.
O espelho do mundo visto pelos olhos em que você confia.
Esta assinatura, utilizada por um jornal brasileiro de porte durante anos, é o exemplo do desejo oculto (ou expresso) de quem dirige qualquer publicação. Trata-se de construir uma versão sobre a realidade cujo eixo pode até ser a idéia de que não se está construindo nada, mas apenas “narrando os fatos” que seja a expressão da vontade de uma fatia dos leitores. E que, em conseqüência, ajude a moldar a opinião desses e, se possível, de muitos outros leitores.
A atual crise na base parlamentar de apoio do governo Fernando Henrique Cardoso oferece em especial àqueles que acreditam na “imparcialidade” e no “senso comum” como faróis norteadores da imprensa um excelente exemplo de como se constrói um, ou melhor, dois “espelhos do mundo vistos pelos olhos em que você confia”.
Tomemos duas publicações nacionais de destaque, as revistas Veja e Istoé, para uma comparação simples sobre a cobertura da seqüência de episódios envolvendo os escândalos da violação do painel de votação no Senado, Sudam, Sudene, CPI da Corrupção e Banpará, além da eleição para a Presidência do Congresso, ao longo de 19 edições publicadas neste ano, até 16 de maio.
Enquanto Istoé enfocou esse bloco de assuntos em 16 das 19 edições analisadas, Veja abriu suas páginas em 13 edições (a pesquisa restringiu-se às reportagens e entrevistas, não levando em conta as seções de opinião, notas ou cartas).
Assuntos envolvendo o senador pefelista baiano Antônio Carlos Magalhães apareceram em dez matérias publicadas no período por Veja, que dedicou ainda 15 matérias ao bloco Jader Barbalho/escândalos na Sudam e Sudene (o auge do inferno-astral de Barbalho, com a revelação do desvio de fundos do Banco do Estado do Pará/Banpará rumo a suas próprias contas bancárias, viria nos meses seguintes). Houve também cruzamento de assuntos em algumas das matérias.
O perfil quantitativo da cobertura de Istoé foi muito diferente. A revista tratou do complexo ACM/ PFL em 15 matérias. Jader Barbalho, Sudam, PMDB, apareceram em apenas uma matéria.
Vamos, agora, a uma breve análise qualitativa.
Antes, porém, um esclarecimento: Istoé saiu na frente ao publicar (e sustentar corretamente sua veracidade) as fitas em que ACM reconheceu a fraude no painel de votações do Senado. Veja, de sua parte, foi pioneira em denunciar as dimensões das fraudes na Sudam e Sudene (esta, pivô da demissão do ministro peemedebista Fernando Bezerra).
Alguém poderia dizer que as informações inéditas jornalísticas na linguagem da imprensa, os “furos” obtidos pelas respectivas redações, teriam orientado as coberturas. Mas não: imperou a coerência política das duas revistas. Enquanto Istoé tem ligações históricas com o PMDB, incluindo Jader Barbalho e o senador amazonense Gilberto Miranda, Veja guarda, há anos, grande proximidade com ACM.
Tudo indica, inclusive, que as duas equipes políticas foram as responsáveis pelo “vazamento” dos dossiês sobre os respectivos desafetos. A pesada mão de ACM ficou ainda mais evidente nos meses seguintes, já que Veja foi a principal porta-voz das denúncias contra Jader Barbalho.
Um estudo, ainda que ralo, da cobertura de Veja, indica um posicionamento claro anti-Jader e pró-ACM (ou, no mínimo, tolerante quando se comprovou a violação do painel do Senado). Neste último caso, podemos destacar como chamadas, em ordem cronológica: “ACM em Miami: ele não vai ficar calado” (7 de março); “Fitas de ACM: a versão é diferente do fato” (14 de março);. “A violação do painel de votação” (25 de abril); “ACM fez o melhor, mas os fatos ainda o embaraçam” (2 de maio); “ACM – Acareação” (9 de maio).
Observe-se que a primeira chamada, anterior à comprovação da violação, adota o tom de porta-voz oficial do chefe político baiano. E que a última, bem depois da comprovação, ainda conserva um acento de “neutralidade”.
Sobre Jader Barbalho e seu PMDB, Veja sapecou: “Jader Barbalho usa a retórica mas não convence”; “Sudam, a queda da quadrilha e as primeiras prisões”; “Um documento liga Jader a um fraudador da Sudam”; “A corda bamba de Jader Barbalho”; “Como Jader saqueou o banco do Estado”. Na última edição analisada, de 16 de maio, Veja perguntava: “Por que tudo some no Pará?”.
E no córner oposto? Entre as chamadas de Istoé sobre o “caso ACM” no período, chamam a atenção: “De volta para casa”; “Perto da cassação, ACM planeja renúncia”; “Só falta cassar”; “Embaixo do tapete: Congresso e governo trabalham para abafar investigação das fitas de ACM”; “ACM; abraço de afogado”; “Pego na mentira”; “Desmanche baiano: apadrinhados de ACM e Ornellas no Ministério da Previdência começam a ser demitidos”; “Fisgado pela voz”; “Abaixo da cintura: ‘Se pegar o Eduardo Jorge, chega ao presidente’”. Istoé revela-se ainda mais disposta a assumir posições, por meio do quase “esquecimento” do tema Jader/Banpará em seu noticiário.
Entre as duas grandes revistas, Istoé foi a única a utilizar seções ou assuntos laterais para atingir seus adversários.
Destaque para duas reportagens: “Indicadores sociais mostram que governo carlista em Salvador dá as costas à pobreza e ao desemprego” e “Jornalista suspende entrevista com autor de livro sobre ACM na TVE”. É apenas um lado a mais no polimento nem sempre fino – do “espelho do mundo visto pelos olhos em que você confia”.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5
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