Os líderes japoneses orgulham-se do crescimento econômico arduamente conquistado pelo país e mantêm-se precavidos diante do capitalismo anglo-saxônico. Mas muitos extraíram as lições erradas do seu sucesso (...). Embora o Japão seja uma nação que reverencia as tradições, é também um país que demonstrou extraordinária capacidade para transformar a si mesmo, quando a prosperidade comum está em jogo. O Japão atual foi inventado por um ato coletivo de vontade, na seqüência da devastação causada pela Segunda Guerra Mundial. (...) Chegou o momento do Japão reinventar-se mais uma vez, com base numa compreensão mais profunda da força e dos limites do seu modelo (...).
(Michael E. Porter e Hirotaka Takeuchi, “Fixing what really ails Japan”, Foreign Affairs, vol. 78, nº 3, may/june 1999).
Pokemon, Pikachu, Koizumi.
Durante a campanha eleitoral de julho, o primeiro-ministro Junichiro Koizumi foi apresentado à nação como um herói pokemon, transformando-se em celebridade nacional.
Sua aparência rebelde os cabelos revoltos e o olhar de samurai o distinguem sobre o pano de fundo cinzento dos líderes políticos tradicionais do Japão.
“Não podemos voltar atrás. Temos que seguir adiante com as reformas.” Com essa mensagem, Koizumi conduziu o velho e enferrujado Partido Liberal Democrático (PLD) a uma vitória tão estupenda quanto, poucos meses atrás, improvável. O PLD conquistou 110 cadeiras e, junto com os partidos menores da coalizão governamental, alcançou folgada maioria absoluta no Senado de 247 lugares. Para a Câmara, o PLD atingiu 35% da votação total e a coalizão também assegurou-se da maioria absoluta.
O partido que parecia moribundo experimentou o melhor resultado desde 1992, recompondo uma hegemonia que durou meio século.
A economia japonesa conheceu o seu auge na década de 1980, quando tornou-se um modelo de sucesso reverenciado no mundo inteiro. Mas o sucesso trazia, no seu interior, as sementes da desgraça. A riqueza gerada pelos assombrosos saldos comerciais foi drenada para os condutos da especulação com ações e imóveis. A Bolsa de Tóquio e os terrenos e imóveis urbanos conheceram um movimento de alta de preços que durou uma década inteira, alimentando-se do círculo vicioso típico das grandes bolhas especulativas. A bolha inflou-se até o extremo, produzindo vasta riqueza ilusória, até estourar. Em 1990, o índice Nikkei, que mede o valor das ações, desabou de quase 40 mil pontos, em janeiro, para menos de 20 mil, em dezembro. Hoje, vegeta em torno dos 12 mil.
O estouro da bolha especulativa descosturou o sistema financeiro japonês. As ações e imóveis, sobrevalorizados, funcionavam como garantias para os empréstimos bancários à indústrias e consumidores. A súbita deflação de preços das garantias deixou os bancos credores a descoberto, revelando o hiato entre a riqueza financeira ilusória e a economia real. Sob o impacto da hecatombe, a economia real entrou em hibernação, estagnando por quase toda a década de 1990.
O modelo japonês baseava-se em gordos financiamentos bancários para as empresas industriais. O baixo custo do capital estimulou o crescimento da produção, mas eliminou os incentivos para a seleção dos investimentos. As empresas acumularam capacidades excessivas de produção, imobilizando capitais e realizando negócios extravagantes. Empresas japonesas compraram, a preços estratosféricos, estúdios cinematográficos falidos nos Estados Unidos.
A aquisição do complexo imobiliário do Rockefeller Center, um símbolo americano no coração de Manhattan, representou o marco da “era de ouro”.
Quando a bolha estourou, as engrenagens do sistema pararam de funcionar. As instituições financeiras, em estado de falência técnica, passaram a depender da rolagem permanente de dívidas e de vastas operações de salvamento empreendidas pelo Estado, com recursos do orçamento nacional. A destruição da riqueza ilusória infiltrou-se na percepção dos consumidores como sensação de pobreza. A redução do consumo resultante somou-se ao corte de investimentos empresariais, congelando a economia. Os preços de bens e serviços entraram em deflação, refletindo a queda da demanda. A espiral deflacionária começou a realimentar-se automaticamente, pois cada redução de preços sinalizava novas reduções futuras e, assim, provocava o adiamento de decisões de consumo e investimento.
A crise política e eleitoral do PLD refletiu a estagnação econômica do país, mas foi aprofundada pela revelação de escândalos de corrupção nos altos círculos governamentais.
Em 1993, pela primeira vez no pós-guerra, formou-se uma coalizão de governo sem o PLD. Nos anos seguintes, o PLD participou de frágeis coalizões circunstanciais, governos efêmeros minados pelo descrédito e por sucessivos escândalos financeiros. A lenta agonia institucional anunciava a desconstrução do Japão inventado no pós-guerra.
O Japão na terceira idade
A fonte do sucesso e da graça dos pokemon está na sua capacidade de se transformar, adquirindo novas habilidades. A promessa de Koizumi consiste em usar as suas habilidades para transformar o Japão. Mas, nesse caminho, sabe que precisa antes transformar o próprio PLD ou destruí-lo de vez.
O PLD atingiu o seu zênite no início da década de 1970, sob a direção do primeiro-ministro Kakuei Tanaka. O partido, hegemônico, funcionava como um comitê de representantes dos interesses das grandes empresas e bancos. As suas campanhas eram financiadas pelos poderosos grupos econômicos. A “política do dinheiro” soldava a elite governamental aos grupos empresariais.
Tanaka renunciou em meio a um escândalo, em 1974, mas a sua fração continuou a controlar o PLD, apontando os primeiros-ministros e os integrantes principais dos gabinetes de governo. O governo de Yasuhiro Nakasone, eleito primeiro-ministro em 1982, chegou a receber a alcunha de “gabinete Tanakasone”. Yoshiro Mori, o antecessor de Koizumi, sequer era consultado nas questões mais importantes, que eram decididas fora do governo pela facção de Ryutaro Hashimoto, o herdeiro político de Tanaka.
Koizumi uniu as correntes excluídas da direção do PLD, isolou a facção de Hashimoto e capturou o imaginário dos eleitores com uma plataforma de ousadas reformas econômicas e políticas. O seu programa aponta para a reinvenção do Japão.
Na esfera da economia, Koizumi promete destruir a redoma protetora que o Estado ergueu em torno das empresas industriais e das instituições financeiras. No “novo Japão”, as empresas, submetidas ao impacto integral da concorrência externa, teriam que reorientar as suas estratégias de investimento e alcançar padrões mais elevados de produtividade e eficiência. Sem o colchão de segurança tradicional, estaria aberta a via para a falência dos grupos incapazes de enfrentar a competição. O “emprego para toda a vida”, um sonho japonês que se tornou realidade, estaria condenado ao museu das relíquias históricas. Durante a campanha eleitoral, o herói pokemon vaticinou, com inegável coragem, a aproximação de um período de recessão e desemprego.
Na esfera da política, Koizumi promete “normalizar” o Japão, suprimindo as restrições à plena soberania nacional. O alvo são os artigos constitucionais, introduzidos pelo general MacArthur durante os anos da ocupação americana do pós-guerra, que proíbem a existência de forças armadas e limitam os gastos militares ao teto de 1% do PIB. O Japão se tornaria, de novo, uma potência militar, ganharia o direito de participar de ações ofensivas e passaria a integrar as forças de paz da ONU, mobilizadas em diversos países.
Num gesto polêmico, o herói pokemon desafiou os protestos sul-coreanos e chineses e visitou o templo de Yasukuni, onde estão enterrados os “mártires de guerra” japoneses e também, desde 1978, os restos mortais do general Hideki Tojo e vários outros condenados por crimes contra a humanidade, cometidos na Segunda Guerra Mundial. A visita aconteceu a 13 de agosto, dois dias antes do aniversário da rendição japonesa de 1945, de modo calculado para reduzir a afronta aos vizinhos asiáticos; o discurso oficial lamentou os horrores cometidos nos países ocupados, durante a Segunda Guerra Mundial.
O Japão moderno nasceu em 1868 como Estado imperial, militarista e expansionista. A catástrofe de Hiroshima pariu o Estado burocrático do PLD, que atingiu o sucesso econômico à sombra do poder nuclear dos Estados Unidos. O herói pokemon definiu a sua missão: conduzir o Japão rumo à terceira idade. Tudo indica que o seu confronto com o passado assumirá a forma de um combate decisivo, no interior do PLD.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5
Nenhum comentário:
Postar um comentário