terça-feira, 8 de março de 2011

BUSH: DE OLHO NA AMÉRICA LATINA

Newton Carlos
A “nova direita” republicana, herdeira de Reagan, quer abrir mercados no continente e reforçar o combate às guerrilhas colombianas.
O presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, passou seus primeiros dias de Casa Branca fazendo chamadas telefônicas ao redor do mundo. A primeira foi para Vicente Fox, o novo presidente do México. Ficou acertado que Bush iria ao rancho de Fox no pontapé inicial das viagens ao exterior como chefe de Estado americano, rompendo tradição que colocava o Canadá como cabeça da agenda de estréia. Para manter a sombra da tradição, o primeiro-ministro canadense tratou de antecipar-se aos demais numa visita a Washington, seguido dos ministros do Exterior e Defesa.
Segundo Fox, ele e Bush são rancheiros e usam botas e isso explicaria a guinada para o México. Como governador do Texas, em questões externas Bush só tinha o México como um “foco real”.
A fronteira comum faz com que as políticas locais de um e outro lado se confundam.
Mas parece que o olhar do governo Bush na direção do sul vai muito além do México. O objetivo seria colocar na linha de frente, entre as prioridades da diplomacia americana, o continente americano. Agilizar o projeto de seu pai, o ex-presidente Bush (1989-92), de integrar o continente, “do Alasca à Terra do Fogo”. Bill Clinton (1993-2000) encampou-o, realizou a Conferência de Cúpula de Miami, em 1995, que aprovou a criação, em dez anos, da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
De lá para cá, a idéia pouco avançou.
Dificuldades com o Congresso dos Estados Unidos. Resistências ao sul comandadas pelo Brasil, que quer antes a integração sul-americana, como contrapeso ao poderio do irmão maior. Bush, o filho, pretende quebrar impasses, promete um coquetel de acordos bilaterais como entrada e já tem o Chile fazendo o papel de Cavalo de Tróia no Cone Sul.
Como encaixar tudo isso na história das relações entre os Estados Unidos e a América Latina?
O presidente republicano Dwight Eisenhower, nos anos 1950, colocara a América Latina na Guerra Fria, definindo, na Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA), um novo “inimigo extracontinental”  o comunismo soviético  e autorizando o primeiro golpe da CIA no continente, na Guatemala, em 1954.
Também planejou a invasão de Cuba.
Encerrado o ciclo de mediocridade de Eisenhower, instalaram-se em Washington “os melhores e mais brilhantes” do democrata John Kennedy. O rotundo fracasso da invasão de Cuba, herdada da administração anterior, levou Kennedy a criar o que supunha ser um eficiente instrumento político de contenção do comunismo: a Aliança para o Progresso.
Os Estados Unidos se tornariam parceiros de reformas sociais e econômicas, que afinal se revelaram inaceitáveis para as elites latino-americanas. Assassinado Kennedy, o sucessor democrata, Lyndon Johnson, quase afogado no lamaçal do Vietnã, retomou a intervenção militar pura e simples como maneira de barrar o “inimigo extracontinental”.
Mandou tropas à República Dominicana.
Seu candidato, já que o Vietnã removeu as condições políticas para que disputasse a reeleição, foi derrotado pelo republicano Richard Nixon.
Por essa época, nos Estados Unidos, entrava em cena uma “nova direita”, formada no interior do Partido Republicano, mas distinta da elite conservadora tradicional. Em 1966, Ronald Reagan tomou o governo da Califórnia das mãos de um liberal. Assim, o berço da contracultura tornava-se também a pista de decolagem da “nova direita”.
Dois anos depois, Nixon se elegia presidente.
Ao mesmo tempo, o Texas produzia George Bush, o pai.
Tempos de ditadura
Nixon não fazia parte da velha elite republicana, nem da “nova direita”, que criticou sem parar a sua política de distensão com a União Soviética, mas sustentou as estratégias de ambas para a América Latina. Foi a época de ouro da CIA.
Golpes militares no Chile, Argentina, Uruguai.
Nixon caiu, vítima do escândalo de Watergate, mas o democrata Jimmy Carter só conseguiu ficar um mandato.
Depois, entre 1981 e 1988, veio Reagan. Na Casa Branca por dois mandatos, o ator medíocre transformado em presidente entronizou a “nova direita”.
Honduras, El Salvador e Costa Rica foram transformados em cabeças-de-ponte militares contra a Nicarágua, então sob o regime de esquerda da Frente Sandinista.
Invasão da ilhota caribenha de Granada, para remover um exótico governo apoiado por Cuba. Bush, o pai, era o vice de Reagan e herdeiro da “nova direita”.
Com Bush, a Guerra Fria se esgotaria e, no crepúsculo de seu único mandato, foi feita a primeira operação militar de envergadura contra um “outro inimigo”, o narcotráfico. Tropas americanas desembarcaram no Panamá e prenderam  o manda-chuva nativo, general Manuel Noriega, ex-agente da CIA, acusado de negócios com drogas. A necessidade de os Estados Unidos “mudarem completamente de guarda-roupas”, em relação à América Latina, percebida elo Bush pai, foi assumida pelo seu sucessor, Bill Clinton.
A segurança nacional dos Estados Unidos passou a ser encarada em termos econômicos. “A guerra comercial substitui a Guerra Fria”, escreveu a analista política francesa Jeanette Habel. A revista Foreign Policy falou de uma “opção latino-americana”. A América Latina, lembrou, é a única região do mundo onde os Estados Unidos têm saldos comerciais positivos. A região compra mais produtos americanos do que o Japão.
Mas Clinton, embora ciente, negligenciou o continente. Privilegiou o que a “nova direita” chama, depreciativamente, de “nation-building”, operações tidas como humanitárias, nos Bálcãs e Haiti, por exemplo.
O fato, no entanto, é que a “nova direita” está de volta. Com Bush filho, instala-se em Washington um governo unilateralista, voltado cruamente para os interesses dos Estados Unidos, que retoma, nos termos da pós- Guerra Fria, a cruzada conservadora iniciada por Reagan em 1966. “A velha turma de Bush, a continuação de Reagan, volta a Washington”, escreveu o jornal The Washington Post a respeito de um primeiro escalão de veteranos que haviam se refugiado nas corporações privadas. São quatro ex-altos executivos nesse escalão. Um governo de milionários, a começar pelo presidente, com a obsessão de abrir mercados do jeito que for necessário. A “opção latino-americana” ganha espaço.
Mas as tentações intervencionistas continuam vigentes. O velho Bush recorreu seis vezes às operações militares internacionais: no Golfo Pérsico, duas vezes na Somália, Panamá, Libéria e Filipinas, onde aviões de guerra americanos ajudaram a espantar golpistas. Agora, a Latin American Newsletter,  editada em Londres, fala de “considerável” participação dos Estados Unidos no esforço de “contenção” da guerra civil colombiana.
O Comando Sul dos Estados Unidos executa operações especiais na região amazônica, ao longo da fronteira do Equador e do Peru com a Colômbia.
“A crise interna da Colômbia ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos”, disse Clinton em carta ao presidente colombiano Andrés Pastrana.
Clinton fez parceria com Pastrana no Plano Colômbia. Esse plano pretende combinar medidas sociais de combate à coca e esvaziamento da guerra civil com medidas militares, batendo forte na “narcoguerrilha”, expressão do jargão do Pentágono que associa, de modo simplista, as guerrilhas de esquerda aos narcotraficantes.
Fantasma de outro Vietnã, na opinião de muitos analistas, inclusive americanos. Bush já manifestou seu entusiasmo pelo Plano Colômbia e comenta-se que não vai com a cara de Hugo Chávez, o presidente da Venezuela.
Boletim Mundo Ano 9 n° 1

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