Vitória eleitoral de Sharon reforça a idéia de separação definitiva entre Israel e os palestinos, sem um acordo de paz. Isso é possível?
Nos bares antigos das maiores cidades brasileiras, é comum ver azulejos com a imagem de um aperto de mãos, sob a frase “tudo nos une, nada nos separa”, simbolizando a amizade entre brasileiros e portugueses/espanhóis, uma referência à origem do proprietário.
Na mão oposta, a vitória histórica do ultraconservador Ariel Sharon nas eleições israelenses de fevereiro, com 62% dos votos, poderia ser simbolizada em uma só idéia-chave, a ser pendurada em placas dos bares de israelenses e palestinos: “tudo nos separa, nada nos une”.
Sharon e seu partido, o Likud, não acreditam em um acordo de paz definitivo com os palestinos, nem a curto nem a médio prazo. Contentam-se em reduzir as dimensões da intifada, a rebelião palestina por meio da repressão ou de um acordo parcial que não envolva novas concessões territoriais.
Assim, Sharon ganharia tempo para separar de vez israelenses e palestinos, em termos sociais e econômicos. Se necessário, por meio da construção de um grande muro, dividindo as áreas judaicas e árabes.
Esse plano congelaria a existência de duas grandes crateras, a separarem as duas comunidades.
A primeira é uma cratera externa. Sem um acordo sobre as fronteiras definitivas, o líder palestino Yasser Arafat decretaria o nascimento de um Estado independente nas áreas que já domina. Isso quer dizer um amontoado de “ilhas” de população palestina na Cisjordânia, separadas da Faixa de Gaza por colônias e cidades judaicas .
Isso, em uma situação econômica inviável. De acordo com o censo palestino de 1995 (bem antes, portanto, do início da nova intifada, que piorou tudo), a renda per capita na Cisjordânia e Gaza era inferior a US$ 1.600 ao ano, o que equivalia a 10% da renda per capita em Israel. A metade dos palestinos vive em moradias com mais de oito pessoas e 91% das casas da Cisjordânia e de Gaza são classificadas como superlotadas. A taxa de desemprego, que era de 9,5% na Cisjordânia e de 16,9% em Gaza, em 1999, certamente cresceu muito, já que os conflitos recentes causaram perdas de US$ 1 bilhão à economia palestina, até fevereiro.
Um dos sonhos de Sharon também é arrancar da economia israelense os cerca de 120 mil palestinos dos territórios ocupados, que trabalham em funções mal-remuneradas. Para tanto, ele pensa incentivar a imigração de trabalhadores romenos, filipinos e tailandeses.
Imagine-se o impacto dessa separação “definitiva” sobre a sociedade palestina: 25,9% da força de trabalho da Cisjordânia e 15,7% dos trabalhadores de Gaza obtêm sua sobrevivência labutando em Israel. Isso, quando se fala em economia formal. Toda uma rede de negócios informais que vão dos camelôs de Jerusalém Oriental a vendedores de peças de carros roubados vale-se de relações clandestinas entre israelenses e palestinos.
A tentativa de separação entre israelenses e palestinos, sem um verdadeiro acordo de paz, também congela uma fratura existente dentro de Israel. O país, de seis milhões de habitantes, conta com uma importante minoria árabe (20% da população). Mesmo tendo a cidadania israelense, essa população árabe, remanescente do êxodo palestino que se seguiu à guerra de 1948-49, não goza dos mesmos direitos da maioria judaica. E as estatísticas são reveladoras. O desemprego, por exemplo, que vitimava 8,5% dos judeus israelenses em 1999, atingia 11,4% dos cidadãos árabes.
Acontece que essa “fratura interna” aumenta dia a dia. Cada casal judeu tem, em média, 2,2 filhos, enquanto um casal árabe em Israel gera 3,4 filhos (nos territórios ocupados, a média é de 6,06 filhos). Projeções feitas pelo Escritório Central de Estatísticas de Israel indicam que a porcentagem total dos judeus sobre o conjunto da população do país deve cair de 82%, em 1995, para 80% em 2005 e 74% em 2020. E só não cai mais rapidamente devido à imigração de judeus da ex-União Soviética, que, aliás, vem diminuindo ano a ano.
No conjunto da Palestina (que inclui Israel e os territórios ocupados), os judeus devem se tornar minoria bem mais cedo. Em poucas décadas, não serão mais que um terço da população total.
A demografia pressiona a política e funciona como argumento para os defensores da separação física entre os dois povos. Ironicamente, Israel precisa de um Estado Palestino.
O plano de “separação total” entre judeus e palestinos não é de fácil execução.
Para ser implementado, supõe a redução da intensidade da intifada. De fato, Sharon parece trabalhar com o cenário de um conflito prolongado, mas de baixa intensidade, nos moldes do confronto de décadas entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte. Mas a “separação”, com seu impacto econômico sobre a população de Gaza e da Cisjordânia, deve acirrar ainda mais o ódio a Israel, reforçando as facções hostis a qualquer acordo de paz em especial, os fundamentalistas muçulmanos da Hamas.
Esse ódio já funciona como cimento entre as duas “fraturas” protagonizadas pelas populações árabes “de dentro” e “de fora” de Israel. Note-se que os árabes israelenses foram personagens de destaque do início da nova intifada. O acirramento desse ódio faria com que a proposta de “separação”, encarada por Sharon como alternativa para reduzir a rebelião palestina sem um acordo de paz, se transformasse em combustível de uma onda ainda maior de violência.
A placa correta a ser pendurada nos bares do Oriente Médio seria, então: “nada nos une, nada nos separa”. Em letras escritas com sangue, é claro.
Boletim Mundo Ano 9 n° 1
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