Demétrio Magnoli
O discurso autoritário fecha-se sobre si mesmo. Não bombardeia os fatos com interrogações, mas torce-os e os amolda a conclusões pré-fabricadas. Não elabora argumentos, produz slogans. Não registra imagens, mas adora montagens. Ignora a realidade, substituindo-a pelo preconceito.
A revista Veja habituou-se a inserir, entre as suas abundantes páginas de variedades e fofocas, uma ou outra matéria supostamente séria, de análise econômica e social. Essas matérias são modelos do discurso autoritário.
A capa da edição de 24 de janeiro traz a manchete O cerco da periferia, acompanhada por uma chamada que sintetiza a tese da matéria principal: “Os bairros de classe média estão sendo espremidos por um cinturão de pobreza e criminalidade que cresce seis vezes mais que a região central das metrópoles brasileiras”. A tese aparece “confirmada” por uma montagem fotográfica na qual uma vasta mancha de urbanização “periférica”, em cinza, comprime um “centro” colorido formado por edifícios célebres de São Paulo e bairros residenciais arborizados.
A matéria, assinada por Alexandre Secco e Larissa Squeff, apresenta-se como análise rigorosa da metropolização no Brasil.
Está recheada por estatísticas. Cita estudos acadêmicos e reproduz opiniões de urbanistas.
Apresenta equívocos flagrantes, chegando a confundir região metropolitana com os municípios das capitais estaduais.
Mas, sobretudo, é uma construção ideológica sobre a urbanização brasileira, estruturada como alicerce para o preconceito social.
O edifício do preconceito ergue-se sobre quatro pilares:
1. A abordagem histórica errada do processo de metropolização .Para passar a idéia de uma “explosão da periferia”, a matéria veicula a noção de que a expansão periférica das aglomerações metropolitanas acelerou-se nas últimas décadas. A verdade é outra. As metrópoles (e suas periferias) expandiram-se em ritmo mais acelerado nas décadas do pós-guerra. Depois, com a redução do crescimento vegetativo e do êxodo rural, desacelerou-se o ritmo de incremento demográfico das metrópoles. Atualmente, a configuração de cinturões urbanos periféricos caracteriza, principalmente, as cidades médias .
2. A interpretação equivocada das estatísticas sobre a urbanização Para enfatizar o caráter dramático da pobreza urbana no Brasil, a matéria compara a taxa de urbanização brasileira, superior a 80%, com as taxas da Índia (28%) e da China (31%). Mas só se pode comparar taxas obtidas a partir de critérios censitários homogêneos.
O IBGE computa como população urbana todos os residentes nas áreas das sedes de municípios, distritos ou povoados, sem levar em conta as densidades demográficas ou os totais populacionais.
Assim, residentes em povoados com menos de mil habitantes, no Sertão nordestino ou na Amazônia, aparecem sob a inflacionada rubrica “população urbana”. Na China e na Índia utilizam-se critérios diferentes. Além disso, mesmo ignorando a diferença de critérios, os “escassos” 31% de chineses que residem no meio urbano representam quase 500 milhões de habitantes: mais ou menos o triplo de toda a população brasileira!
3. A manipulação inescrupulosa das estatísticas sociais e econômicas Para identificar a “periferia” às idéias de pobreza e criminalidade, a matéria oferece uma tabela de indicadores de renda, emprego, consumo, alfabetização, saneamento e segurança do “centro” e da “periferia” de oito regiões metropolitanas brasileiras. As médias do “centro” de São Paulo são misturadas às dos “centros” de Belo Horizonte, Curitiba, Recife e outras cidades para gerar uma “super média”. As médias da “periferia” de São Paulo são misturadas às das “periferias” de Belo Horizonte, Curitiba,
Recife e outras cidades para gerar outra “super média”. Assim, “aprendemos” que 70% das casas do “centro” estão ligadas ao sistema de esgoto, contra apenas 30% das casas da “periferia”. O resultado impressiona os incautos, mas a comparação é absurda. Pode-se comparar indicadores de uma cidade com os de outra.
Pode-se comparar indicadores de diversas regiões da mesma cidade. Mas não se pode criar, por uma operação aritmética, um “centro médio” e uma “periferia média”. A ausência de significado da travessura aritmética de Veja fica evidente quando se sabe, por exemplo, que apenas 33% dos domicílios da região metropolitana de Recife estão ligadas ao sistema de esgoto, contra 87% dos domicílios da região metropolitana de Belo Horizonte. Na “lógica” de Veja, Recife inteira é “periferia” e Belo Horizonte inteira é “centro”!
4. A incompreensão dos mecanismos concretos de segregação urbana Para isolar a “periferia” da cidade como um todo, a matéria imagina que a pobreza urbana se apresenta em “estágios” e que a periferia é o mais baixo degrau dessa “escada”. A favela seria um “estágio” menos dramático pois “ensinam” os autores algumas oferecem até “locadoras de vídeo, bancos e academias de ginástica”. Mas, fora da redoma de manipulações estatísticas de Veja, os mecanismos de segregação urbana são muito mais complexos. Os pobres inserem-se no mundo urbano por diferentes vias, que se abrem ou se fecham ao sabor dos ciclos econômicos, do mercado imobiliário de terrenos e aluguéis, dos preços dos materiais de construção, da oferta de empregos nas diferentes regiões da cidade, da implantação de serviços públicos de transporte, iluminação, água e esgoto . Nas metrópoles brasileiras reais, há periferias “centrais” e condomínios de luxo “periféricos”.
Há cortiços e moradores de rua. Há favelas miseráveis, erguidas sobre enseadas ou igarapés contaminados. Em todos esses lugares existem estabelecimentos comerciais, legalizados ou clandestinos (ou uma mistura de ambos).
A matéria inventa uma “periferia” destituída de tempo e lugar. A “periferia” de Veja não existe em nenhuma cidade brasileira.
É um artefato ideológico descrito pela manipulação de médias aritméticas e ilustrado por montagens fotográficas. O discurso autoritário tem uma preferência obsessiva por imagens simples, infantis, poderosas. A “periferia” inventada pela revista é um largo anel, em permanente expansão, que rodeia e asfixia o diminuto núcleo central. Dois círculos concêntricos desenhados no papel.
Na matéria, a criminalidade não está associada a nenhum nexo social específico.
Aparece como propriedade inerente à periferia, junto com o cinza da paisagem, a contaminação das águas e a doença das pessoas. Veja retoma e atualiza a ideologia do sanitarismo social do século XIX, que identificava a pobreza à doença. O nome do elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, surgiu dessa ideologia: suas mansões arborizadas, erguidas em área elevada, segregavam os banqueiros e cafeicultores dos mosquitos e dos pobres que “infestavam” as várzeas baixas da cidade.
O sanitarismo social é um programa de ação que vem sendo aplicado há anos em diversas metrópoles brasileiras. Esse programa manifesta-se nas chacinas intermitentes em favelas e bairros periféricos, nas rondas e batidas policiais que humilham os pobres, na multiplicação das empresas privadas de segurança patrimonial, na indústria de blindagem de veículos, na proliferação de condomínios fechados e murados.
O programa do sanitarismo social jamais reduziu a violência ou ampliou a segurança nas cidades. Mas vende revista.
Boletim Mundo Ano 9 n° 1
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