quarta-feira, 9 de março de 2011

BUSH ZOMBA DO PROTOCOLO DE KYOTO

Newton Carlos
Pacote de incentivos premia os combustíveis fósseis e reatores nucleares, estimula o consumo e ignora os tratados ambientais internacionais.
São 100 milhões de carros com ar condicionado, queimando gasolina a granel.
Com 4,5% da população mundial, os Estados Unidos consomem um quarto de todo o petróleo produzido. O consumo de energia per capita dos americanos é de 9,73 TEPs por ano. Nos 48 países mais pobres do mundo, a média fica em 0,38 TEP.
Cada americano consome, em média, tanta energia quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. Relatório do World Watch Institute constata que, se o resto do planeta se igualasse aos EUA na queima de petróleo, seriam necessários 360 milhões de barris por dia. A produção mundial atual é de 67 milhões de barris.
Embora pátria da alta tecnologia, os EUA figuram em 32º lugar em eficiência energética. Para produzir uma unidade do PIB, gastam duas vezes mais energia que a Itália. “É uma sociedade que não aceita regras”, reclama o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, pedindo aos europeus para pautarem seu futuro tendo os EUA como exemplo que não deve ser seguido. O plano de energia, lançado há pouco por George Bush, foi apelidado de “perfure e queime”, isto é, extraia (ou produza) o máximo possível e consuma o máximo possível.
A indústria agradece, deu a entender o jornal The Washington Post. Bush e Richard Cheney, seu vice, que articulou o plano a partir de estudo feito pelo seu pessoal, são personagens de primeira linha do universo da energia, sobretudo do petróleo.  O jornal The New York Times mostrou a intimidade de industriais com os novos membros da Comissão Federal Reguladora de Energia. Ambientalistas são “personas non gratas”. E só depois de muita pressão é que o secretário do Tesouro, Paul O’Neill, vendeu suas ações da transnacional do alumínio Alcoa.
Para Cheney, conservacionismo é “atitude filosófica, mero sinal de virtude pessoal”. Numa conferência em Toronto, ele explicou: “Conservacionismo ou racionalização não são respostas para os problemas de energia dos EUA. Petróleo, carvão e gás natural continuarão sendo, por muito tempo, as fontes primárias de energia e a solução é facilitar a sua exploração. Temos de construir entre 1,3 mil e 1,9 mil novas usinas nos próximos 20 anos, só para atender aos níveis atuais de demanda de energia”.
É um programa para manter inalterada a atual matriz energética americana, alicerçada sobre o consumo de combustíveis fósseis.
É possível que Cheney, tido por muitos como o poder por trás do trono, realize um sonho que acalenta há duas décadas: abrir à exploração de petróleo o Alaska National Wildlife Refuge, área de proteção ambiental no Alasca. Nada poderia contentar mais à indústria, pronta a meter garras afiadas inclusive em fontes não-renováveis. O relatório preparado pelo pessoal de Cheney, base do plano de Bush, recomenda “relaxar” restrições a perfurações, inclusive nas Montanhas Rochosas e em bacias marítimas. A indústria de carvão também ganha novo alento.
Cheney não é apenas um “oil man”, mas também um “nuclear man”.
Desde o acidente na usina de Three Mile Island, em 1979, não são construídas novas centrais nucleares nos Estados Unidos.
“Se estamos de fato preocupados com o ambientalismo, é preciso lembrar de uma fonte de energia com uma história de segurança e limpeza”, disse em Toronto.
Leia-se: retomada da construção de usinas nucleares. “Nada de reduzir o consumo.
O que é preciso é fazer todo o possível para aumentar, e muito, a oferta”, foi o fecho de ouro da conferência em Toronto.
Logo depois, Bush lançou seu plano, com a promessa de relaxar regras e encorajar mais produção de petróleo, carvão, gás e energia nuclear.
O Cato Institute, respeitado centro de estudos, prevê “tremenda confusão energética” no futuro, uma corrida desordenada em busca de lucros a qualquer custo. Espécie de corrida do ouro. Ou estouro da boiada. O governador da Califórnia, o democrata Gray Davis, diz que a crise em seu Estado resultou da “liberdade” dada a empresas energéticas só interessadas em lucros.
Muitas empresas são do Texas, onde Bush foi governador. “Estamos em guerra com elas”, afirma Gray.
Numa dimensão mais ampla, estudo do Third World Resurgence concluiu que “o modelo norte-americano é simplesmente insustentável”. O estudo revela as desigualdades no consumo dos recursos naturais. A população de Madagascar dispõe de apenas cinco litros de água por dia per capita. A média americana é de 600 litros e a européia, 200.
Campeões da poluição atmosférica, os EUA são também responsáveis por quase um quarto das emissões mundiais de “gases de estufa”. As emissões per capita de dióxido de carbono são 27 vezes maiores “do que a cota sustentável num mundo equilibrado”.
Mas nenhuma regulamentação é aceita. Coerentemente com seu plano energético, Bush retirou os Estados Unidos do Protocolo de Kyoto, o tratado internacional voltado para a redução paulatina das emissões de “gases de estufa”.
Qual será a força e eficiência de um tratado do qual não participa a maior potência global? Mesmo antes da decisão de Bush, as estimativas da Agência Internacional de Energia indicavam que as emissões americanas ultrapassariam largamente as cotas definidas em Kyoto para 2010.
Gandhi disse um dia que a Terra tem como dar a cada ser humano o que ele precisa, “mas não o que ele cobiça”.
Os americanos já consomem 40% dos recursos do mundo. Necessidade ou  cobiça ? O fato, avisa um sociólogo de lá, é que “os americanos vão à guerra, se preciso, mas não mudam de hábitos”.
Boletim Mundo Ano 9 n° 4

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