quarta-feira, 9 de março de 2011

Energia e desenvolvimento

Existem vários índices que se propõem a medir o nível de desenvolvimento. O mais utilizado, na atualidade é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que combina dados econômicos e sociais. O resultado da combinação dessas informações consiste em um único número, que varia entre zero a um. Quanto mais próximo de um está o IDH de um país, melhores as condições de vida da população.
O desenvolvimento econômico é, entretanto, uma condição complexa, difícil de aferir através de um único indicador. Mas os níveis de consumo e a composição da matriz energética fornecem pistas cruciais sobre o desenvolvimento.
O consumo bruto de energia revela abismos de desenvolvimento entre os países. Em 1998, os países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), associação global de países desenvolvidos, representavam cerca de 30% da população mundial, mas consumiam quase 55% do total de energia produzida no mundo.
O consumo de energia comercial é um indicador mais refinado, porque exclui a energia gerada para auto-consumo. Ficam de fora desse indicador, por exemplo, a queima de lenha, e de restos vegetais e animais para atividades domésticas, típica fonte de energia de populações rurais dos países pobres.
Em 1998, o consumo médio mundial de energia era de 1,63 TEP (Toneladas Equivalentes de Petróleo) per capita. Mas, como acontece geralmente com as médias, esta informação esconde muito mais do que revela. Cada americano consome anualmente, em média, 8,11 TEP. No outro extremo, a imensa maioria dos habitantes da África consome menos de 0,50 TEP por ano. Entre esses pólos, há gradações significativas de consumo energético, que desvendam as diferenças de potencial econômico e de níveis de vida.
A matriz energética conta uma história
A matriz energética – a participação das diversas fontes primárias na geração de energia – fornece informações não só sobre o nível de desenvolvimento como também sobre a história, a economia e os recursos naturais dos países. Nos Estados Unidos, três fontes principais – petróleo, carvão e gás – são responsáveis por mais de 80% da energia consumida.
Na França, chama a atenção a  importância da fonte nuclear, responsável por quase 40% da energia gerada no país. O programa francês de construção de usinas nucleares resultou de fatores estratégicos e econômicos: o projeto nuclear militar e a busca de menor dependência do petróleo importado do Golfo Pérsico. O segundo fator explica o peso da energia nuclear nas matrizes da Alemanha, Grã-Bretanha e Japão.
Os países subdesenvolvidos também apresentam tipos distintos de matriz energética. Os detentores de grandes reservas de hidrocarbonetos, como o Irã e a Arábia Saudita, têm matriz baseada no petróleo e no gás natural, que respondem por mais de 90% da sua energia primária. No Brasil, em função do elevado potencial hidrelétrico e da localização de grande parte desse potencial nas proximidades das concentrações urbanas e industriais, a fonte hídrica tem peso dominante na geração de eletricidade .
Um traço comum a grande parte dos países subdesenvolvidos é a expressiva participação de fontes de energia renovável, chamadas genericamente de biomassa, como a lenha, carvão vegetal, bagaço e resíduos agropecuários. No Brasil, país industrializado, a queima de lenha e carvão vegetal responde por cerca de um quarto da energia primária. Essa situação reaparece na Índia e na China e, mais intensamente, entre os países africanos. Na Nigéria, maior produtor de petróleo da África, a matriz energética repousa sobre a biomassa.
A queima de lenha, carvão vegetal, bagaço e resíduos caracteriza-se, em geral, por pequena eficiência energética e econômica.
Muitas vezes, essas alternativas energéticas típicas da pobreza estão associadas ao desmatamento extensivo. Contudo, tais combustíveis inferiores respondem por algo próximo a 25% de todo o consumo energético da humanidade.
A carência de eletricidade limita a modernização da agropecuária, restringe os investimentos industriais e provoca êxodo rural acelerado. O recurso à geração doméstica de energia através de biomassa revela a incapacidade do poder público de fornecer eletricidade à população, especialmente no meio rural. Na Índia, a poluição doméstica provocada pelo uso de dejetos de animais como combustível para a cozinha causa cerca de dois milhões de mortes prematuras ao ano, principalmente entre mulheres e meninas.
Boletim Mundo Ano 9 n° 4

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