terça-feira, 8 de março de 2011

COLÔMBIA, CHAGA ABERTA NA AMAZÔNIA

A Colômbia é um país dilacerado pela guerra civil.
Mais de 40% do seu território está sob controle de grupos guerrilheiros esquerdistas e de paramilitares de extrema direita, os “esquadrões da morte”. Pelo menos um milhão de seus 40 milhões de habitantes dependem, direta ou indiretamente, do plantio da coca, matéria-prima para a fabricação da cocaína, cujo comércio rende bilhões de dólares aos narcotraficantes instalados na Amazônia.
Incapaz de derrotar a guerrilha e de liquidar o narcotráfico, o governo colombiano foi pressionado pelos Estados Unidos a adotar o Plano Colômbia, que prevê erradicar o plantio de coca e, ao mesmo tempo, combater a guerrilha. Lançado em agosto de 2000, o Plano Colômbia tem como objetivo destruir, até 2005, a metade das plantações de coca do país. Os investimentos previstos chegam a US$ 7,5 bilhões, dos quais US$ 1,3 bilhão será financiado pelos Estados Unidos, com equipamentos militares e treinamento dos soldados.
A guerra civil na Colômbia, ao contrário do que normalmente se pensa, começou muito antes do narcotráfico. Sua origem data da década de 1940, quando os guerrilheiros lutavam pela reforma agrária e pela democratização do país. À época, a guerrilha se chocava contra uma estrutura conservadora, formada pela oligarquia rural. Só entre 1948 e 1953, período conhecido como La Violencia, a guerra civil matou cerca de 145 mil pessoas. O seu estopim foi o assassinato, em 9 de abril de 1948, do líder populista Jorge Eliécer Gaitán, em pleno comício de campanha presidencial. O assassinato mostrou que a oligarquia não estava disposta a abrir o menor espaço para a manifestação de oposição.
A luta armada foi ainda mais radicalizada pelas imensas desigualdades sociais.
Nos anos 1960, sob inspiração da revolução cubana de 1959, foram criadas as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dezenas de outros grupos. A maioria deles era marxista e tinha o objetivo de implantar na Colômbia um regime semelhante ao cubano. As Forças Armadas regulares, apesar de empregarem 150 mil homens, nunca conseguiram liquidar a guerrilha. A partir dos anos 1980, com o crescimento do narcotráfico, foram ainda mais desmoralizadas pela corrupção, pois seus oficiais e soldados eram comprados pelos narcodólares.
A imprensa divulga, em geral, que os grupos guerrilheiros promovem o narcotráfico. Isso não é exato A relação entre os narcotraficantes e os grupos guerrilheiros é, no mínimo, obscura. Tanto as Farc quanto o ELN condenam o narcotráfico. Admitem, no máximo, que cobram “imposto” dos narcotraficantes, como forma de financiar as suas atividades guerrilheiras. Contrariando essa versão, os EUA afirmam que os guerrilheiros praticam o “narcoterrorismo”. A exportação de drogas seria uma forma de “corromper e subverter a juventude”. As Farc empregariam três mil e o ELN, 500 homens no narcotráfico. Nessa perspectiva, para combater as drogas é preciso combater a guerrilha.
Mas essa visão é contestada até mesmo por parlamentares norte- americanos, e também por intelectuais mundialmente conhecidos, como Noam Chomsky e Michel Chossudovsky. Para eles, a idéia do “narcoterrorismo” consiste apenas em pretexto para que os EUA justifiquem a crescente intervenção na Amazônia.
Em 1998, o presidente Andrés Pastrana tentou negociar a paz com as Farc, entregando à organização uma “zona desmilitarizada” de 42 mil km2, no sul do país. Também pensou em fazer um acordo parecido com o ELN, “desmilitarizando” o vale do rio Magdalena, 450 quilômetros ao norte de Bogotá. Mas desistiu da idéia, graças à oposição do Exército.
Será extremamente difícil encontrar uma solução negociada. A cultura da violência já deixou muitas marcas e desconfianças. Além disso, os narcotraficantes usam sua imensa influência junto aos militares, políticos e “esquadrões da morte” para sabotar qualquer chance de acordo. Hoje, as matanças promovidas pelos “esquadrões” são o principal fator incendiário da região.
Finalmente, os EUA estão mais interessados no Plano Colômbia do que na paz. Washington quer ampliar a sua presença na Amazônia, particularmente na Colômbia, país rico em petróleo, água doce e outros recursos naturais.
Quem mais sofre com a guerra são os indígenas e camponeses,  expulsos de suas terras pelos “esquadrões da morte”. Cerca de 1,5 milhão de colombianos abandonaram suas terras nos últimos 15 anos. As terras abandonadas são ocupadas por latifundiários e narcotraficantes.
Os camponeses expulsos acabam engrossando o contingente de miseráveis nas cidades.
Boletim Mundo Ano 9 n° 2

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