terça-feira, 8 de março de 2011

MÉXICO-TENOCHTITLÁN: ONDE A ÁGUIA DEVOROU A COBRA

Miriam M. S. Madureira
Vista de cima, a Cidade do México impressiona.
Vindo de avião, do sul, vê-se uma imensa área relativamente uniforme: seca, plana e horizontal. Quase não há edifícios altos e o efeito-planície (na verdade, um planalto em um vale a 2.200 metros de altitude) só é interrompido pelos vulcões: o Popocatépetl (“montanha que fuma”) – que anda emitindo cinza e fumaça ultimamente – e o Ixtaccihuátl (“mulher adormecida”).
Vista de baixo, a Cidade do México também impressiona. Faltam pontos de onde se possa ver o horizonte.
Mas logo se descobre por quê: claro, os terremotos.
Todos os anos  dizem aqui que “depois da época de chuvas”  há pelo menos um ou outro terremoto menor. E, às vezes, um terremoto mais grave, como foi o de 1985. Eu mesma, nos três anos em que estou aqui, já passei por vários terremotos menores. Por falta de experiência, geralmente só percebo o terremoto depois que ele já terminou: da última vez, pensei que estavam passando caminhões na minha rua  e era um terremoto de mais de 7 pontos na escala Richter.
Mas não é só a geografia que impressiona. É impossível estar na Cidade do México sem ficar de boca aberta pelo que este país tem de história e de cultura. A história começa com a fundação de Tenochtitlán: diz a lenda que os mexicas (ou astecas) tinham sido informados de que deveriam fundar uma cidade no lugar em que encontrassem uma águia devorando uma cobra. E a encontraram, há uns 700 anos, num lago que ficava onde hoje está o centro histórico da cidade. Depois disso, bastou aos espanhóis aproveitar o que já havia: construíram a Catedral em cima do Templo Maior mexica, que ficava exatamente no ponto que corresponderia ao centro do universo. E construíram ao lado o Zócalo, a belíssima praça central, onde até hoje está o centro do poder político, o Palácio Nacional. E todo o atual centro histórico em volta, com a imponência das construções espanholas. A poucos quarteirões de meu apartamento fica a casa em que teria morado o conquistador espanhol Hernán Cortez com sua amante indígena, Malinche, nos idos de 1521.
Mas há também o México contemporâneo, que oscila entre os extremos de um México que quer ser igual aos Estados Unidos quando crescer e o México-Tenochtitlán-latino-americano-alternativo. No meio, está um México híbrido, que inclui um pouco de cada coisa. Primeiro, o México “moderno” (no melhor e no pior sentidos da palavra): nada a ver com as imagens que circulam no Brasil – os mexicanos de sombrero dormindo encostados em cactos, que vêm da visão que os americanos têm do país. O México “moderno” não fica a dever nada a qualquer metrópole do mundo: tem tudo o que se possa imaginar, uma vida acadêmica e cultural invejável mesmo para uma paulistana, e problemas urbanos similares aos das metrópoles brasileiras.
Depois, o México colonial espanhol, machista, convencional e cheio de nove-horas. Parte dele é formado pela religiosidade popular católica, que gera resultados interessantes: a última aparição aqui da Virgem Maria (na figura da Virgem de Guadalupe, padroeira do México e exemplo do sincretismo de tradições indígenas com espanholas) foi há uns cinco anos, na estação de metrô Hidalgo. Hoje se cultua nesse lugar a “Nossa Senhora do Metrô”, com altar e tudo.
Mas o terceiro lado é o mais interessante: a antiga Tenochtitlán, o México indígena, que sobrevive de uma maneira ou de outra em toda a população da cidade  em sua grande maioria mestiça de indígenas e espanhóis, muitos falando náhuatl, otomí e outras línguas indígenas. Um exemplo das tradições indígenas é a festa de mortos em um bairro como Mixquic, no sul da cidade: no dia de finados, as pessoas se reúnem no cemitério para festejar, com comida, música e dança, a volta dos mortos, que vêm visitar os parentes. A influência indígena não se limita às festas tradicionais: está também na comida (baseada em milho, feijão e pimenta),no espanhol falado no México, e até na geografia.
Mesmo ao vulcão Popocatépetl se fazem oferendas, com a esperança de que ele, contenha suas erupções e continue preservando a vasta extensão de Tenochtitlán ao seu lado. Tomara que funcionem.
Boletim Mundo Ano 9 n° 1

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