José Arnaldo Favaretto
Para a maioria da população brasileira, a expressão “vaca louca” entrou no vocabulário apenas nos últimos meses, por conta da pendência envolvendo o país e o Canadá.
Entretanto, há mais de 15 anos os pecuaristas europeus principalmente da Grã-Bretanha – convivem com o fantasma dessa doença estranha e sem tratamento, que os veterinários chamam de encefalopatia espongiforme dos bovinos (ou BSE). Um primeiro surto da doença no Velho Mundo foi detectado em 1985, na Inglaterra. De lá para cá, já foi verificada na Irlanda, Suíça, França, Portugal, Holanda, Alemanha e Itália.
Os sinais mais comuns da BSE em bovinos são agressividade, agitação, movimentação anormal das orelhas e da cabeça, perda de peso, redução na produção de leite, tremores e perda da coordenação motora, particularmente dos membros posteriores.
A enfermidade provoca lesões degenerativas, progressivas e letais no sistema nervoso dos animais. Tais lesões explicam o termo “espongiforme”, pois o sistema nervoso pode mesmo adquirir o aspecto de uma esponja.
Em ovinos, a doença recebe a denominação de scrapie, pois os animais doentes têm uma desesperadora coceira e ficam o tempo todo se esfregando (em inglês, scrap), numa tentativa de aliviar o sintoma.
O agente causador tanto da BSE como do scrapie é um príon, partícula protéica infectante. O príon é desprovido de ácido nucléico (DNA ou RNA). O reconhecimento, em 1982, de que os príons podem ser agentes causadores de doenças deu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1997 ao pesquisador Stanley Prusiner, da Universidade da Califórnia. Uma doença humana causada por um príon é o kuru, encontrada em algumas tribos africanas e cuja transmissão relaciona-se com rituais antropofágicos que envolvem a utilização, como alimento, de restos de indivíduos mortos, inclusive o cérebro.
O príon é a forma modificada de uma proteína encontrada naturalmente nas células. No caso, trata-se de uma “irmã” alterada de uma proteína presente na superfície dos neurônios (células nervosas). Quando ataca a célula normal, a proteína aloprada desencadeia a produção de cópias de si mesma, acabando por destruir e romper a célula afetada, liberando milhares de novos príons. Dessa maneira, outras células são atacadas e a doença progride.
Capim ou ração: eis a questão
De acordo com os conhecimentos atuais, a BSE é transmitida pela ingestão de rações em cuja fórmula entram farinhas de carne e de ossos de animais doentes. Existe, ainda, a possibilidade da transmissão de uma fêmea doente para o feto. Porém (e felizmente!), não há registro de contágio pelo leite.
A pergunta óbvia, então, é a seguinte: por que os pobres e pacíficos bovinos, herbívoros há milhares de séculos são transformados em carniceiros devoradores de despojos? A resposta é simples: a falta de pasto e a ânsia de aproveitar ao máximo as carcaças dos animais abatidos, principalmente ovelhas. Em muitos países do mundo (por aqui, inclusive, embora ninguém admita abertamente), depois de a carne de animais mortos em frigoríficos ter sido retirada, as sobras (ossos, cartilagens e vísceras) são trituradas e misturadas a outros componentes, como o farelo de soja, que entram na composição das rações destinadas à alimentação de aves, suínos e, eventualmente, bovinos. Os bovinos são alimentados com rações principalmente na época da seca, quando as pastagens escasseiam.
Aí mora o perigo! As carcaças de animais doentes contêm o príon, e os animais que se alimentam da ração tornam-se também doentes.
Se nenhum caso da doença foi diagnosticado no país, por que somos considerados “nível de risco 2” pela União Européia (UE)? Acontece que, na década de 1990, o Brasil importou de alguns países europeus mais de quatro mil bovinos vivos de algumas raças de alta precocidade (Limousin, por exemplo), para cruzamento com raças zebuínas rústicas e adaptadas ao nosso clima (como o Nelore). Não se sabe exatamente o destino destes animais. O temor é que tenham sido abatidos depois de deixarem de servir como reprodutores, e que suas carcaças não tenham recebido destino correto (de preferência, a incineração).
Além disso, em 1991, a então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, autorizou a importação de mais de 100 mil toneladas de carne da Europa, numa tentativa mal-sucedida de controlar os preços do produto no mercado interno. Nesse lote havia 18 mil toneladas de carne proveniente da Irlanda, onde a BSE já era motivo de grande preocupação.
O ministro da Agricultura da época, Antonio Cabrera, descabelou-se na tentativa de evitar a insanidade. O conflito da Economia com a Veterinária terminou com a derrota da segunda. Parte do lote de carne suspeita foi queimada; parte apodreceu em armazéns do governo.
Mas e o resto?
A forma humana da doença da vaca louca (chamada “variante da síndrome de Creutzfeldt-Jakob”, ou vCJD) é letal e já causou mais de 80 mortes no Reino Unido e duas na França, nos últimos anos. Manifesta-se com alterações da coordenação motora, ansiedade, depressão e demência. Segundo algumas previsões, bastante catastrofistas, a Europa atravessará uma grave epidemia a partir de 2003, uma vez que a doença tem período de incubação que varia de 15 a 30 anos.
O pânico decorrente da doença fez com que o consumo de carne bovina despencasse 30% na Europa, além de conduzir tradicionais países compradores (como Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Israel, Austrália e Rússia) a interromper a importação de produtos animais oriundos da UE.
Nos últimos anos, as cotações internacionais da carne descreveram movimentos enlouquecidos.
Foi uma oportunidade de ouro para a pecuária brasileira, cujo rebanho é alimentado principalmente “a pasto”, ou seja, come o bom, velho e saboroso (para os bovinos, evidentemente!) capim, em suas mais diversas variedades. Entretanto, a oportunidade não foi bem aproveitada.
Primeiro, em virtude das oscilações nos preços internacionais do produto, que chegaram a retroceder na mesma proporção da freada no consumo europeu. Segundo, e mais triste, porque a sanidade do nosso rebanho não foi rápida e nitidamente comprovada para o mundo todo. No contexto da guerra comercial entre a brasileira Embraer e a canadense Bombardier pelo mercado dos jatos regionais, o Canadá explorou a brecha para fechar temporariamente o seu mercado à entrada da carne brasileira.
A doença da vaca louca é estatisticamente insignificante, se comparada com outras patologias do gado bovino, como a febre aftosa, a brucelose e a tuberculose. Mesmo assim, os estragos que provocou no mercado mundial da carne e o pânico que disseminou entre consumidores do mundo todo já atingiram proporções alarmantes.
Boletim Mundo Ano 9 n° 2
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