terça-feira, 8 de março de 2011

Da Europa à América Latina

Os argentinos orgulharam-se, por muitas décadas, de viverem em uma espécie de ilha européia na América do Sul. Uma ilha cujo símbolo era a bela capital, Buenos Aires, com seus edifícios antigos lembrando Paris ou Madri na virada do século XX, com seus cafés charmosos (alguns dos quais têm mais de 130 anos), e com dezenas de livrarias espalhadas pela calle Florida.
Essa prosperidade “européia” deveu-se a dois fatores: os grandes lucros com a exportação de alimentos, principalmente a carne e o trigo, e a ação do Estado, que garantiu uma distribuição de renda razoável até a década de 1970.
A Argentina “européia” começou a nascer com a grande onda imigratória iniciada em 1857. Os mais de 3,5 milhões de imigrantes, quase todos italianos e espanhóis, que chegaram ao longo de sete décadas, soterraram o país mestiço. Mas os anos gloriosos começaram com o fim dos combates entre Buenos Aires e as províncias, e com a vitória do país (ao lado do Brasil) na Guerra do Paraguai, em 1870. A exportação de alimentos decolou de vez durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18). Mas o colapso das importações aumentou muito o custo de vida nas grandes cidades. Hipólito Yrigoyen, eleito presidente em 1918, usou o imenso saldo positivo da balança comercial para ampliar os serviços públicos de saúde e educação, o que deu trabalho a muita gente e melhorou as condições de vida dos mais pobres.
Yrigoyen foi derrubado por um golpe militar em 1930. A Segunda Guerra Mundial (1939-45), porém, geraria saldos comerciais ainda mais fantásticos. O general Juan Domingo Perón, eleito presidente em 1946, e sua primeira esposa, Evita, tornaram-se os símbolos de uma nova “europeização” da Argentina. O dinheiro das exportações foi utilizado na construção de uma sólida indústria de base estatal. E novas leis sociais incorporaram à cidadania a classe operária, os “descamisados”, como Yrigoyen havia feito décadas antes com a nascente classe média urbana.
Perón foi derrubado por um golpe militar em 1955. E o início da meia-volta da Argentina “européia” ocorreria com o sangrento golpe de Estado de 1976. Os ditadores militares abriram a economia ao capital estrangeiro. A indústria nacional (estatal e privada), que crescera muito na primeira metade do século XX, quase desapareceu.
Desapareceria de vez com a paridade entre o dólar e o peso. Hoje, as vitrines e os letreiros de Buenos Aires exibem principalmente grifes e marcas americanas. É verdade que, nos cafés, o cidadão ainda pode bebericar uma só xícara o dia todo, sem que o garçom o incomode exigindo mais consumo  herança da tradição européia. Mas inúmeras livrarias fecharam as portas por falta de compradores. As favelas que brotam na Grande Buenos Aires e a miséria que se espalha nas províncias falidas demonstram que o país chegou finalmente à América Latina.
Boletim Mundo Ano 9 n° 2

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