terça-feira, 8 de março de 2011

TRISTES TANGOS

A paridade monetária estrangula a economia argentina e faz crescer o temor de migração da crise para o Brasil.
O tango, ritmo típico argentino, é música melancólica. Dizem os conhecedores que a alma do tango é lamentar um passado que foi melhor e não voltará.
E, a julgar pela atual situação da Argentina, os intérpretes do velho tango terão muitos motivos para se tornarem cada vez mais melancólicos.
Para honrar os compromissos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que pilotou, no início do ano, um pacote de ajuda de US$ 39,7 bilhões à Argentina, e fechar o ano com um superávit de US$ 1,9 bilhão nas contas públicas, o presidente Fernando De La Rúa trocou duas vezes o ministro da Economia. Terminou chamando de volta o ex-ministro Domingo Cavallo, o pai da paridade. No horizonte, novos cortes nos gastos públicos e mil e uma táticas para obter dinheiro, de forma a manter a cotação do peso.
Este é, na verdade, mais um furo no constante apertar de cintos que a Argentina vive desde a metade da década passada. A paridade peso/dólar foi a principal bandeira do ex-presidente Carlos Menem e de seu poderoso ministro da Economia, Domingo Cavallo, para eliminar a inflação, que chegou a incríveis 4.923,6% em 1989, quando Menem foi eleito. A paridade degolou a inflação que hoje quase não existe  e trouxe de volta os capitais estrangeiros. Para atrair os investidores, Menem deu início a um processo acelerado de privatizações  de indústrias, serviços públicos, estradas, etc. O dinheiro obtido com os investimentos  tanto produtivos como nas bolsas de valores  era injetado para garantir o sistema de câmbio fixo.
Tudo parecia um mar de rosas: o PIB argentino cresceu 34% entre 1991 e 1994. No mesmo período, a venda de carros cresceu 40% e a de eletrodomésticos, 100%. Havia um “probleminha”, o desemprego, que disparou de 5,9%, em 1990, para 17,1% em 1996, graças à enxurrada de produtos estrangeiros que esmagou a indústria local. Mas os números globais positivos sufocavam as vozes que lembravam  desse fruto amargo da abertura econômica. No plano externo, Menem tratou de ampliar sua credibilidade mantendo relações íntimas com os Estados Unidos. O país chegou a enviar contingentes para a distante Guerra do Golfo, contra o Iraque, em 1991. Aqui mais perto, a aproximação com o Brasil que viabilizou o Mercosul garantia novos mercados para os produtos argentinos. Em 1998, quase um terço das exportações da Argentina  destinaram-se ao Brasil.
O câmbio fixo, porém, apresenta  um sério problema: depende da boa vontade do capital internacional. A crise mexicana de 1994-95 e a crise asiática de 1998 provocaram uma correria dos investidores estrangeiros, o que detonou as contas públicas argentinas. Menem, que facilmente se reelegera em 1995, viu seu candidato, do Partido Justicialista (peronista), ser derrotado quatro anos depois por uma aliança de centro-esquerda que tinha à frente Fernando De La Rúa.
Mas De La Rúa não desatou o nó da paridade. Toda a elite política e econômica argentina teme a desvalorização do peso, que provocaria a quebra em massa de bancos, empresas e pessoas que contraíram empréstimos em dólares. A desvalorização exigiria, ainda, uma delicada costura política, pois Menem inscreveu o câmbio fixo na própria Constituição.
Sem mexer na paridade, restou a De La Rúa apertar mais e mais o cinto para zerar as contas. Uma tarefa cada vez mais difícil, até porque o Brasil abandonou sua semi-paridade em janeiro de 1999, desvalorizando o real e adotando o sistema de câmbio flutuante. Isso encolheu as exportações argentinas para o Brasil, além de fazer com que muitas empresas cruzassem a fronteira, em busca de custos mais baixos.
No ano passado, De La Rúa reduziu benefícios trabalhistas, alegando a necessidade de diminuir os custos de geração de novos empregos. O facão abalou seriamente a aliança política que o apoiava. Também gerou o ódio dos sindicatos e das províncias, “premiadas” com cortes nos repasses de verbas. O novo pacote, a pretexto de preservar as dívidas em dólares e a credibilidade da Argentina no exterior, estrangula ainda mais as possibilidades de recuperação da economia do país, faz prever o aumento do desemprego e das desigualdades sociais entre a capital e as províncias.
Cresce o número dos argentinos que perguntam se (ou quando) o país vai quebrar de vez. Cresce também o número dos brasileiros que temem os efeitos do aprofundamento da crise argentina. Enquanto isso, Carlos Menem afia suas esporas para concorrer outra vez à Presidência, em 2003.
Agora, promete uma receita ainda mais radical: a dolarização, a adoção de vez da moeda americana, vinculando para sempre o destino da Argentina aos Estados Unidos e dissolvendo o Mercosul. Material de sobra para os intérpretes de tango, não é?
Boletim Mundo Ano 9 n° 2

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