terça-feira, 8 de março de 2011

UMA VISITA AO SÉCULO XX

Kata Radaic, 101 anos, faz uma viagem por suas memórias
Kata (Catarina) Radaic é uma pessoa muito especial. Ela nasceu no último ano do século XIX, em 29 de janeiro de 1900 e, lúcida e faceira, ainda tem muita vontade de viver tudo o que promete o século XXI. Kata sentiu o pleno impacto das vertiginosas transformações culturais e tecnológicas que se abateram sobre o homem. Mais ainda porque ela nasceu nos Bálcãs, uma das regiões mais conturbadas do planeta, na pequena cidade de Blato, em Korcula, ilha banhada pelo Adriático. Ela contou sua história ao sobrinho Nelson Bacic Olic, que, por meio desta seção, convida nossos leitores a fazer uma viagem pelo século XX.
Quando Kata nasceu, a ilha de Korcula fazia parte do Império Austro-Húngaro. Ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-18), passou a fazer parte do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que teve o seu nome modificado em 1929 para Reino da Iugoslávia. Ao findar a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a ilha foi integrada à República Socialista e Federativa da Iugoslávia e, após 1991, passou a fazer parte da Croácia, uma das entidades políticas geradas pela dissolução da Iugoslávia socialista.
Catarina viveu na Ilha de Korcula até os 25 anos, quando imigrou com a família para o Brasil. O pai a tirou da escola após dois anos de estudo, já que ela precisava ajudar em casa. Sua família tinha uma pequena propriedade, onde se cultivava principalmente olivas e uvas. Esses cultivos são típicos de áreas com clima mediterrâneo como aquele encontrado na ilha. As azeitonas colhidas eram transformadas em azeite que, em pequenas quantidades, era vendido no mercado local.
A uva era usada para o consumo da própria família, que, eventualmente, produzia vinhos caseiros, vendidos nas proximidades.
Blato era uma das cinco cidades da ilha, todas pequenas. A única que aparentemente rivalizava com Blato era a cidade de Vela Luka, onde aportavam os barcos vindos do continente. Para o transporte de pessoas e de mercadorias usavam-se mulas ou então caminhava-se horas até se chegar à cidade mais próxima.
Kata foi várias vezes a essas cidades, em mula.
Catarina lembra que, em sua adolescência, durante os finais de semana, enganava seu pai dizendo que ia ficar em casa, mas fugia para bailes que, segundo ela, eram animados por sanfoneiros. Os bailes eram muito românticos. Havia todo um ritual de aproximação, incluindo um gesto de reverência entre o moço e aquela que ele escolhera como par. O salão de baile era sempre grande. As pessoas usavam suas melhores roupas.
Muitos dos vestidos que Kata usou eram emprestados de uma amiga, vizinha italiana.
Destino: Brasil
A maioria dos imigrantes que saiu do território da antiga Iugoslávia e se dirigiu para o Brasil, vinha da ilha Korcula, de Split e Dubrovnik, duas das principais cidades da costa do Adriático. A região que engloba as ilhas e o litoral próximo é conhecida como Dalmácia.
Em 1925, Kata e toda a família marido, pai, madrasta e cinco irmãos  somaram-se aos que vinham tentar a vida no Brasil. Inicialmente, foram trabalhar numa fazenda de café na cidade de Itatinga, interior de São Paulo. Logo, dirigiram-se para a capital onde se fixaram no bairro do Belém, na Zona Leste. Muitos integrantes da família passaram a trabalhar em um lanifício, cujo dono era um imigrante italiano. Era casada com Vid e teve seis filhos, todos nascidos no Brasil. Dois dos irmãos de Catarina morreram no final dos anos 30 e início dos anos 40, de tuberculose.
A impressão que se tem é que a maioria dos imigrantes, assim como Catarina, sempre se identificou mais com a Dalmácia do que com a Croácia. Em São Paulo, bem próximo à casa onde mora Catarina, existe uma associação de imigrantes que durante muito tempo foi conhecida como Sociedade Amigos da Iugoslávia.
Desde o início da década de 1990, em função do fracionamento político da antiga República Socialista, a organização passou a se chamar Sociedade Amigos da Dalmácia. Catarina não lembra (ou não quer lembrar) da viagem para o Brasil. Mas, aos 101 anos, ainda recorda trechos de músicas que falam da saudade de sua terra natal e da esperança de um dia poder voltar.
Segundo ela, só a passeio.
Ela lembrou de relance também uma canção que parece ter sido composta logo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo (Bósnia), em 1914. O atentado, cometido por nacionalistas pró-Sérvia, deu início à Primeira Guerra Mundial. A música, até onde foi possível captar da versão apresentada por Kata, diz que o herdeiro do império receberia um “presente” quando fosse visitar Sarajevo. Outra música de que Catarina relembra alguns trechos, fala provavelmente da destruição de Sarajevo durante o conflito.
“Sarajevo e Bósnia em que vivi minha juventude/ agora todos pegam o cigarro e passam a fumar/as cinzas caem e Sarajevo está se acabando”.
Algumas pessoas da família de Catarina acabaram tendo seus nomes “abrasileirados”. Assim Ivan, Frana, Ante, Petar, Jaka e Mara viraram, respectivamente, João, Francisca, Antonio, Pedro, Jacobina e Margarida.
Catarina trabalhou numa fábrica de tecidos entre 1925 e 1937, quando nasceu sua filha caçula. Como na música de Noel Rosa, ela lembra do apito da fábrica, anunciando o começo e o fim do expediente. Conta que, por não saber o idioma português, várias vezes “eles mandavam fazer uma coisa e eu acabava fazendo outra”. Nesses momentos o recurso da mímica era fundamental.
Ainda hoje ela tem um forte sotaque e continua falando bem o servo-croata; escreve pouco e, centenária, lê bem.
Até adquirir sua casa atual, construída em sistema de mutirão familiar em 1937, ela morou em respeitáveis cortiços. Estes abrigavam não só sua família, mas, algumas vezes, também conhecidos que emigraram de Korcula para o Brasil. Por isso é que as famílias dos primeiros imigrantes “iugoslavos” se fixaram principalmente na Zona Leste da cidade de São Paulo.
Memórias
As memórias mais marcantes de Kata são de cenas de sua primeira infância e começo da adolescência, como acontece com freqüência entre pessoas longevas. Os registros de infância marcam a alma como ferro em brasa.
Acompanham o ser adulto ao longo de toda a sua vida, e ganham mais vida e maior relevância, no filme projetado pela memória, do que eventuais transformações políticas e culturais, por mais monumentais que sejam.
Apesar de ter assistido à ascensão e queda de impérios e reinos nos Bálcãs, de ter passado por duas guerras mundiais e de ter testemunhado o processo de industrialização de São Paulo, Kata ainda se lembra vivamente da morte de sua mãe, quando ela tinha apenas dois anos. E de uma pequena boneca de pano, dada por uma amiga italiana.
Já morando e trabalhando no Brasil, Catarina voltou todas as suas atenções para os filhos, os 15 netos e 11 bisnetos. Eles são as razões, os marcos e o destino de sua jornada ao longo do século. São seu tesouro particular, que, ao contrário dos impérios que para sempre desapareceram na poeira dos tempos, frutificam nesse mister humano de tentar viver em paz a própria vida.
Boletim Mundo Ano 9 n° 2

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