quarta-feira, 9 de março de 2011

DO BONSAI AO GPS, A PACIENTE CRIAÇÃO DA PAISAGEM JAPONESA

Gilson Schwartz
A s terras japonesas são vítimas de um mal estrutural que vem do subsolo. São terras que tremem: é toda uma civilização ilhada nos seus  entornos, mas ilhada também da própria base, origem ou fundamento.
Minha maior descoberta como estudioso da cultura japonesa foi a palavra “konki”. Nas minhas idas e vindas ao trabalho em Tóquio, no trem, no período em que lá vivi, eu tentava decifrar o sentido dessa palavra composta por dois ideogramas: “kon”, significa raiz, “ki”, energia.
Seria “konki” a raiz de toda a energia? A base da vida ou uma fonte de energia? Ou a energia da própria raiz, que se espalha numa espécie de rede e encontra sustentação onde, afinal, não há uma base estável, pois está sujeita a terremotos? A tradução: “konki” significa paciência.
É muito comum, no Japão, atribuir certas características da  sociedade ao fato de se viver numa terra sujeita a terremotos. A combinação  terremotos e montanhas teria criado condições a tal ponto adversas de habitação e cultivo que os japoneses foram obrigados a desenvolver-se tecnicamente (procurando maximizar o resultado de um terreno ou criando construções de madeira com a flexibilidade necessária para agüentar, ao menos, os terremotos mais fracos).
O jardim japonês, nesse conjunto de competências práticas e intelectuais, é uma síntese de todos esses problemas: é um lugar para se sentar, meditar e esvaziar, mas diante de uma paisagem cujo equilíbrio, estabilidade e integração resultam sempre do mais apurado manejo de técnicas agrícolas e elaborações estéticas. Levada ao extremo, essa situação aparece com toda a força na forma do “bonsai”, as árvores em miniatura. Há nesse cultivo/ cultura um exercício evidente de paciência e recusa à resignação com o que a “paisagem” ou a “natureza” oferecem de pior aos japoneses.
Morando e visitando o país muitas vezes nos últimos dez anos, fui percebendo que novas tecnologias são usadas nesse jogo permanente entre espaços construídos e meio natural.
Um exemplo clássico é o da tecnologia ferroviária.
Quem já não ouviu falar ou viu alguma foto do shinkansen, um dos trens mais rápidos do mundo? A obra mais impressionante é o túnel Seikan, sob o estreito de Sugaru (300 metros abaixo do nível do mar), o mais longo do mundo (53 quilômetros). Custou US$ 7 bilhões, foi construído em 25 anos, e num terremoto, é considerado um lugar mais seguro que prédios e casas. No total, são cerca de 90 quilômetros de território ferroviário subterrâneo.
Na megalópole japonesa , existem verdadeiras cidades subterrâneas, como raízes se espalhando a partir de uma estação de metrô. Há enormes mercados, temos a sensação de estar andando numa feira ao ar livre. De repente, em meio ao frescor de frutas ou peixes do dia, constatamos que o “mundo” está dezenas de metros de concreto e aço acima de nossas cabeças.
Na superfície, há também prodígios de criação e ocupação de espaços. Akashi, a maior ponte suspensa do mundo, fica entre Kobe e Himeji. Tanto em Tóquio quanto em Kobe destacam-se ainda as gigantescas ilhas artificiais. Kobe foi vítima, em 1995, de um dos maiores terremotos da história japonesa.
A criação dessas ilhas ganhou força no começo do século XIX, mas os japoneses já construíam ilhas artificiais no século XII.
A sensação, com o tempo, é a de um país cujos espaços construídos criam dimensões virtuais, artificiais, exteriores e interiores, com tal densidade física e significado cultural que a brutalidade do meio natural parece magicamente suspensa.
Com o desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação, os japoneses seguiram a mesma lógica. A distribuição de sensores por todo o território, para monitoramento de atividades sísmicas, já constitui uma representação do espaço mediada por tecnologias de informação. Trilhos de ferrovias, prédios, estradas  tudo está conectado a uma rede em que os níveis de risco são registrados permanentemente.
O Japão está “cabeado” e os espaços, principalmente nas grandes cidades, já foram digitalizados e inseridos em mapas virtuais. Nos carros, sistemas de navegação por computador (GPS) indicam caminhos, condições de trânsito e outras informações atualizadas em tempo real.
Assim, num lugar do planeta onde as chamadas forças brutas da natureza se manifestam do modo mais impiedoso e aterrorizador, surgiu uma civilização que projeta sobre essa natureza imutável uma reconstrução terapêutica, paciente e permanente da própria paisagem.
Origens do pokemon no império da imagem
O sucesso extraordinário do seriado “pokemon” tem resistido a todas as explicações psicológicas e estéticas. Mas esse não é um fenômeno isolado. O Japão, que se destaca na história contemporânea por suas conquistas técnicas de hardware, tem sido – pelo menos desde o final do século XIX  também uma importante fonte de inspiração estética e cultural.
Os pokemon – monstrinhos que evoluem da mesma forma que um judoca ou karateca avança de faixa em faixa – são um caso na longa história dos personagens japoneses que se destacam no mundo do manga (história em quadrinhos). A palavra “manga” surgiu em 1814 para designar ilustrações (as mais célebres são as de Katsushika Hokusai). Foi, aliás, um desdobramento do Ukyo-e, gravuras japonesas que fizeram a cabeça de pintores franceses no final do século XIX. Algumas dessas gravuras tinham temática humorística. Daí surgiram os quadrinhos japoneses.
O universo da recriação de tipos (humanos e animais) tem uma longa e rica história no Japão (a começar do Godzila, passando por Ultramen ou National Kid e chegando aos pokemon). Depois da influência japonesa sobre o Ocidente, foram os europeus, e mais tarde os americanos, que influenciaram os ilustradores japoneses. Desse cruzamento surgiram impérios de imagens, agora digitais e animadas, distribuídas em filmes (anime) ou jogos (videogames).
Boletim Mundo Ano 9 n° 5

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