quarta-feira, 9 de março de 2011

RUMO A UMA NOVA CRISE ASIÁTICA

Queda na demanda global de semicondutores atinge em cheio as plataformas de exportação do Oriente, sinalizando colapso pior que o de 1997
O governo dos Estados Unidos defende um dólar forte. Mas a economia mundial está perdendo vigor, o comércio internacional perde força, os americanos tendem a exportar menos. Exportando menos, o valor do dólar pode começar a cair em relação ao euro e outras moedas internacionais.
Para as plataformas exportadoras asiáticas, esse risco pode ser o estopim de uma nova crise. A crise do final da década de 1990 foi superada apenas porque a economia americana continuava crescendo e importando quantidades cavalares de semicondutores e, em geral, produtos eletrônicos asiáticos.
O desaquecimento nos Estados Unidos já provocou um novo abalo na Ásia do leste e sudeste. A macrorregião vive “um dos piores momentos de desaceleração econômica das últimas décadas”, na descrição do normalmente sóbrio jornal britânico Financial Times.
Os Estados Unidos e o Japão são a fonte de 35% da demanda por exportações dos Novos Países Industrializados (NPIs). Segundo a mesma reportagem do Financial Times, a queda nas vendas externas da Ásia ainda não chegou ao fundo do poço. Para o banco de investimentos Morgan Stanley, o cenário comercial asiático poderá ficar ainda mais crítico no terceiro trimestre.
Em julho, as exportações mensais de Taiwan caíram 17%. Na Coréia do Sul e Malásia, a queda foi de 14%.
Na Indonésia, 10% e 8% em Hong Kong.
As economias dos NPIs especializaram-se na produção de semicondutores, funcionando como satélites das empresas de Tecnologia da Informação (TI) dos países desenvolvidos.
Durante os anos recentes, de crescimento global acelerado do setor de TI, os fabricantes de computadores, telefones celulares e eletrônicos em geral estocaram semicondutores. A brusca queda global na demanda por produtos de TI abriu um abismo entre a oferta e a demanda de semicondutores. Em conseqüência, no último ano, os preços dos chips básicos de memória sofreram redução de 80%. Comenta-se que a americana Intel está prestes a cortar pela metade o preço dos chips sofisticados, utilizados em unidades centrais de processamento (CPUs).
A desaceleração econômica americana ainda é caracterizada como “pouso suave”, pois a recessão é mais profunda sobretudo no setor de TI, enquanto vários setores ainda crescem. Se a recessão se generalizar, provocando uma queda geral nas importações, os asiáticos serão ainda mais prejudicados.
DO ÓLEO DE PALMA AOS CHIPS DE MEMÓRIA
O leste e sudeste  asiáticos conheceram o mais rápido e intenso processo de modernização econômica da história. A “primeira onda” da industrialização asiática, deflagrada na década de 1970, envolveu as cidades-Estados de Cingapura e Hong Kong, a “província rebelde” chinesa de Taiwan e a Coréia do Sul. A “segunda onda”, deflagrada na década de 1980, envolveu a Malásia, a Tailândia e a Indonésia. Esse conjunto heterogêneo passou a ser denominado Novos Países Industrializados (NPIs).
Uma “terceira onda” encontra-se em pleno desenvolvimento, na China Popular.
Os NPIs estão longe de formar um conjunto homogêneo. A diversidade é a regra, sob os pontos de vista  demográfico e sócio-econômico. O “planeta chinês” é um caso singular, sob qualquer ângulo de análise.
Mas a difusão da indústria moderna na macrorregião é um fenômeno único, apesar da diversidade entre as sociedades e economias nacionais. Os NPIs e a China adotaram o modelo de plataforma de exportação. Os seus ingredientes principais foram a conquista dos mercados externos, os estímulos do Estado à modernização industrial e a oferta de mão-de-obra barata e qualificada.
Os capitais japoneses desempenharam papéis vitais na decolagem industrial. Na década de 1970 – sob os impactos combinados do aumento nos preços da energia, provocado pelos “choques do petróleo”, e nos custos da mão-de-obra, provocado pelo sucesso da reconstrução industrial – as empresas japonesas passaram a investir no exterior, relocalizando indústrias nos países do leste e sudeste da Ásia.
O mercado consumidor dos Estados Unidos tornou-se o principal alvo das plataformas de exportação. A concorrência dos produtos baratos asiáticos contribuiu para estimular a inovação tecnológica nos Estados Unidos, pois forçou as empresas americanas a aumentarem o valor agregado das suas mercadorias. A dependência dos NPIs em relação ao mercado americano refletiu-se nos sistemas de câmbio: as moedas nacionais dos países do leste e sudeste da Ásia passaram a oscilar em torno do dólar.
Os NPIs da “primeira onda” saltaram das indústrias têxteis para as eletrônicas e, destas, para as microeletrônicas. Enquanto subiam os degraus da tecnologia, passavam a investir no exterior, contribuindo para a difusão da “segunda onda” industrial na macrorregião. A “terceira onda”, que é a “onda chinesa”, beneficia-se plenamente não só das relocalizações japonesas, mas também das coreanas e taiwanesas.
O rumo ascendente da modernização foi, em grande parte, orientado pelas políticas de Estado. Sob o influxo da “revolução da informação”, os financiamentos diretos e indiretos dos Estados estimularam a implantação, em larga escala, de fábricas de semicondutores. O Japão foi o pioneiro, na década de 1970, seguido pela Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, nas décadas de 1980 e 1990. Atualmente, a moda alcançou a Malásia e a China.
O novo “vício asiático” traduziu-se na especialização radical das economias dos NPIs: o setor de tecnologia da informação (TI) representa mais de metade das exportações de Cingapura e quase o mesmo para Taiwan. Na Malásia, 60% das exportações e 42% do PIB dependem de produtos eletrônicos, principalmente semicondutores. Uma única empresa de chips de memória da Coréia do Sul – a Hynix Semiconductor, do conglomerado Hyundai – responde por 4% das exportações do país. A imagem de fábricas com funcionários em aventais brancos captou a imaginação modernizante dos Estados asiáticos. Mas, o vício resultou na criação de capacidades produtivas em excesso, que tornam as economias nacionais vulneráveis às bruscas oscilações da demanda nos países desenvolvidos.
É uma triste ironia. No passado recente, a economia da Malásia prosperava ou afundava ao sabor da demanda mundial por estanho, óleo de palma e madeira.
Atualmente, os seus ciclos, igualmente extremos, dependem da demanda de chips de memória nos Estados Unidos.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5

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