quarta-feira, 9 de março de 2011

O “capitalismo-fábrica”, à sombra deYasukuni

O Japão moderno foi parido pelos Estados Unidos, por duas vezes  em meados do século XIX e no pós-guerra. O produto do parto inicial caracterizou-se pelo militarismo e pelo expansionismo. O segundo parto resultou em um Estado empresarial-burocrático, uma potência econômica que se resignou a viver à sombra do guarda-chuva nuclear americano.
Em 1854, o comodoro americano Matthew Perry forçou a abertura do comércio japonês bombardeando portos do país. Os “navios negros” de Perry desataram a crise e o colapso do sistema político do xogunato, assentado sobre o poder regional dos “senhores da guerra”, os chefes regionais que mantinham os camponeses sob uma espécie de servidão. A devolução do poder ao imperador Mutsuhito, completada em 1867-68, tornou-se conhecida como Restauração Meiji.
O novo sistema político baseou-se numa fusão original entre o absolutismo moderno e a antiga religião xintoísta. O Estado Xinto, como foi chamado, identificou a nação ao imperador e coloriu o nacionalismo japonês com os ingredientes da glorificação da guerra e da honra. O mausoléu de Yasukuni, erigido em 1869 em homenagem aos mártires de guerra japoneses, ocupou um lugar simbólico na mitologia nacional do país.
Superando os particularismos político e econômico, a restauração do poder imperial conferiu um vigoroso impulso modernizador e industrializante ao país. Em poucas décadas, o Japão tornou-se a maior potência do Oriente.
O movimento de reação ao expansionismo americano no Pacífico acabou conduzindo o Japão Meiji a desenvolver o seu próprio expansionismo imperial, nas ilhas oceânicas e no continente asiático. Em 1894, tropas japonesas desembarcaram na China e conquistaram a ilha de Taiwan. O Japão assumia um lugar de destaque entre as várias potências que partilharam os portos chineses, assegurando-se de monopólios comerciais. Pouco depois, em 1905, Japão e Rússia entraram em conflito pelo domínio da península coreana. Para surpresa mundial, as forças japonesas esmagaram o poderio da Rússia imperial, anexando a Coréia.
O expansionismo japonês edificou uma vasta área de influência – a “esfera de co-prosperidade do Leste Maior asiático”  que atingiu o seu ponto culminante durante a Segunda Guerra Mundial. A ocupação do leste chinês, a vitória em Pearl Harbor (Havaí), e a conquista da Indochina, Indonésia e Filipinas transformaram o Pacífico, por um breve período, num imenso “lago japonês”.
O Japão sem poder
Não faltou simbolismo, na hora da derrota. Após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, os representantes do imperador tiveram que assinar a rendição incondicional a bordo de um porta-aviões americano.
No imediato pós-guerra, sob ocupação militar americana, foram desenhadas as reformas políticas destinadas a “ocidentalizar” o Japão. O imperador negou a sua divindade, em emissão radiofônica, destruindo os fundamentos do Estado Xinto. A nova Constituição limitou os gastos militares às necessidades estritas de defesa. No lugar de forças armadas, o país passaria a ter, unicamente, as Forças de Autodefesa. Em 1954, na moldura da Guerra Fria, firmou-se um pacto bilateral que colocou o país sob o escudo protetor das armas nucleares dos Estados Unidos.
O passado não foi totalmente apagado. Apesar da sua dissolução formal, os zaibatsu, conglomerados industriais de base familiar, reergueram-se no pós-guerra e formaram a espinha dorsal do relançamento econômico. A tradição de uma forte coesão entre os grupos empresariais e o poder político, oriunda da Restauração Meiji, serviu como base para as políticas industriais que orientaram a reconstrução.
A burocracia estatal coordenou e planejou o crescimento industrial, rodeando os conglomerados de estímulos e proteções e selecionando as empresas destinadas a concorrer no mercado mundial. As noções de disciplina e fidelidade estruturaram as relações entre a força de trabalho e as empresas, alicerçando-as sobre a garantia de emprego por toda a vida. O Estado encarregou-se de realizar significativos investimentos em educação, formando trabalhadores e profissionais de elevada qualificação.
A conquista dos mercados externos apoiou-se numa política agressivamente exportadora, fundada na sub-valorização cambial do iene: produtos japoneses deveriam ser baratos fora do Japão, e produtos estrangeiros deveriam ser caros dentro do Japão. A força do dólar fez o resto. Na década de 1960, o Japão começava a registrar saldos positivos crescentes no comércio com os Estados Unidos. A manutenção de uma balança comercial superavitária tornou-se um traço estrutural do “capitalismo-fábrica” japonês.
A indústria têxtil, a siderurgia e a construção naval lideraram os primeiros tempos da reconstrução. Nas décadas de 1960 e 1970, esses ramos foram substituídos pela eletrônica de consumo e pela indústria automobilística. Pouco mais tarde, com o desenvolvimento da revolução tecnocientífica, a robótica, a informática e a microeletrônica passaram a funcionar como locomotivas do crescimento econômico. Nas últimas décadas, os investimentos japoneses contribuíram para a industrialização da Ásia do leste e do sudeste.
O Japão tornou-se, simultaneamente, um gigante econômico e um anão geopolítico.
A sua política externa limitou-se, na prática, à esfera comercial. O nacionalismo sobreviveu apenas como ruído subterrâneo, manifestando-se sob as formas de uma renitente recusa a pedir perdão pelas atrocidades cometidas na Coréia, na China e na Indochina ocupadas e de “visitas privadas” de primeiros-ministros ao mausoléu de Yasukuni.
A década de 1990 trouxe duas grandes novidades, contrastantes entre si. De um lado, a prosperidade econômica deu lugar à estagnação prolongada. De outro, o Japão começou a emitir sinais de que é chegada a hora de superar a inibição geopolítica e passar a ocupar um lugar de destaque no sistema internacional de Estados.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5

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