Os ataques terroristas nos Estados Unidos podem alterar o rumo da economia mundial? As opiniões estão divididas.
Há quem veja na resposta americana a oportunidade para uma recuperação econômica, com mais gastos militares, redução de juros e, de modo mais geral, um reforço no estado de espírito da população do país. No Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo publicou editorial nessa linha.
Numa visão oposta, há os que atribuem aos ataques terroristas o dom de agravar a situação econômica, abalando a confiança dos mercados na hegemonia americana, deprimindo ainda mais investimentos e decisões de consumo e criando custos adicionais para todas as transações, sobretudo as que se realizam entre fronteiras. O comércio internacional sofreria mais um baque e aumentaria a instabilidade nas taxas de câmbio do sistema econômico global. Foi nessa linha a análise editorial do jornal Folha de S. Paulo.
“Otimistas” e “pessimistas
Um dos mais importantes economistas americanos, o democrata Paul Krugman, está entre os otimistas. Ele acha que o clima de guerra ajuda a estimular a economia: encomendas de armas, mobilização de reservistas e mais gastos com segurança podem aquecer os mercados. De outro lado, a destruição estritamente física sobretudo as duas torres do World Trade Center seria irrelevante do ponto de vista do sistema econômico norte-americano: a área destruída tinha cerca de 1,1 milhão de m2 de espaço de escritórios, contra 35 milhões de m2 somente em Manhattan e 325 milhões nos Estados Unidos.
Já para os pessimistas os ataques a Nova York e Washington abalariam a confiança tanto de investidores quanto de consumidores, a ponto de transformar o “pouso suave” (desaquecimento gradual da economia norte-americana) num “hard landing” (pouso forçado, com recessão acentuada e mesmo depressão da economia americana e mundial). De fato, os indicadores de confiança de consumidores e de lucratividade de empresas vinham exibindo quedas sucessivas e a contração industrial já dura quase um ano na economia americana.
Além disso, a tendência de reduzir os juros nos Estados Unidos, aliada ao desencanto com a segurança da economia americana, são fatores que podem enfraquecer o dólar. Nos primeiros dias após os ataques, o dólar caiu em relação ao iene e ao euro. Um dólar mais fraco significaria pressões inflacionárias que abalariam ainda mais a confiança no sistema financeiro centrado em Wall Street.
No entanto, essa visão pessimista é apenas um prolongamento do diagnóstico, anterior aos atentados, de desaquecimento global. Ou seja: não é correto dizer que os atentados precipitam uma recessão.
O ciclo econômico global não se altera; no máximo é agravada a tendência já em curso de perda de dinamismo.
O desenvolvimento da reação militar americana desencadearia novos fatores e pressões sobre a economia global.
Quanto mais prolongada a ação militar, menores as chances de consenso em torno de uma aliança anti-terrorista.
Nesse contexto, o modelo de economia global liberalizada sob o controle americano torna-se menos provável. Afinal, para manter o sistema econômico global alinhado, os Estados Unidos poderiam ser levados a fazer concessões em suas propostas de hegemonia no comércio, nas finanças e na tecnologia.
O caso da China é exemplar. No dia mesmo dos ataques, o governo americano suspendeu as negociações em torno da entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC). Logo o governo chinês se alinhou aos Estados Unidos. Mas a negociação continua e virão novas rodadas. Com o tempo, a posição pode se inverter dona de um arsenal nuclear médio, a China pode pressionar e obter concessões comerciais em troca de um alinhamento mais duradouro com os Estados Unidos no combate ao terrorismo e no controle das tensões na Ásia. O mesmo vale para a Rússia, potência nuclear cuja recuperação econômica depende de entendimentos com o poder americano.
Cenário mais provável: uma desordem crônica
Assim, no médio e longo prazos o cenário mais provável é o de uma desordem crônica: nem recessão catastrófica, nem reafirmação da hegemonia americana. Nem se elimina completamente o terrorismo, nem se produz um consenso em torno da supremacia dos Estados Unidos. Nem catástrofe, nem reerguimento rápido da economia americana e mundial.
Na prática, esse já é o estado de coisas predominante desde o final da Guerra Fria. Fracassaram todas as tentativas de criar foros supranacionais legítimos, na economia e na política. O sistema econômico mundial continuaria sem regulação, com baixa governabilidade.
Instâncias como o Banco Mundial, o FMI, a OMC relevantes para a consolidação de uma economia global estável , continuariam insuficientes, quando não contraproducentes.
Isso não é algo que tenha sido criado pelos ataques terroristas. Mas os ataques tornaram ainda mais evidente a precariedade das instituições econômicas globais.
Boletim Mundo Ano 9 n° 6
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