quarta-feira, 9 de março de 2011

EXPANSÃO DO CONSUMO EXIGE NOVA REVOLUÇÃO ENERGÉTICA

Mais de cem anos atrás, o economista britânico William Stanley Jevons previu a exaustão das reservas de carvão e a interpretou como um obstáculo central para o crescimento sustentado. Os mais sérios desafios à sustentabilidade do desenvolvimento no setor energético não são postos pela escassez de recursos não-renováveis. Esses desafios consistem nos efeitos ambientais e sociais do consumo de energia, ou da sua insuficiência. E esse não é um fenômeno novo. O uso não sustentável da energia tem uma longa história. São exemplos  o quase completo desflorestamento da península helênica, virtualmente completado na Antigüidade, e da meseta espanhola e Ilhas Britânicas, no século XVI. A partir do início da era do carvão, o fog de Londres – produto da queima de carvão de baixa qualidade – tornou-se infame, com sérios impactos sobre a morbidade e a mortalidade.
(Agência Internacional de Energia, World Energy Outlook 2000)
A política energética é regida pelos prazos longos. Os investimentos que a produção de energia mobilizam  sob as formas de plataformas e refinarias de petróleo e gás, dutos, minas de carvão, usinas hidrelétricas, térmicas ou nucleares  coagulam-se por muitas décadas. As decisões estratégicas adotadas hoje gerarão efeitos duradouros, determinando os padrões de consumo e seus impactos ambientais. As mudanças de rota jamais podem ser bruscas, pois o capital produtivo em operação deve ser amortizado. As novas políticas tardam para surtir efeitos, pois exigem a construção de infra-estruturas volumosas e dispendiosas. A política energética pode ser comparada a comandar um transatlântico, mas não a pilotar uma motocicleta.
Como projetar cenários com décadas de antecedência? Os “choques do petróleo” de 1973 e 1979 abriram as comportas para as profecias apocalípticas. Na época, o Departamento de Energia dos Estados Unidos previu que a escassez física de reservas de petróleo se refletiria em preços de até US$ 250 por barril, na virada do século.
O barril custa, hoje, cerca de um décimo disso e as reservas de petróleo conhecidas são suficiente para muitas décadas de consumo. Não havia escassez física. Os elevados preços alcançados pelo barril em 1979 e as tenebrosas profecias daqueles anos estimularam os investimentos em prospecção e extração, que acarretaram descobertas de vastas reservas, aumento da produção e queda nos preços.
As projeções de hoje mudam os cenários de amanhã. O pânico provocado pelo mito do fim do petróleo também estimulou investimentos na produção de energia a partir do gás natural, de usinas nucleares e hídricas. Entre 1973 e 1998, o suprimento energético global cresceu quase 60%, mas a participação do petróleo experimentou significativa redução .
O reinado do petróleo foi abalado, mas não destruído. Na verdade, em termos absolutos, o consumo global de petróleo aumentou 25% no período. Contudo, novas tendências políticas e econômicas podem estar começando a arruinar esse reinado.
O “choque ambiental
As cidades industriais inglesas do século XIX, movidas pelo carvão mineral, tornaram-se tristemente famosas pela poluição atmosférica. Na antiga União Soviética e nos países do Leste europeu que orbitavam sob sua influência, as usinas térmicas e os fornos siderúrgicos a carvão deixaram uma herança ambiental vergonhosa. O reinado do combustível sólido é ainda mais poluente que o do combustível líquido.
A crítica ambiental ao carvão e ao petróleo difundiu-se na década de 1970, como parte da pregação mais ampla sobre a necessidade de preparar o advento de um mundo livre dos velhos combustíveis. Na época, muitas esperanças foram depositadas em fontes alternativas, como a energia nuclear, a eólica e a solar.
A energia nuclear decolou, na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, saltando de uma geração de insignificantes 203 TWh (Terawatts/hora) em 1973 para apreciáveis 2.444 TWh em 1998. Contudo, os acidentes nas usinas de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979, e de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, somaram-se à ausência de uma solução definitiva para o armazenamento do “lixo radioativo”, estancando a expansão da geração termonuclear.
A fonte eólica e a solar tornaram-se vítimas da queda dos preços do petróleo, que removeu os incentivos para investimentos em alternativas energéticas mais caras. Mesmo assim, as turbinas eólicas revelaram-se competitivas  em certas regiões dos Estados Unidos, Dinamarca, Espanha e Alemanha.
A novidade da última década é a intensificação da crítica ambiental aos velhos combustíveis, impulsionada pela teoria do efeito estufa e pelos tratados destinados a limitar as emissões de dióxido de carbono (CO2). Essa força política representa a principal ameaça ao reinado do petróleo.
A primeira dimensão do problema são as estratégias dos países desenvolvidos para cumprir os limites de emissões definidos em tratados internacionais. A segunda dimensão, mais grave, são as estratégias para gerar a energia excedente demandada pelos países subdesenvolvidos, especialmente na Ásia.
Os países subdesenvolvidos apresentam consumo energético per capita muito inferior ao dos países desenvolvidos . Mas a marcha do crescimento demográfico, da industrialização e da urbanização nesses países está reduzindo o abismo. Entre 1973 e 1998, o consumo de energia na Ásia (excluindo o Japão) cresceu mais que o dos países desenvolvidos.
As projeções indicam que, entre 1998 e 2020, o aumento do consumo energético da China, isoladamente, será cerca de 60% maior que o dos países desenvolvidos em conjunto .
A participação dos países desenvolvidos nas emissões de CO2 reduziu-se de quase 64% em 1973 para cerca de 53% em 1998. A participação da China cresceu de quase 6% para perto de 13%. Como serão supridas as imensas necessidades de energia dos países subdesenvolvidos nas próximas duas décadas? Será possível aumentar a produção energética global em quase 45% sem provocar um desastroso crescimento nas emissões de CO2 e outros “gases de estufa”?
Rumo à “era dos gases”?
A matriz energética chinesa sustenta-se essencialmente sobre o carvão mineral. Se o crescimento da produção de energia na China basear-se na matriz atual, as conseqüência ambientais serão as piores, tanto em escala global como em escala local.
Historicamente, a era dos combustíveis sólidos deu lugar à dos combustíveis líquidos. A matriz energética norte-americana e brasileira reflete o predomínio do petróleo.
Os combustíveis líquidos são menos danosos que os sólidos, mas também geram emissões de “gases de estufa” em quantidades incompatíveis com as metas políticas dos tratados ambientais.
Em tese, a solução para o problema da expansão acelerada da demanda global de energia encontra-se na combinação de tecnologias mais eficientes, capazes de aumentar em muito a eficiência energética, com um salto para matrizes baseadas nos gases. A era dos gases representa a promessa de impactos ambientais significativamente menores que os atuais.
Os otimistas imaginam que a era dos gases já começou, através da expansão do uso de gás natural. A produção de gás natural praticamente dobrou entre 1973 e 1998 e, hoje, o gás rivaliza com o carvão pela segunda posição entre as fontes primárias em escala global. As turbinas de última geração tornaram as usinas térmicas a gás economicamente mais eficientes que as movidas a petróleo ou carvão e proporcionaram apreciável redução das emissões.
Os visionários acreditam que o gás natural é um desbravador, que abre o caminho para o advento da geração elétrica a partir de células de combustível a hidrogênio.
A tecnologia já equipa alguns protótipos de automóveis capazes de rodar gerando “emissão zero” de CO2. Essa seria, de fato, uma nova era na história da energia. Por enquanto, é uma profecia ousada.
Boletim Mundo Ano 9 n° 4

Nenhum comentário:

Postar um comentário