Regina Araújo
N a Ilíada e na Odisséia, epopéias atribuídas a Homero, as florestas estão presentes no cenário das ações dos deuses e heróis da Grécia pré-clássica.
Alguns séculos mais tarde, o filósofo Platão lembraria os versos destas obras, lamentando a perda das florestas e a esterilidade das montanhas de sua terra.
As florestas gregas haviam sido devastadas para a produção de energia, assim como aconteceria com grandes extensões de florestas temperadas no continente europeu durante a Idade Média.
É verdade que uma parcela da madeira extraída foi utilizada para a construção de navios (principalmente no caso da Grécia) e de habitações. A maior parte, entretanto, foi transformada em carvão vegetal, alimentando as fornalhas das antigas fundições de ferro.
Até a Revolução Industrial, o carvão vegetal continuou sendo a matéria-prima básica destas primitivas siderúrgicas.
Por isso mesmo, e devido à pequena escala da produção, elas se encontravam dispersas pelo espaço geográfico: a madeira estava disponível em quase todos os lugares. As manufaturas têxteis, que dependiam principalmente da habilidade manual dos produtores, se espalhavam pelas cidades que polarizavam as rotas comerciais.
As paisagens tipicamente industriais foram resultado de uma grande transformação no âmbito da energia.
Já no século XVIII, com o aperfeiçoamento da máquina a vapor e o desenvolvimento de altos-fornos movidos a carvão mineral, as indústrias têxteis e siderúrgicas passaram a ser atraída pelos depósitos carboníferos. Tanto na pioneira Grã-Bretanha quanto na Alemanha e nos EUA, a moderna siderurgia nasceu nas proximidades de grandes jazidas de hulha, utilizada como matéria-prima e também como combustível.
Diversos setores fabris dependiam da siderurgia. Por isso, sobre as bacias de hulha configuraram-se grandes aglomerações industriais.
O carvão mineral também foi um poderoso instrumento de conquista e colonização de novas terras. Os barcos e ferrovias a vapor aproximaram continentes e regiões, configurando pela primeira vez um espaço geográfico de dimensões planetárias. No século XIX, a indústria, fortemente concentrada e instalada em um número restrito de países, se alimentava de matérias-primas oriundas das mais diferentes partes do mundo. O carvão movia tanto o processo produtivo quanto os fluxos que o viabilizavam.
O século do petróleo e da eletricidade
No século XX, seria a vez da indústria automobilística baseada no motor a combustão interna e no petróleo revolucionar as formas de organização do espaço geográfico, principalmente no que diz respeito ao meio urbano.
Na Europa, o traçado urbanístico de inúmeras cidades medievais teve que ser totalmente reconfigurado, de modo a abrir espaço para o tráfego de automóveis.
Em diversas regiões do planeta, a expansão horizontal das cidades e o surgimento de zonas residenciais suburbanas resultaram da disseminação do uso de automóveis particulares.
Nos EUA, as vias expressas, que ligam os subúrbios residenciais de alta renda com o centro das metrópoles, materializam um padrão urbano criado em função do automóvel, no qual ele próprio se torna um voraz consumidor de espaço. Em Los Angeles, uma cidade inteiramente esculpida pelo automóvel, só os estacionamentos ocupam mais de 30% da área urbana.
No que diz respeito ao suprimento energético industrial, a grande novidade trazida pelo século XX foi a eletricidade, que pode ser gerada tanto a partir de fontes térmicas (inclusive petróleo e carvão) quanto a partir da força hidráulica.
Também a eletricidade trouxe impactos profundos nos padrões de organização do espaço geográfico.
O uso da eletricidade como força motriz libertou as indústrias das bacias carboníferas e ampliou de maneira significativa o espectro de opções de localização.
Até hoje, a disponibilidade de energia elétrica permanece como um poderoso atrativo para os investimentos industriais. No Brasil, indústrias exportadoras de alumínio e alumina instalaram-se em Belém e São Luís, em virtude da oferta de energia da usina de Tucuruí.
O geógrafo Milton Santos definiu o espaço geográfico como uma acumulação desigual de tempos históricos.
Isso significa que os padrões de organização espacial resistem às mudanças tecnológicas e permanecem como uma herança, um testemunho do passado. A landes européia, vegetação que ocupou a área das florestas temperadas devastadas, é um testemunho da era do carvão vegetal.
As aglomerações industriais carboníferas consolidadas no século XIX, tais como o Vale do Ruhr, na Alemanha, o Black Country britânico e a região de Pittsburgh, nos Apalaches norte-americanos, testemunham a era do carvão mineral.
As novas aglomerações industriais do século XX refletem a valorização do espaço proporcionada pela eletricidade.
Os automóveis movidos pelo petróleo continuam estruturando o espaço das cidades no mundo inteiro. Entretanto, mesmo dotadas de infra-estruturas de circulação sofisticadas, as metrópoles estão cada vez mais sujeitas aos congestionamentos e à lentidão do tráfego.
A crise atual dos transportes urbanos, é, em grande medida, a crise de um padrão de organização do espaço subordinado ao petróleo.
O fim do motor a combustão interna?
O século XIX foi da máquina a vapor, um motor a combustão externa. O século XX foi do motor a combustão interna, que casou o petróleo com a indústria automobilística. O século XXI será da célula de combustível, a donzela que promete divorciar o automóvel da poluição.
Os encantos da donzela já seduziram partidos poderosos. A alemã Daimler-Chrysler, uma das maiores montadoras do mundo, já exibiu o seu protótipo baseado na nova tecnologia, o Necar (New Electric Car) e anuncia, para 2004, o lançamento comercial de automóveis elétricos. As japonesas Honda e Toyota e a norte-americana General Motors garantem que estarão nesse mercado na mesma época.
A tecnologia parece ter tudo para emplacar. Uma célula de combustível é uma grande bateria que produz eletricidade a partir de hidrogênio e oxigênio. É mais eficiente, do ponto de vista energético, que os motores a combustão interna.
É silenciosa e emite apenas vapor d’água. Bill Ford, presidente da Ford, não deixou por menos: “Eu acredito que a célula de combustível encerrará, finalmente, o reinado de cem anos do motor a combustão interna”.
O sonho enfrenta, porém, um obstáculo temível: a inércia do espaço geográfico.
O mundo está salpicado de postos de gasolina, mas não tem as infra-estruturas necessárias para fornecer hidrogênio a grandes mercados. Automóveis elétricos, a preços acessíveis, podem estar disponíveis em poucos anos. O posto de hidrogênio, na esquina, talvez demore décadas para surgir.
Boletim Mundo Ano 9 n° 4
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