terça-feira, 8 de março de 2011

O ESPECTRO DA RECESSÃO NORTE-AMERICANA RONDA A ECONOMIA MUNDIAL

Embora as perspectivas econômicas ainda sejam predominantemente otimistas no Brasil, com horizonte de retomada do crescimento e controle da inflação, o cenário continua sujeito a pressões e incertezas que vêm da economia global. O foco potencial de instabilidade é o rumo da economia norte-americana.
Há temores de que o desaquecimento nos Estados Unidos, registrado com força no último trimestre, vire uma recessão, a despeito das reduções de taxas de juros promovidas pelo Fed (o Banco Central) desde o início de 2001.
A queda mais rápida dos juros americanos, decidida em janeiro, teve em parte o efeito de acentuar os temores de que os Estados Unidos podem estar passando de um “pouso suave” para uma “aterrissagem forçada”, em meio a uma recessão. O próprio presidente do Fed, Alan Greenspan, reconheceu que teve de agir mais rápido porque a intensidade da desaceleração foi maior que a esperada, tudo piorando muito rapidamente.
De todo modo, é evidente que as reduções de juros trariam alívio apenas num horizonte de médio prazo, de modo que a ação do Fed, mesmo que não seja tardia, é incapaz de promover uma reversão abrupta do quadro de desaquecimento econômico. Os juros caem, mas a angústia com o fim do ciclo de prosperidade aumenta.
A economia oscila, em grande parte ao sabor das expectativas dos consumidores e produtores. O longo ciclo de prosperidade nos Estados Unidos, iniciado em 1993, alicerçou-se sobre o comportamento das bolsas de valores. A Bolsa de Nova York bateu recordes atrás de recordes. A Nasdaq, bolsa eletrônica que comercializa ações das empresas de alta tecnologia, foi inflada por uma gorda bolha especulativa. A classe média americana, que investe parte significativa da sua poupança nas bolsas, consumiu como nunca e endividou-se pesadamente, lastreada na renda proporcionada pelas ações. A queda vertical da Nasdaq, no ano passado, inverteu o sinal das expectativas.
A queda dos juros destina-se a evitar uma retração violenta do consumo, que pode atirar o país na recessão.
Mas também há o temor de que reduções muito fortes e seguidas dos juros levem a novas ondas de endividamento, sobretudo entre os consumidores, o que apenas aumentaria a fragilidade do sistema econômico numa conjuntura de desaquecimento. Mais dívida, com renda em queda, significa maiores dificuldades, no futuro, para pagar as dívidas.
De outro lado, o Fed precisa levar em conta os efeitos da redução dos juros sobre a paridade do dólar frente ao euro e ao iene. Nas últimas semanas, o euro, que vinha perdendo força, voltou a se valorizar. Com juros muito baixos, uma desvalorização mais rápida do dólar e o conseqüente encarecimento dos bens  importados pode gerar pressões inflacionárias nos Estados Unidos. Será que o Fed continuaria reduzindo os juros e ajudando a segurar a economia se a inflação levantar a cabeça?
Outro dado, fonte de otimismo para alguns, é que Greenspan afirmou que uma política de estímulo fiscal via corte de impostos  compromisso de campanha do presidente George W. Bush  seria oportuna e ajudaria a evitar uma recessão, tirando da política de juros a responsabilidade exclusiva pela administração do “pouso suave”.
Há, no entanto, algumas boas notícias, a começar pelo consenso de que os preços do petróleo devem se estabilizar ou mesmo recuar ainda mais nos próximos meses. Outro aspecto positivo é que a reversão no processo de desvalorização do euro cria espaço para reduções de juros por parte do Banco Central Europeu, o que favoreceria o crescimento econômico global (compensando em parte o esfriamento nos EUA). A Grã-Bretanha e o Japão já anunciaram cortes nas suas taxas de juros.
A economia global continua caminhando sobre o fio da navalha.
Mais do que nunca, todos estão de olho nos Estados Unidos, a locomotiva que pode frear suavemente ou descarrilar desastrosamente.
Boletim Mundo Ano 9 n° 1

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