terça-feira, 8 de março de 2011

O BRASIL NA MIRA DE MR. BUSH

O processo de globalização e de aplicação de políticas neoliberais gera enormes concentração de renda, riqueza e poder entre os países e dentro dos países. Este processo e essas políticas levam a tensões econômicas e políticas fortíssimas, devido à geração permanente de desemprego e de exclusão social e a crises periódicas do setor externo (...). Daí a necessidade para os países desenvolvidos, à sua frente os Estados Unidos, de construir, a toque de caixa, uma “rede” de compromissos internacionais que (...) obrigue os Estados periféricos a manterem suas economias abertas (...). A Alca é parte desta estratégia de manutenção da hegemonia política e econômica.
(Samuel Pinheiro Guimarães, diplomata brasileiro, em entrevista ao site Global21, que tornou públicas as divergências no Itamaraty sobre a condução das negociações da Alca).
Tal pai, tal filho. Foi o ex-presidente dos EUA, George Bush, que lançou, em 1990, a Iniciativa para as Américas. O projeto de um bloco comercial continental  “do Alasca à Patagônia”  ganhou forma e cronograma com Bill Clinton: a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) deve entrar em vigor em 2005. Mas Clinton não conseguiu avançar praticamente rumo a essa meta. Agora, George W. Bush eleva a Alca ao topo das prioridades de seu governo.
A disposição do governo dos EUA foi explicitada em fevereiro por Robert Zoellick, o novo representante comercial do país. Em exposição ao Congresso, Zoellick pediu o apoio dos parlamentares para a estratégia de Bush de acelerar as negociações e tentar antecipar o prazo de entrada em vigor da Alca. E não deixou por menos: “Se os outros são demasiado lentos, avançaremos sem eles”.
O recado tinha endereço definido: Brasília. Pouco antes, em telefonema pessoal, Bush convidara Fernando Henrique para um encontro em Washington, no dia 30 de março, a fim de discutir a preparação da Conferência de Cúpula das Américas de Quebec (Canadá), marcada para o fim de abril. Paralelamente, o governo canadense formalizava a proposta de antecipar o cronograma de negociações, que logo recebeu acolhida favorável no Chile. A pressão sobre o Brasil tem sentido: para onde pender a maior economia sul-americana, se inclinará todo o subcontinente.
A Iniciativa para as Américas representou um dos eixos do reposicionamento global dos EUA no cenário aberto com o fim da Guerra Fria. Enquanto os países europeus aprofundavam a sua integração e negociavam o projeto da União Econômica e Monetária (UEM), Washington retomava o fio esquecido do pan-americanismo, desenhando os contornos de um bloco comercial hemisférico.
A criação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), assinado em 1992, estabeleceu as fundações para o bloco das Américas .
O edifício do bloco imaginado pelo velho Bush seria erguido em negociações bilaterais entre Washington e os países latino- americanos, que paulatinamente adeririam ao Nafta. Contudo, a receita fracassou.
A consolidação do Mercosul, criado em 1991 e lastreado na aliança entre o Brasil e a Argentina, fechou o caminho para o método de negociações bilaterais. A crise financeira mexicana, que eclodiu em dezembro de 1994, dissolveu o consenso político que, nos Estados Unidos, amparava o projeto de ampliação do Nafta. Foi depois disso que Clinton construiu uma nova estratégia, baseada na criação da Alca por meio de negociações multilaterais.
O Nafta cimentou a hegemonia econômica e política dos EUA na América do Norte. O Canadá, há décadas, já orbitava em torno do mercado consumidor e da Capacidade de investimento externo dos Estados Unidos. Mas o México experimentou transformações estruturais. Seu intercâmbio comercial com a superpotência, que já era intenso, tornou-se praticamente exclusivo.
O mercado consumidor americano absorve cerca de 80% das exportações mexicanas. Parte significativa dessas exportações  correspondem às vendas de filiais de indústrias americanas instaladas no norte do México na última década. Entre 1985 e 2000, o comércio bilateral foi multiplicado por 7,5%.
Do ponto de vista de Washington, o México era um alvo crucial. Em primeiro lugar, tratava-se de tentar estabilizar o fluxo de imigrantes que se deslocam para os Estados Unidos. Em segundo lugar, de romper a fronteira histórica e cultural que separa a América Anglo-Saxônica da América Latina, estabelecendo um trampolim para a América do Sul.
Os estrategistas de Washington sabem que, no caso, América do Sul significa Brasil. A população e o PIB brasileiros representam quase metade da América do Sul.
Os investimentos externos diretos no Brasil saltaram de US$ 510 milhões em 1990 para US$ 4,8 bilhões em 1995 e US$ 26,9 bilhões em 1999. Na segunda metade da década de 1990, o Brasil rivalizou com a China na posição de maior receptor de investimentos diretos, entre os países subdesenvolvidos.
Em 1998, a parcela do Brasil no volume de capitais que fluíram para os países subdesenvolvidos foi próxima de 20%. Entre 1996 e 1998, os capitais externos investidos na economia produtiva brasileira foram equivalentes à metade de todos os investimentos diretos na América Latina, ultrapassando bastante a soma dos capitais recebidos pelo México e pela Argentina.
A conquista do Brasil
Os Estados Unidos convivem, há décadas, com um desequilíbrio estrutural na balança comercial. Em 2000, o saldo negativo no intercâmbio externo de mercadorias e serviços atingiu o recorde histórico de US$ 370 bilhões. Os maiores déficits ocorreram no intercâmbio de mercadorias com a China (US$ 83,8 bilhões), o Japão (US$ 81,3 bilhões) e a Europa Ocidental (US$ 59,8 bilhões). A América do Sul foi a única macrorregião importante na qual os EUA conseguiram saldos comerciais positivos. Mas os saldos positivos na América do Sul decorrem, exclusivamente, dos superávits no comércio com o Brasil e, em escala menor, com a Argentina.
Em 2000, o intercâmbio entre EUA e Brasil atingiu US$ 29,2 bilhões, muito para o Brasil mas pouco para a superpotência . O superávit americano foi de US$ 1,5 bilhão. Não são esses números que impulsionam a estratégia da Alca, mas sim o seu potencial de crescimento. A redução das barreiras proporcionada pela zona de livre comércio poderia multiplicar o comércio por três ou por quatro, gerando saldos muito significativos. As exportações americanas para o Brasil concentram-se em bens de alta tecnologia e alto valor agregado, e em serviços. O mercado brasileiro é o mais promissor da América Latina, no que se refere às telecomunicações, à informática e à aviação civil. A Alca desviaria grande parte das importações brasileiras, nesses e em outros itens, da Europa para os EUA.
Na economia globalizada, comércio e investimentos estão intimamente associados.
Durante a década de 1990, o programa de privatização e a abertura econômica no Brasil atraíram volumosos investimentos externos.
Mas a Europa rivalizou com os Estados Unidos nos fluxos de capitais direcionados para o país, fincando sólidos pilares na indústria automobilística, nas telecomunicações e nos setores de varejo e financeiro.
A Alca faria o pêndulo oscilar decisivamente para o lado da superpotência, colocando o Brasil na órbita de influência hegemônica das transnacionais americanas.
Com certeza, a maior economia sul-americana não se tornaria um segundo México, em função da distância geográfica.
Mas percorreria extensa parte do caminho que separa as duas Américas...
Boletim Mundo Ano 9 n° 2

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