quarta-feira, 9 de março de 2011

O TEMPO, NO ESPELHO DO ESPAÇO

A aventura geográfica de Milton Santos conduziu-o da cidade ao território. Sua herança teórica é um radar, capaz de desvendar as estruturas sócio-espaciais da nossa época
Milton Santos, o mais influente geógrafo brasileiro, faleceu em junho, aos 75 anos, depois de longa luta contra o câncer. Produziu até o fim. Nos últimos anos, dedicou-se inteiramente a completar seu derradeiro projeto, a obra O Brasil: território e sociedade no início do século XXI (Rio de Janeiro, Record, 2001), resenhada nesta edição.
Não é nenhum exagero afirmar que seu trabalho, vasto e profundo, continuará por muito tempo a inspirar a reflexão geográfica.
Nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, Bahia, Milton Santos graduou-se em Direito.
Doutorou-se em Geografia na França, na Universidade de Estrasburgo. Lecionou em universidades da Europa, África, América do Norte e América do Sul. Publicou mais de quarenta livros. De volta ao Brasil, tornou-se professor no Departamento de Geografia da USP. Ganhou o prêmio Vautrin Lud, algo como um Nobel na área da Geografia.
A cidade foi o primeiro grande objeto de investigação de Milton Santos. Sua dedicação ao processo de urbanização e às estruturas espaciais e sociais das cidades representou, na década de 1960, uma dupla ruptura.
De um lado, ruptura com a tradição geográfica dos estudos regionais, limitados pelo método descritivo. De outro, ruptura com a escola de Geografia quantitativa, que se desenvolvia nos Estados Unidos e funcionava como instrumento de apoio ao planejamento estatal e aos investimentos empresariais.
O geógrafo queria produzir um conhecimento crítico, um bisturi teórico afiado, através do qual fosse possível enxergar as vísceras da sociedade.
A obra fundamental desse período é O espaço dividido, publicada originalmente na França, em 1975. O seu foco é a caracterização dos “dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos”.
O circuito superior abrange as instituições financeiras, a grande indústria, o comércio e os serviços organizados em bases empresariais.
O circuito inferior, as atividades manufatureiras, comerciais e de serviços de tipo familiar, realizadas praticamente sem capital.
Na época em que a obra foi escrita, o pensamento econômico e social ainda encontrava-se preso ao dualismo, ou seja, à contraposição do “moderno” ao “tradicional”. Milton Santos não caiu na armadilha. Mostrou que os dois circuitos são frutos da modernização econômica e que participam, como pólos opostos e complementares, de um único sistema de mercado. Nesse sistema, o circuito inferior orbita em torno do superior e proporciona os meios de vida para a vasta população pobre das metrópoles do Terceiro Mundo.
A crítica da modernização
O espaço geográfico é tempo histórico coagulado. Esse conceito proporcionou a Milton Santos o holofote capaz de iluminar os fios da trama da geografia.
A indústria e a agricultura modernas poupam trabalho, não geram empregos suficientes para sustentar a população dos países subdesenvolvidos. A massa de pobres, excluída do circuito superior e do consumo da maior parte dos bens e serviços gerados pelas tecnologias contemporâneas, é o alicerce sobre o qual se ergue o circuito inferior.
Da cidade, Milton Santos transferiu-se para o território. Nesse trajeto, revisou os fundamentos teóricos e o método da Geografia. Por uma Geografia nova, espaço e método e A natureza do espaço são os marcos do segundo período da vida do geógrafo. Os dois períodos estão, porém, unidos por um cabo que entrelaça a crítica da modernização e a consciência do lugar do tempo na reflexão geográfica.
A crítica da modernização tem como ponto de partida a análise da tecnologia. Mas a tecnologia não é interpretada como um mero conjunto de processos e equipamentos produtivos. A tecnologia é um produto da História, das sociedades e da cultura. Seu controle por empresas monopolistas, na moldura de uma economia que se globaliza, reproduz a desigualdade e a pobreza em escalas ampliadas. A perversidade da modernização está à espreita, atrás de cada onda de inovação tecnológica.
Milton Santos jamais perdeu de vista aquilo que distingue o trabalho do geógrafo  a dimensão espacial dos fenômenos. O ponto de chegada da crítica da modernização foi um conceito de território que recupera o sentido da unidade da Geografia e incorpora o sistema técnico:
Os objetos que interessam à Geografia não são apenas objetos móveis, mas também imóveis, tal uma cidade, uma barragem, uma estrada de rodagem, um porto, uma floresta, uma plantação, um lago, uma montanha.
(...) Esses objetos geográficos são do domínio tanto do que se chama a Geografia Física como do domínio do que se chama a Geografia Humana e através da história desses objetos, isto é, da forma como foram produzidos e mudam, essa Geografia Física e essa Geografia Humana se encontram.
Não se deve confundir, como já se fez, a narrativa geográfica de Milton Santos com uma “história das técnicas”. Pois o sentido da tecnologia está na sociedade que a criou ou da qual ela participa: O enfoque geográfico supõe a existência dos objetos como sistemas e não apenas como coleções: sua utilidade atual, passada, ou futura vem, exatamente, do seu uso combinado pelos grupos humanos que os criaram ou que os herdaram das gerações anteriores. Seu papel pode ser apenas simbólico, mas, geralmente, é também funcional.
Em sua trajetória, Milton Santos ocupou parte do tempo com a crítica da tradição geográfica. Mas dedicou tempo e esforço maiores para erguer uma nova plataforma para a disciplina.
Os mais descuidados podem imaginar que se trata de uma plataforma universitária, destinada unicamente à pesquisa geográfica sofisticada.
Não é: essa plataforma também funciona como base para a renovação crítica da Geografia escolar.
Boletim Mundo Ano 9 n° 4

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